segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Múltiplo 16

Está circulando o número 16 do fanzine virtual de quadrinhos Múltiplo, editado por André Carim.
Em suas 80 páginas, destaca o trabalho da escritora e quadrinhista Michèlle Domiti, criadora de "Juna, a rainha pirata", longamente entrevistada pelo editor. Nos quadrinhos, artes de André Carim, Marcos Gratão, Michèlle Domit, Hélcio Rogéri, Luiz Iório, Maurício Rosélli Augusto, Josi OM e Omar Viñole. A capa traz um desenho de Pedro Ponzo, e ilustrações de Gilliard Goulart, Watson Portela e Marcos Gratão enriquecem o conteúdo.
A publicação pode ser lida online ou baixada gratuitamente aqui e as edições anteriores também estão disponíveis. O zine também podem ser encomendado em formato impresso, aqui.

Juvenatrix 193

Está circulando a edição de fevereiro do fanzine eletrônico de horror e ficção científica Juvenatrix editado por Renato Rosatti, que traz, em 13 páginas, ficções de Allan Fear e Norton A. Coll, artigo de Luiz Saulo Adami sobre o ator Maurice Evans, e resenhas aos filmes Alienator: A exterminadora indestrutível (Alienator, 1990), Sete mortes nos olhos de um gato (La morte negli occhi del gatto, 1973) e Uma noite de horror/A matilha da maldição (Monster dog, 1984). Divulgação e curiosidades sobre fanzines, livros, filmes e bandas independentes de rock extremo completam a edição. A capa traz uma ilustração de Mário Labate.
Para solicitar uma cópia em formato pdf, envie email para renatorosatti@yahoo.com.br.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Ninguém nasce herói

Ninguém nasce herói, Eric Novello. 378 páginas, Editora Companhia das Letras, selo Seguinte, São Paulo, 2017.

A chegada de autores brasileiros ligados ao fandom de literatura fantástica ao catálogo da prestigiosa editora Companhia das Letras é um fato aguardado desde que a editora inaugurou selos exclusivos para a ficção de gênero. Não que autores do fandom já não tivessem conseguido, pois textos de fantasia e horror já não são novidade há muito tempo, não só na Companhia da Letras, mas também em outras grandes editoras nacionais. A questão era: quem seria o grande felizardo que finalmente colocaria a ficção científica nacional nas livrarias pela editora? Tanto que, não é de hoje, circula entre os fãs do gênero a máxima "a fc nacional só decola quando o gênero encontrar o seu André Vianco" (em referência ao best-seller dos romances de horror). Então, o anúncio que Ninguém nasce herói, romance do jovem tradutor carioca Eric Novello, estava na programação do selo Seguinte da Companhia das Letras respondeu a essa expectativa.
Como autor, Novello está associado à Terceira Onda da fc brasileira, geração surgida após o advento da internet. Seu primeiro livro foi Histórias da noite carioca (2004, Lamparina), mas ganhou notoriedade na editora Draco –  reconhecida pela dedicação à produção nacional de fc –,  pela qual publicou os romances Neon azul (2010) e A sombra no sol (2012). Novello também é autor de Exorcismos, amores e uma dose de blues, romance de fantasia publicado em 2014 pelo selo Gutenberg da editora Autêntica.
A sinopse de Ninguém nasce herói é uma distopia na qual a população brasileira é oprimida por um governo integralista, depois que um religioso intolerante, chamado de "O Escolhido", chega à Presidência da República. A violência se instala na sociedade sob o jugo de uma brigada paramilitar – a Guarda Branca – que passa a patrulhar as ruas atacando aqueles de quem não gosta, como é o caso do protagonista, apelidado de Chuvisco, jovem tradutor recém-formado que considera a distribuição de livros nas ruas de São Paulo como uma forma de resistência civil. Para isso, conta com a ajuda de alguns amigos que com ele formam uma espécie de aparelho subversivo do bem, embora, no fim das contas, sejam apenas jovens que querem viver e se divertir. A maior parte do tempo, os garotos – cujas famílias estão ausentes – estão em alguma balada ou brigando, por vezes as duas coisas simultaneamente. Chuvisco é propenso a surtos psicóticos – catarses criativas como ele mesmo os chama –, sempre que fica muito alterado. Durante as tais catarses, tem delírios despertos que mesclam fantasia e realidade: ora ele se vê como um super-herói hipertecnológico, ora tem encontros com entidades purpurantes que só existem em sua imaginação. De briga em briga, as relações entre Chuvisco e seus amigos, que parecem nunca ter sido realmente muito sólidas, vão deteriorando, o que nesse ambiente de violência só pode levar à tragédia. Também há uma discussão discreta sobre sexualidade contextualizada na ampla diversidade de gênero dos personagens.
Há alguma imprecisão quanto a natureza religiosa desse Brasil de exceção criado por Novello. Em alguns momentos, parece que O Escolhido é um tipo evangélico neopentecostal mas, quando focalizado mais de perto, já no final do livro, revela ser católico, o que me levou a pensar nesse contexto como uma fabulação da ditadura militar que assolou o país entre 1964 e 1985, o que faria muito sentido.
É inevitável comparar a aventura urbana de Chuvisco e sua turma com aquela que o escritor chileno Roberto Bolaño desenvolve em O espírito da ficção científica, que não é fc, apesar do nome,  publicado pela Companhia das Letras em 2017. Outro trabalho com o qual também se pode montar algum diálogo é "A grande virada de Vitinho", visto na coletânea 17 histórias alternativas, cômicas e futuristas, de Ataíde Tartari (Virtual Books, 2013), autor da Segunda Onda da fc brasileira que,  no caso, adotou uma abordagem realista. Fica claro o motivo da opção de Bolaño e Tartari por fugirem da fantasia. Geralmente, a fabulação amplia contrastes e permite trabalhar temas espinhosos com maior agudeza sem cair na caricatura mas, em Ninguém nasce herói, acabou por esmaecer o drama contado ali, que teria ficado mais impactante se estivesse ancorado na realidade, como, por exemplo, nos anos de chumbo da ditadura militar.
Mas, independente disso, pelo menos já podemos festejar que a fc brasileira chegou enfim ao grande mercado. Se é o prenúncio de uma onda de best-sellers do gênero, como já aconteceu com o horror e a fantasia, ainda não dá para dizer.  Vamos ver o que 2018 nos reserva.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Deuses renascidos

Deuses renascidos: Livro 2 dos arquivos Têmis (Waking gods), Sylvain Neuvel, 392 páginas. Tradução de Mateus Duque Erthal. Editora Companhia das Letras, selo Suma das Letras, São Paulo, 2017.

No primeiro volume da série Arquivos Têmis, Gigantes adormecidos, publicado em 2016 pela Companhia das Letras e comentado aqui, vimos como um colosso de metal em forma de mulher foi montado a partir de partes pré-fabricadas enterradas há milênios em diversas regiões distantes da Terra. Reunidas por um departamento secreto do governo norte-americano a montagem foi supervisionada pela acadêmica Rose Franklin, uma especialista no artefato que em sua infância havia achado uma das mãos da gigante. Uma vez montada, a máquina revelou ser algo de origem extraterrestre, cuja pilotagem exigia duas pessoas com habilidades e genética especiais, além de características físicas um tanto perturbadoras. As dificuldades na anatomia, bem como em compreender a linguagem e os controles da máquina, resultaram na operacionalidade parcial do artefato que, mesmo assim, se tornou a mais poderosa arma de guerra do planeta, capaz de sozinha destruir um exército bem armado antes de sequer ser arranhada. Sua simples existência lança a humanidade num dilema, pois quem detiver o controle do robô gigante, mandará no mundo. O problema é que as pessoas por trás do robô, incluindo seus esforçados pilotos, são pessoas cheias de defeitos e paixões, e tudo nem sempre sai como se espera.  Quando Rose morre num acidente, parece que as coisas podem perder completamente o controle, mas ocorre o impensável: Rose retorna ressuscitada, mas numa "versão reiniciada" que não entende muito bem tudo o que está acontecendo. Quem a ressuscitou, como e por que são alguns dos mistérios que vamos tentar entender na leitura de Deuses renascidos.
Mas a história da robô – que ganhou o simpático nome de Têmis – e do apaixonado casal que o comanda, a piloto militar Kara Resnick e o linguista Vincent Couture, não se resume às paranoias de Rose. Acontece que apareceu um segundo robô na Terra, surgido do nada em pleno centro de Londres, um monstro ainda maior que Têmis, desta vez na forma masculina. Ninguém sabe de onde veio nem se há alguém dentro dele, pois desde que apareceu não se moveu um só milímetro. A organização que controla Têmis decide levá-la até o monstro que parece ter vindo do mesmo lugar que ela, mas o exército britânico decide não esperar e, de olho na possibilidade  de ter seu próprio robô, empreende um ataque ao gigante antes que Têmis tenha a chance de confrontá-lo. O resultado é catastrófico: ao sentir-se ameaçado, o robô entra em ação e simplesmente pulveriza as forças de ataque, atingindo uma grande área habitada da cidade no processo. O confronto dos dois monstros de metal é inevitável, e tudo parece indicar que Têmis não terá a menor chance. Para complicar, Kara descobre que a cientista psicopata Alyssa Papantoniou, que a submeteu a experiências dolorosas no primeiro romance, obteve sucesso ao fecundar um óvulo retirado dela, e em algum lugar na América, ela tem uma filha que está agora com dez anos e corre o risco de ser sequestrada por espiões de países interessados em deter uma possível piloto para a Têmis. E como tragédia pouca é bobagem, surgem outros treze robôs similares nas mais populosas cidades mundo, e cada um deles passa a atacá-las com um gás mortal que devasta as populações em segundos. Mesmo com Têmis completamente operacional já seria praticamente impossível enfrentar tantos adversários mas, justamente nessa hora, Têmis desaparece dos radares e tudo leva a crer que é chegado o fim da humanidade. Há uma saída, contudo, porque os alienígenas não querem de fato destruir a humanidade. Mas, para obter o direito de sobreviver, será necessário entender a psicologia alienígena e dar-lhes a única resposta adequada possível.
É nesse cenário apocalíptico que se desenrola a sequência da aventura de ficção científica escrita pelo canadense Sylvain Neuvel, que está subdividida em quatro partes: "Parentes e amigos", "Tudo em família", "Unha e carne" e "Parente próximo". O autor sustenta o mesmo modelo narrativo adotado no primeiro volume, contando a história através de memorandos, artigos de jornal, transcrições de entrevistas, relatórios de missões e outros documentos que, tal como uma colagem, montam aos bocadinhos a imagem final dessa tragédia de proporções planetárias. Cada documento tem seu próprio espaço e tempo, com personagens surgindo e desaparecendo, de forma que nem mesmo os nossos queridos protagonistas estão completamente fora de perigo, e o autor tem ampla liberdade para ser muito cruel.
Como estamos no segundo volume de uma prometida série de três e embora algumas coisas até sejam definidas, mais uma vez não há uma conclusão satisfatória ao enredo. O terceiro e último volume, Only human, está anunciado no perfil do autor no Twitter para sair nos EUA em maio próximo, e deve chegar ao Brasil ainda em 2018. Enquanto isso, leia Deuses renascidos. E também Gigantes adormecidos, se ainda não o fez.

Calazans atômico

Graças à gentileza do editor Marcos Freitas, recebi há poucos dias uma trinca de publicações da Atomic Quadrinhos, todas com trabalhos do acadêmico Flávio Calazans, artista que tenho acompanhado desde os anos 1980, quando ele publicava o fanzine Barata. A Atomic tem montado um catálogo de contornos históricos, buscando sempre recuperar trabalhos importantes e artistas distantes das luzes da ribalta.
Flávio Calazans construiu sua carreira basicamente nos fanzines e entre seus trabalhos mais conhecidos está A guerra dos golfinhos, ficção científica publicada originalmente em forma de fanzine, mas que recebeu diversas republicações posteriores, inclusive na saudosa revista Aventura e Ficção, da Abril Jovem, nos anos 1990. Ao longo do tempo, a história evoluiu e esta é por certo a versão mais bem acabada da mesma, que já está em sua quinta edição pela Atomic, com uma bela capa em cores, 86 páginas e muitos extras interessantes.
Na sexta edição está o igualmente antológico Guerra de ideias, outra obra dos anos 1980 que teve diversas edições, e recebeu o mesmo acabamento cuidadoso da Atomic, com capa cartonada em cores, 76 páginas e extras que ajudam a contextualizar esta história que se insere no campo do quadrinho filosófico, estilo do qual o autor é um dos fundadores e principais praticantes.
A hora da horta foi uma novidade para mim. Trata-se de uma pequena aventura histórica originalmente publicada em capítulos em um jornal do litoral paulista. A edição é caprichada, com a maior parte das suas 46 páginas tomada por textos de apresentação e um "diário de bordo" em que o autor comenta a construção do trabalho, que é presentado na íntegra.
Todas as edições são muito bem produzidas, bonitas e robustas, ideais para constar no acervo de bibliotecas. Vale a pena conhecer. Mais informações no blogue da Atomic, aqui.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

O livro do juízo final

O livro do juízo final (Doomsday book), Connie Willys, 573 páginas, tradução de Braulio Tavares. Editora Companhia das Letras, selo Suma das Letras, São Paulo, 2017.

Um dos mais explosivos temas de debate sobre ficção científica no Brasil do século 21 é a representatividade das mulheres no gênero. Mas isso não é de hoje. Desde os primeiros eventos do gênero no país, ainda nos anos 1980, já se trata do assunto, com painéis formados exclusivamente por escritoras e a produção de antologias feministas. A diferença entre o antes e o agora é que a vontade de criar uma discussão quantitativa parece ser mais importante que as obras em si. E assim, tudo aquilo de que realmente vale a pena falar fica para segundo plano. E isso é muito injusto com as autoras que tanto contribuíram para o amadurecimento do gênero, tanto no Brasil quanto no mundo.
Um dos muitos títulos recorrentes nessa discussão recente é O livro do juízo final, da escritora  americana Connie Willys, publicado em 1992 mas que só chegou ao Brasil em 2017, com tradução de Braulio Tavares para o selo Suma das Letras, da editora Companhia das Letras, primeiro de uma série sobre as aventuras dos historiadores de Oxford.
Contudo, Willys não é uma novidade, mas uma saudosa conhecida dos leitores do gênero no Brasil. Isso porque, durante os poucos anos que a revista Isaac Asimov Magazine teve edição brasileira pela editora Record, nos anos 1990, a autora foi bastante publicada e muito bem avaliada pelos leitores. Esperava-se, a época, que a própria editora lançasse romances dos autores vistos ali, mas isso praticamente não aconteceu, com exceção de Charles Sheffield, outro ótimo e frequente autor da IAM que teve os livros Maré de verão e Divergência traduzidos pela Record. Com o pranteado fim da revista, em sua edição 24, muitos desses excelentes autores, que estavam na linha de frente da fc mundial do final no século, acabaram esquecidos e só agora voltam a pauta.
Willys tem uma fc emotiva e introspectiva, e essas características estão presentes em O livro do juízo final, que conta com personagens muito bem elaborados, envolvimentos profundos e sem pieguismo, e uma narrativa naturalista que deixa tudo muito crível, por mais absurdo que seja. Lembro-me vividamente da novela "O último dos winnenbagos", na qual um casal de idosos viaja por estradas americanas futuristas em um anacrônico motorhome.
O título O livro do juízo final é algo enganoso. Enquanto eu carregava o livro por aí, durante a leitura, muita gente se espantava e acreditava que se tratasse de um livro religioso e escatológico. O fim do mundo é um tema que apavora a maior parte das pessoas mas, ainda que seja um título muito bom e adequado, não anuncia perfeitamente o que o texto traz.
A história acompanha a viagem de Kivrin Engle, estudante da universidade de Oxford – provavelmente uma doutoranda ou algo do gênero – à idade média, mais exatamente ao ano de 1320, a partir de uma tecnologia de viagens no tempo que parece bastante comum em 2050, época em que parte da história se passa. O livro começa já nos preparativos finais da viagem, que não é consenso entre os doutores ligados ao departamento de História da universidade. Sr. Dunworthy, uma espécie de mentor de Kivrin, discorda do método apressado do departamento Medieval que está adiante da missão e tenta suspender a viagem por todos os meios, mas é voto vencido. Willys desfralda aqui o ambiente conflituoso que caracteriza o campo acadêmico em que os doutores lutam por espaço para suas teorias, sem medir as consequências de seus atos. Esse é o tema favorito da fc desde Frankenstein e aqui segue mais ou menos o mesmo caminho. Porque, é claro, alguma coisa vai dar muito errado.
Pouco depois da máquina ser acionada, uma virose altamente contagiosa surge na Londres futurista e o foco parece ser justamente o laboratório do qual Kivrin partiu. Enquanto os cientistas e técnicos ligados a missão adoecem um após o outro, com febres altas e delírios, Kivrin segue sua incursão ignorando o que acontece em seu tempo. Porém, como ela também havia contraído a doença, isso vai trazer uma série de imprevistos à missão e pode mesmo levá-la ao completo desastre. Sua esperança – que ela na verdade não tem conhecimento – é a fidelidade canina de Dunworthy, o único que parece realmente interessado em resgatar Kivrin de sua missão desafortunada. Porque a doença não permitiu que todos os parâmetros de segurança fossem implementados e, a cada hora que passa, as chances de trazer Kivrin de volta ficam ainda piores.
Temos então, duas narrativas paralelas: uma em 2050, quando Dunworthy move céus e terra para resgatar Kivrin de uma tragédia da qual ele não duvida um só minuto, e outra em 1320, em que a pesquisadora convive numa paupérrima aldeia medieval igualmente assolada por uma virose ainda mais mortal.
Willys demonstra habilidade narrativa, tecendo uma trama muito bem ajustada que peca apenas em um aspecto: não previu o impacto da telefonia móvel nessa sociedade do futuro. Afinal, numa época em que se pode viajar com segurança pelo tempo ao ponto de ser rotina na maioria das instituições, era de se imaginar que a sociedade contasse com meios de comunicação um pouco melhores que a telefonia com fio. Talvez, em 1992, ainda não fosse possível antever o fenômeno, mesmo nos EUA, então é necessário, para o bom aproveitamento da história, que o leitor releve esse detalhe, mesmo que não seja assim tão pequeno.
Tirando esse obstáculo do caminho, trata-se de uma história de personagens apaixonantes com os quais sofreremos emocional e fisicamente, instalados nas duas épocas de forma muito bem estruturada. É possível visualizar tanto o campus de Oxford e seus arredores, como toda a geografia e arquitetura da vila medieval, sem que se perceba como Willys faz isso, uma habilidade dominada por poucos. Só por isso, mais a saudade da autora que pode ser enfim aplacada em nós, já vale a leitura. Mas há muito mais o que se aproveitar. Altamente recomendável.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

FCF&H brasileira essencial em 2017

Como tenho feitos nos últimos anos, relacionarei a seguir os títulos de livros de autores brasileiros de fantasia, ficção científica e terror que se destacaram entre os lançamentos de 2017. Cabe, antes de iniciar, dar alguns esclarecimentos sobre o método empregado.
Em primeiro lugar, a lista segue padrões pessoais de relevância, ou seja, trata-se de um recorte pessoal e absolutamente arbitrário. Dentro dessa premissa inicial, optei por evitar sequências, uma vez que toda sequência está necessariamente vinculada a uma publicação de um ano anterior, mas algumas vezes isso é incontornável. Também desconsidero republicações e reedições porque obviamente não são inéditas. E finalmente, só me interessam aqui os autores que escrevem em português e publicam no Brasil. Ou seja, livros publicados fora do país, mesmo que de autores brasileiros, assim como livros de autores estrangeiros traduzidos aqui não entram nesta lista. Confesso que senti vontade de não considerar os ebooks mas, devido a significância de alguns títulos, essa premissa não foi observada. Não há hierarquia de preferência e os títulos estão apresentados em ordem alfabética dentro de sua classificação.

Iniciando pelos romances e, dentro deles, pelo gênero fantasia, destaco cinco títulos. Aimó: Uma viagem pelo mundo dos orixás (Companhia das Letras), de Reginaldo Prandi, é uma obra superlativa e surpreende que o autor não tenha sido percebido há mais tempo. Conta a história da alma desmemoriada de uma menina que busca por recuperar sua história no mundo dos orixás para, dessa forma, ter a oportunidade de reviver. O que mais impressiona é a clareza do autor em apresentar o panteão africano - a mitologia mais viva do mundo moderno - e contextualizar a doutrina do candomblé.
Raphael Draccon sempre fará parte das listas de essenciais quando tiver um novo livro publicado, e ele sempre tem. Trata-se de um dos maiores vendedores de livros de fantasia no Brasil, que conta com uma legião de admiradores. Ainda não parece ter alcançado a estatura da influência de André Vianco - outro nome sempre presente nestas listas -, mas também é bastante respeitado pelos seus pares e leitores. Em O coletor de espíritos (Rocco), um psicólogo retorna ao seu antigo vilarejo para enfrentar os fantasmas da juventude.
Ordem vermelha: Os filhos da degradação, de Felipe Castilho (Intrínseca), foi lançado com pompa e circunstância na última edição da Comic Con Experience, em São Paulo, numa campanha de marketing nunca antes vista na literatura fantástica brasileira. Trata-se de uma fantasia medieval maniqueísta que usa e abusa do consagrado modelo tolkeniano, em que um grupo de paladinos enfrentam a potestade maligna de uma cidadela.
Sherlock e os aventureiros, de André Cordenonsi (Avec), é uma história na linha "juventude de Sherlock Holmes", um tipo de fanfic muito praticado em todo mundo, que até já teve uma versão para o cinema nos anos 1980. Nesta história, o lendário detetive une-se a conhecidas personalidades de fato e de ficção para salvar o mundo de conspirações sinistras.
Cordenonsi também aparece, ao lado de Enéias Tavares e Nikelen Witter, no romance escrito a seis mãos Alcova da morte: Um caso da Agência de Detetives Guanabara Real (Avec),  em que um grupo de investigadores  – que são avatares dos próprios autores – se envolve numa aventura ao molde steampunk durante a inauguração da estátua do Corcovado. Alguns poderiam dizer que este título deveria estar entre os livros de fc, mas como a história extrapola bastante o gênero, fica melhor mesmo como fantasia.


E por falar em fc, a lista continua, agora nesse gênero, com Anacrônicos, de Luiz Bras (@Link), noveleta publicada em volume independente que conta como o fim do mundo chega através do surgimento inesperado de milhões de réplicas de todas as pessoas que já viveram, incapacitando a continuidade da vida como a conhecemos.
Dunya, o primeiro ebook desta relação, tem autoria de Tibor Moricz (em edição do próprio autor) é um romance de ficção espacial sobre um grupo de colonos num planeta inóspito habitado por uma raça hostil. Apesar de ser um enredo já bastante explorado, Moricz é um dos melhores autores da Terceira Onda da fc brasileira e seus textos sempre merecem a atenção dos leitores.
Extemporâneo é o novo romance de Alexey Dodsworth (Presságio), um dos nomes favoritos entre os votantes do Prêmio Argos, que já lhe tributaram comendas em 2015 e 2017. Neste romance, o protagonista salta, aparentemente sem controle, de uma realidade a outra, experimentando vidas de todos os tipos. O tema também não é original, mas é preciso reconhecer a importância de Dodsworth no cenário atual da fc brasileira.
Eric Novello, um dos autores da Terceira Onda mais elogiados pelos leitores, publicou em 2017 seu primeiro título pela prestigiosa editora Companhia das Letras. Trata-se do romance Ninguém nasce herói, jornada adolescente numa São Paulo alternativa dominada pelo ódio, intolerância e integralismo religioso.
Gerson Lodi-Ribeiro é um nome reconhecido dentro do fandom, ativo desde os anos 1980 tanto como autor como organizador de antologias. Seu romance Octopusgarden (Draco) também se passa no espaço sideral, em um planeta aquático habitados por octópodes que recebe a visita de uma nave com golfinhos inteligentes terrestres, e a interação das espécies não vai ser muito pacífica.


No gênero do horror, finalmente chegou ao mercado O mistério de Deus, de Roberto de Sousa Causo (Devir), uma história que une carros envenenados, boxe e demônios assolando Sumaré, pequena cidade do interior de São Paulo onde o autor passou toda a sua juventude, o que garante descrições naturalistas que contrastam vividamente com o sobrenatural.
Neve negra, de Santiago Nazarian (Companhia das Letras) conta a história de um artista plástico que se depara com o insólito quando, depois de longa ausência, retorna sua residência na serra catarinense numa rara noite de nevasca.
Também pela Companhia das Letras, recebemos Noite dentro da noite, de Joca Reiners Terron, relato perturbador que observa o Brasil a partir de um garoto que sofreu um acidente grave e tem de tomar medicamentos que nublam a percepção da realidade, ou talvez não.
André Vianco aparece aqui com o romance Penumbra (LeYa), que conta a história de uma menina que desperta numa dimensão sombria onde encontra uma velha senhora que será sua nêmesis e também sua única amiga.
Antônio Xerxenesky trouxe o romance As perguntas, publicado pela Companhia das Letras. Conta sobre uma especialista em ocultismo que se envolve na investigação de um crime que vai abalar sua confiança e convicções.
Quero lembrar agora alguns títulos entre antologias e coletâneas porque, além da produção de ficção curta ser tradição brasileira, é geralmente nas seletas que florescem novos autores. Dessa forma, destacarei quatro títulos em cada gênero.


Na fantasia, é necessário reconhecer o Dicionário de línguas imaginárias, de Olavo Amaral (Companhia das Letras), em que o autor reúne textos de sua própria autoria, todos de um viés metalinguístico que se desdobra nos diversos subgêneros especulativos, sempre tendo como base a comunicação ou a falta dela.
Giulia Moon, que também é uma personalidade obrigatória entre o essencial, aparece desta vez ao lado de Walter Tierno como organizadora da antologia Fantásticas: Contos de fantasia protagonizado por mulheres (Giz), que como diz o título, pretende dar maior presença feminina à literatura do gênero, proposta que por si só é digna de nota.
O já citado Tibor Moricz aparece mais uma vez nesta relação com a coletânea Filamentos iridescentes, autopublicada em forma de ebook, que reúne alguns de seus melhores trabalhos na ficção curta, algo que realmente faltava na bibliografia do autor.
A mais destaca autora no último prêmio Argos, Ana Lucia Merege organizou este ano mais uma antologia sobre contos de fantasia medieval, Magos: Histórias de feiticeiros e mestres do oculto (Draco) que, ao lado de Excalibur e Medieval, forma um amplo painel do subgênero no país.


O espaço das antologias de ficção científica foi dominado por Luiz Bras, que organizou três dos quatro títulos lembrados aqui. Foram os volumes gêmeos de Hiperconexões, realidade expandida: Sangue & titânio e Carbono e Silício (Patuá), que são seletas de poemas, algo extremamente raro dentro do gênero no Brasil. Brás também publicou a coletânea pessoal A última árvore (Livros-Fantasma), ebook que reúne sua ficção curta mais recente. Pela qualidade de suas coletâneas anteriores, esta certamente é leitura obrigatória.
A quarta coletânea do gênero tem o singelo título de Memórias pós-humanas de Quincas Borba e outras histórias alternativas muito além do País do Futuro, ebook de Sid Castro publicado pelo autor, um veterano da Segunda Onda da fc brasileira que apresenta agora uma seleta autoral com textos interessantes de diversas propostas.


No gênero do horror, destacam-se a coletânea Comboio de espectros, de Duda Falcão (Argonautas/Avec), autor que tem se estabelecido junto ao fandom a partir de trabalhos nesse gênero, especialmente contos, que seguem um estilo gótico clássico, com uma pitada de humor, negro é claro. Camila Fernandes, autora da Terceira Onda que estava ausente há algum tempo, retornou em 2017 com a coletânea Contos sombrios (Dandelion), num estilo mais intimista. Raphael Draccon, cujo romance já foi citado no início deste artigo, contribui também no horror, ao lado da esposa Carolina Munhóz e dos escritores Frini Georgakopoulos e Rafael Montes para compor a antologia Criaturas e criadores: Histórias para noites de terror (Record), com releituras de histórias clássicas do gênero. E, ainda, Crimes fantásticos, organizada por Cesar Alcázar e Duda Falcão (Argonautas), antologia que tem o mérito suplementar de recuperar a arte de R. F. Lucchetti, um dos grandes mestres do horror brasileiro.

Para fechar esta lista, três títulos de não ficção que são obrigatórios para aqueles que querem ter uma visão mais apurada da literatura fantástica no Brasil: A a Z: Dicas para escritores, do veterano da Segunda Onda, tradutor e acadêmico Fabio Fernandes, um ebook autoeditado com orientações divertidas para novos autores de gênero, mas que também são úteis para os leitores; A fantástica jornada do escritor no Brasil, reveladora pesquisa de Kátia Regina Souza (Metamorfose) apoiada em uma série de entrevistas com personalidades da ficção fantástica brasileira, e Fantástico e seus arredores: Figurações do insólito, compêndio acadêmico editado em forma de ebook pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, organizado por Maria Zilda da Cunha e Ligia Menna, com artigos sobre a literatura brasileira e sua relação com o fantástico.
Pinçamos aqui trinta títulos importantes publicados ao longo de 2017 (quinze romances, doze coletâneas e três não ficção) que devem ser observados com carinho tanto pelos leitores como pelos estudiosos dos gêneros fantásticos no Brasil. Como foi dito no início, por ser uma seleção arbitrária, decerto que permite recortes alternativos dentro da relação total de lançamentos no ano que, na última contagem, superou 180 títulos. Contudo, a lista integralizada não está pronta pois a pesquisa ainda não foi encerrada. Quando for publicada, será divulgada aqui e cada um poderá então fazer sua própria lista de essenciais.
Por hora, vocês vão ter que se contentar com a minha. Desculpem o mal jeito.