sexta-feira, 1 de março de 2024

Histórias Extraordinárias 8

Está em campanha de financiamento direto o oitavo número do fanzine literário de ficção científica Histórias Extraordinárias, editado por Marcus Garrett, Mario Cavalcanti e Paolo Fabrizio Pugno para a Editora Mundo.
Os editores prometem uma edição com 44 páginas e contos de Pablo A. Rebello, Vinícius de Freitas, Gerson Lodi-Ribeiro, Arthur S. Brum e Rodrigo Ortiz Vinholo, e como brinde entregará mais um card da coleção "Super Cards Histórias Extraordinárias - Série Escritores", desta vez homenageando o escritor americano Jack Vance. 
Como se percebe, depois de uma discreta participação na edição anterior, as escritoras mais uma vez ficaram de fora da HE. Os fanzines brasileiros de ficção científica precisam urgentemente rever seus conceitos, agora que o texto brasileiro que apareceu em destaque em uma das grandes revistas literárias americanas foi justamente o da escritora Clara Madrigano. Elas estão arrebentando. 
Para apoiar a publicação, visite a página da campanha aqui, disponível até o dia 9 de abril de 2024. Edições anteriores podem ser adquiridas em pacotes promocionais ou na página da editora, aqui.

quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

Lançamento: Kallocaína, Karin Boye

Kallocaína
, obra-prima da escritora sueca Karin Boye (1900-1941), é um romance de ficção científica publicado originalmente em 1940, que chega agora ao Brasil pela Editora Aleph. O romance é reconhecido como influência determinante para George Orwell escrever o seminal 1984.
Diz o texto de apresentação: "um cientista partidário de um estado totalitário desenvolve uma droga que força quem a toma a revelar pensamentos e até vontades inconscientes." 
A edição brasileira tem 264 páginas, tradução de Janes Cristaldo e está em campanha de pré-venda em versões capa dura e brochura, com entrega prevista para 22 de abril.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

Miragens circulares do miraculoso quadrado, Sofia Soft

Publicado ainda em 2023, Miragens circulares do miraculoso quadrado é um texto altamente experimental de contornos próximos à ficção científica, de autoria de Sofia Soft.
Diz o Soft sobre seu trabalho: "{miragens circulares do miraculoso quadrado} é a invocação mediúnica de uma espiral de livros & filmes que ressoam em mim, filtrada pela minha imaginação e esmagada por uma tonelada de inquietações sobre a natureza da Realidade."
A obra tem duas partes essenciais: a literária, chamada pela autora de "ficção-enigma", pode ser lida online ou baixada gratuitamente em vários formatos aqui. Já a parte impressa é composta de "seis gravuras digitais em papel opaline 180g, no formato 21 x 21 cm, mais doze cartões de 8 x 8 cm que, reunidos na ordem correta, contam a fabulosa história do milagroso emplastro MetaPhenomenon"; esta parte pode ser encomendada diretamente com a autora, cujo contato está aqui. Sofia Soft é um dos inúmeros heterônimos do escritor paulista Nelson de Oliveira, que é garantia de uma experiência narrativa e literária incomum.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

Juvenatrix 255

Está circulando a edição de fevereiro do fanzine eletrônico de horror e ficção científica Juvenatrix, editado por Renato Rosatti. Em dezesseis páginas, traz o conto "Mist", de Mich Graf, e o sétimo capítulo da novela de horror "Os guardiões dos escudos negros e de prata", de Caio Alexandre Bezarias. Também traz resenhas do editor aos filmes O homem gorila (The ape man, 1943), Serpent Island (1954) e para as versões de 1940 e 1944 de À meia luz (Gaslight). A edição é completada com notícias e divulgação de publicações alternativas e bandas de metal extremo. As capas exibem ilustrações de Angelo Junior.
Cópias em formato pdf podem ser obtidas pelo email renatorosatti@yahoo.com.br.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Conto brasileiro de ficção científica é destaque nos EUA

A escritora curitibana Clara Madrigano, que participou de inúmeras publicações nacionais nos últimos anos, está construindo uma promissora carreira no mercado norte-americano. 
A nova edição do tradicional periódico Magazine of Fantasy & Science Fiction, em sua edição de inverno de 2024, traz em destaque na capa o nome da autora e o título da sua noveleta "How to care for you domestic god", cumprindo assim um sonho de inúmeros autores brasileiros do gênero de ver seus escritos  em uma grande e tradicional publicação americana. Outros escritores e escritoras lograram fazer igual em revistas menos populares e antologias, mas agora a coisa engrossou.
Diz a autora em um post nas redes sociais; "E está no mundo a edição de inverno da Magazine of Fantasy & Science Fiction. Meu nome na capa da mesma revista que já publicou Asimov, Frank Herbert, Le Guin e tantos outros. Hoje eu vou me acabar de beber (água)."
E é verdade este bilhete! Parabéns, Clara!

sábado, 24 de fevereiro de 2024

Resenha do Almanaque: Bacurau

Bacurau
, Kleber Mendonça Filho, Juliano Dornelles. 132 min. França/Brasil, 2019. 

O cinema é uma arte praticada no Brasil desde seus primeiros tempos. Mas, como todas as demais linguagens artísticas, o cinema brasileiro passou por muitos altos e baixos, com períodos produtivos historicamente localizados entre grandes espaços de menor atividade. Tais flutuações têm vários motivos, desde questões políticas como a censura, dificuldades com a distribuição e, principalmente, problemas financeiros, uma vez que fazer um filme nunca foi barato. A indústria do cinema, na verdade, nunca se instalou solidamente no país e em muitos períodos a produção nacional foi iminentemente diletante, não raro com os cineastas financiando seus filmes com dinheiro do próprio bolso. 
Mas o cinema fantástico sofre ainda mais, pois a todas essas dificuldades estruturais soma-se ainda um grande preconceito dos próprios artistas, pois o gênero acabou associado ao cinemão norte americano, de matizes comerciais e, não raro, proselitistas. Fazer ficção fantástica no Brasil é, em muias esferas, sinônimo de entreguismo cultural. Por isso, a produção cinematográfica nacional de fc&f é pequena e pouco desenvolvida. Mas, ainda assim, têm seus clássicos, como Os cosmonautas (Victor Lima, 1962), Brasil Ano 2000 (Walter Lima Jr., 1969), Quem é Beta? (Nelson Pereira dos Santos, 1972), Parada 88: Limite de alerta (José de Anchieta, 1977) e Abrigo nuclear (Roberto Pires, 1981), entre outros raros exemplos.
Contudo, a radical redução de custos de produção devido ao surgimento das filmadoras digitais, e a possibilidade de exibição dos filmes pela internet contribuiram para o surgimento de uma nova geração de produtores audiovisuais que tem se exercitado nos ambientes não comerciais e ganhado reconhecimento em festivais nacionais e internacionais. A criação da Ancine, em 2001, foi outro grande impulsionador da produção audiovisual no país pois contribuiu valiosamente para uma produção estável que ganhou ainda mais sustentação com o advento da tv a cabo e, mais recentemente, dos serviços de streaming, que resolveram de vez os insolúveis problemas de distribuição. Por contraditório que seja, o fim do cinema como sistema de exibição em salas exclusivas foi justamente o que permitiu a produção nacional finalmente desabrochar. E esse ambiente favorável alcançou também a ficção fantástica. 
Muitos filmes bons começaram a surgir nos últimos vinte anos, e Bacurau, longa de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, é o melhor exemplo do que é possível fazer com a ficção científica quando a oportunidade e a qualidade criativa se encontram. A dupla é responsável pelos grandes sucessos recentes, os premiados Um som ao redor (2013) e Aquarius (2016).
O filme conta a história de um pequeno vilarejo localizado em algum lugar no sertão de Pernambuco, habitado por gente simples e endurecida pelas dificuldades da vida e pela natureza áspera. O povo humilde é politicamente dominado pelo prefeito da cidade, que não o valoriza e só se lembra dele quando precisa de votos. Quando uma família de agricultores é chacinada, revela-se um tenebroso projeto comercial promovido pelos gestores da cidade: oferecer os habitantes de Bacurau como alvos para turistas estrangeiros psicopatas, mas cheios de dinheiro, darem vasão aos seus mais baixos instintos. É então que a "docilidade" dos homens e mulheres sertanejos vai se revelar em toda a sua glória. 
O elenco, em sua maioria, é composto de atores pouco conhecidos, como Bárbara Colen, Thomas Aquino, Silvero Pereira, Thardelly Lima, Rubens Santos, Wilson Rabelo, Carlos Francisco, Luciana Souza, Karine Teles e Julia Marie Peterson, entre outros. Mas conta também com dois nomes de peso: a brasileira Sonia Braga, que interpreta a médica Domingas – uma das pessoas mais proeminente da sociedade bacurauense –, e o ator alemão Udo Kier – que interpeta Michael, o líder da legião de assassinos –, cuja fisionomia dura é bastante conhecida dos filmes americanos de terror. 
A cenografia é um dos pontos altos da produção, que retrata com felicidade um panorama muito familiar aos brasileiros: mata de caatinga, casarios antigos e grandes obras de infraestrutura em ruínas, talvez nunca inauguradas, que servem como esconderijo para outsiders; criminosos, talvez, mas, mais que isso, sobreviventes de uma realidade em tudo pós-apocalíptica. As filmagens usaram como locação os municípios de Parelhas e Acari, no estado do Rio Grande do Norte. 
Bacurau teve um custo de R$ 7,7 milhões e arrecadou mais que o dobro disso. E ainda ganhou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes, onde teve sua primeira exibição em 15 de maio de 2019. No Brasil, a fita estreou algumas semanas depois, no dia 29 de agosto. 
Alguns podem argumentar que Bacurau não é um efetivamente um filme de fc, visto que o único detalhe evidente do gênero é um drone em forma de disco voador que é usado pelos assassinos para rastrear suas "presas". Mas é claro que não é só isso. O que faz de Bacurau uma boa e legítima história de ficção científica são seus aspectos sociológicos e antropológicos, algo que nem sempre é percebido como especulação científica porque não se tratam de ciências duras. Muito mais que discos voadores, interessa aqui a exploração de corpos brasileiros como atração turística. Ficção? Nem tanto. Basta lembrar das crianças prostituídas por todo o país. Se ainda não temos caçadas humanas como atrações turísticas no Brasil, não falta muito para isso. Também a maneira debochada e cruel com que o poder público trata o eleitor, algo que não está nada distante da realidade. E, enfim, a maneira natural com que os sertanejos lidam com a tecnologia, todos muito a vontade com seus aparelhos celulares, ainda que um tanto ultrapassados em comparação com os dispositivos futuristas usados pelos estrangeiros. 
Também é preciso reconhecer que não há coitadismo no tratamento dado ao sertanejo. O habitante de Bacurau é – como diria Euclides da Cunha – "antes de tudo, um forte". Como os seguidores de Antônio Conselheiro em Canudos, os bacurauenses podem ser simplórios, mas tolos certamente não são. 

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Resenha do Almanaque: 3%

3%
, Pedro Aguilera.  Série de tv com 33 episódios. Produção Boutique Filmes/Netflix, 2016-2020.

A indústria audiovisual é o grande fetiche dos autores de ficção fantástica. Mal escrevem os primeiros textos, já pensam em quais seriam os atores mais indicados para representarem os seus personagens, quase sempre artistas de Hollywood porque, afinal, sonhar não custa nada. Muitas vezes vezes essa mania é movida apenas pelo sentimento de veneração ao estrangeiro, mas não devemos nos enganar: chegar a indústria audiovisual ainda é o melhor caminho para se obter reconhecimento, fama e algum dinheiro extra. Pelo menos, é assim que funciona nos EUA: os autores geralmente ganham muito mais pelo licenciamento de direitos para cinema e para a tv do que com a venda direta dos seus escritos. Portanto, se é assim que funciona na matriz, deve funcionar aqui também. 
A internet, especialmente após o advento da banda larga, pareceu ser o canal que todos estavam esperando para a distribuição de obras audiovisuais, uma vez que prescinde das salas exibidoras e de um sistema de transmissão televisiva para fazer chegar o conteúdo ao expectador. Mas, infelizmente, não emergiram projetos bem sucedidos assim, embora tenham existido tentativas, como a série Animal, produzida em 2014 para a tv a cabo. Alguma coisa ainda faltava e parece que, finalmente, temos o caminho das pedras: o serviço de conteúdo por streaming
O primeiro seriado brasileiro de fc&f a despontar nesse ambiente foi 3%, distopia futurista original criada por Pedro Aguilera, cujo episódio piloto foi lançado no Youtube em 2011. Adquirida pela Netflix em 2016, tornou-se a primeira série brasileira na plataforma, com quatro temporadas e um total de 33 episódios produzidos. Na direção, revezam-se César Charlone, Daina Giannecchini, Dani Libardi e Jotagá Crema.
Trata-se de uma produção sofisticada, com um elenco enorme que conta com atores conhecidos da teledramaturgia brasileira: João Miguel, Bianca Comparato, Zezé Mota, Michel Gomes, Rodolfo Valente, Vaneza Oliveira, Rafael Lozano, Viviane Porto, Samuel de Assis, Cynthia Senek, Laila Garin, Bruno Fagundes, Thais Lago, Fernando Rubro e Amanda Magalhães – até Ney Matogrosso faz uma participação especial – além de uma infinidade de coadjuvantes e figurantes que formam a população de uma favela miserável chamada Continente, que parece ser a única coisa que sobrou do Brasil num futuro pós holocausto, cuja explicação não é fornecida. 
Porém, há um lugar chamado Maralto onde uma elite vive em luxo e abundância. Uma vez por ano, ao longo dos últimos cem anos, o governo (que tem contornos corporativos) promove o Processo, uma espécie de "vestibular" cujo objetivo é selecionar, entre os jovens com vinte anos completos do Continente, os novos cidadãos para Maralto. Os testes são severos, em muitos casos, mortais, e valorizam aspectos físicos, intelectuais, morais e psicológicos dos candidatos. Apenas três por cento dos inscritos serão aprovados. A concorrência é feroz e trapacear é permitido. Na verdade, uma personalidade trapaceira é até valorizada, como vamos descobrir ao longo do extenuante processo, que também vai revelar a personalidade e a motivação de cada um dos candidatos. Também vamos descobrir que há um movimento revolucionário subterrâneo, pesadamente reprimido pela administração, cujo objetivo é acabar com o Processo. Mas não são apenas os candidatos que escondem esqueletos no armário: entre aqueles que estão "do lado de lá" também há segredos comprometedores, além de intrigas e traições veladas. Ninguém está plenamente seguro, nem mesmo em Maralto.
A cenografia é elegante, com uma estética futurista econômica. Muitas sequências foram gravadas nas dependências da Arena Corinthians, em Itaquera (SP). Também foram usados como locações o Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG), e a comunidade Heliópolis (SP). Os efeitos especiais são competentes, assim como o desenho de produção. O roteiro tem bons diálogos, e uma narrativa tensa, que fica ainda mais perturbadora pela lentidão com que o Processo avança.
A série está disponível em 190 países e é elogiada no exterior, com uma avaliação muito boa no site de resenhas Rotten Tomatoes: 85% de aprovação na primeira temporada. Também é muito inclusiva, com atores de todas as etnias, além de um cadeirante entre os personagens principais. 
O sucesso de 3% foi efeivamente convincente. Depois dele, parece que finalmente o campo se abriu para a produção brasileira: O escolhido (2019, Netflix), Onisciente (2020, Netflix) Spectros (2020, Netflix), Desalma (2020, Globlo Play), A todo vapor (2020, Prime) e Cidade invisível (2021, Netflix) são alguns dos exemplos que se seguiram e a tendência não arrefeceu nem durante a pandemia. Isso já é, por si, um grande mérito para 3%, que merece ser lembrado como o ponto de virada da fc&f na indústria audiovisual brasileira.