quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

O apocalipse amarelo 2: Os imundos de Shub-Niggurath, Diego Aguiar Vieira

Os imundos de Shub-Niggurath
é o segundo volume da série neolovecraftiana O apocalipse amarelo, do escritor carioca Diego Aguiar Vieira, iniciada com o romance Uma torre para Cthulhu, vencedor do Prêmio ABERST de Melhor Narrativa Longa de Terror, publicado pela editora Avec em 2023.
Diz o texto de apresentação: "Rafa está marcada pelo trauma de um amor perdido e pela dificuldade de lidar com um presente em ruínas. Ícaro, seu irmão, luta para manter a sanidade e o senso de realidade enquanto os dias se tornam mais fluidos e violentos. Lúcia, criada dentro de um culto religioso, tenta sobreviver entre visões, imposições e o que ainda resta de si. Malaquias tenta manter o grupo unido e proteger as pessoas ao seu redor, mesmo sem compreender totalmente o que está acontecendo – guiado não pela certeza, mas pela necessidade de cuidar. Juca enfrenta o horror à sua maneira – com lógica, lucidez e inteligência – num mundo que parece rejeitar tudo isso. E Kamog, uma presença antiga e inquieta, move-se entre corpos e tempos, sempre à espreita."
Os imundos de Shub-Niggurath tem 264 páginas e está em pré-venda no saite da editora Avec, aqui.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

4x Fanzine

Depois de tratar dos fanzines Megalon e Hiperespaço, o canal Café Especulativo, do pesquisador Edgar Smaniotto, recebeu, no último dia 18 de janeiro, o pesquisador e escritor Roberto de Sousa Causo para contar um pouco de sua longa trajetória como editor de fanzines. 
Causo editou diversos títulos dedicados a fantasia e a ficção científica, como O Rhodaniano, Papêra Uirandê, The Brazuca Review, Borduna & Feitiçaria, entre outros, publicados ao longo dos anos 1980 e 1990. 
O vídeo da entrevista, que durou três horas, está integralmente disponível aqui.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

HQ Memories 27

HQ Memories
é um fanzine de e sobre quadrinhos editado pelo cartunista Luigi Rocco sob a chancela do selo Inumanos Agrupados, dedicado a lembrar trabalhos e autores esquecidos dos quadrinhos brasileiros e estrangeiros.
A edição 27 resgata as seguintes histórias: "Só... corro" (1967), de Victor Forde (também cohecido como Luis Sátiro); "O diário do Dr. Hayward" (1938), de Will Eisner e Jerry Iger; "Fogaça" (1966), de Vilmar Rodrigues; "A aposta" (1955), de Doug Wildey; "Monstros" (1986), de Gary Brookins e Bob Gorrell; "Desidratação", de Maurício de Sousa; e "O Caçador: Cuidado com o Sr. Meek" (1942), de Joe Simon & Jack Kirby.
A edição tem 44 páginas formato magazine com capa colorida em cartão, que traz uma ilustração de Sebastião Seabra com uma imagem do Homem Lua, personagem criado por Gedeone Malagola. Imagens e detalhes de cada um dos trabalhos apresentados podem ser conferidos no blogue da publicação, aqui.
Rocco também está republicando os primeiros números do fanzine, agora no mesmo formato grande, e já alcança o número 11. 
HQ Memories pode ser encomendado diretamente com o autor, pelo email luigirocco29@gmail.com.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Resenha: Seres mágicos & histórias sombrias

Seres mágicos & histórias sombrias
(Stories), Neil Gaiman & Al Sarrantonio, orgs. 448 páginas. Tradução de Regiane Winarski. São Paulo: Darkside, 2019. Publicada originalmente em 2011.

Seres mágicos & histórias sombrias é uma antologia de contos e noveletas dark fantasy organizada pelo escritor britânico Neil Gaiman e o escritor americano Al Sarrantonio, que reúne nada menos que vinte e sete ficções de diversos autores de língua inglesa, sempre ligados ao que se convencionou chamar de ficção fantástica. Mas até isso é difícil de dizer após a leitura da seleta, pois muitos contos escapam de uma classificação inequívoca. Trata-se de um conjunto muito regular, sempre surpreendente, que lembra, em alguns aspectos, a ficção de Julio Cortázar e a de Tomas Ligotti, trafegando pelos gêneros da fantasia e do horror mas nem sempre sendo o que parece a princípio. 
Na lista de créditos, percebe-se que todos os textos selecionados foram publicados no ano de 2010 antes de serem reunidos nesta antologia. São os seguintes os escritores selecionados: Roddy Doyle (Irlanda), Joyce Carol Oates (EUA), Joanne Harris (Reino Unido), Neil Gaiman (Inglaterra), Michael Marsh Smith (EUA), Joe R. Lansdale (EUA), Walter Mosley (EUA), Richard Adams (Inglaterra, 1920-2016), Jodi Picoult (EUA), Michael Swanwick (EUA), Peter Straub (EUA, 1943-2022), Laurence Block (EUA), Jeffery Ford (EUA), Chuck Palahniuk (EUA), Diana Wynne Jones (Reino Unido, 1934-2011), Stewart O'Nan (EUA), Gene Wolfe (EUA, 1931-2019), Carolyn Parkhurst (EUA), Kate Howard (EUA), Jonathan Carroll (EUA), Jeffery Deaver (EUA), Tim Powers (EUA), Al Sarrantonio (EUA, 1952-2025), Kurt Andersen (EUA), Michael Moorcock (Inglaterra), Elizabeth Hand (USA) e Joe Hill (USA). 
Alguns contos já são conhecidos dos leitores brasileiros por terem sido publicados antes em coletâneas dos próprios autores, como "A verdade é uma caverna nas Montanhas Negras", de Neil Gaiman, que já teve inclusive uma edição própria no Brasil, e "O diabo na escada", de Joe Hill, mas a grande maioria estava inédita no Brasil. 
Não vou comentar cada conto porque seria exaustivo, mas vale registar o "O voo de Belerofonte', de Elizabeth Hand, que conta o projeto emocional de alguns historiadores que tentam repetir o mítico voo realizado por uma máquina mais pesada que o ar no ano de 1901, antes dos irmãos Wright e, é claro, de Santos Dumont (que não é citado no conto). É claro que isso nunca aconteceu pois nunca houve uma máquina chamada Belerofonte. Mas seria incrível se fosse verdade. Eu até queria que fosse.
"O terapeuta", de Jeffrey Deaver, também merece ser citado aqui. Conta a história algo macabra de um psicólogo determinado a curar uma mulher que, ele acredita, é um perigo para si mesma. O que torna a história intrigante é a tese do "neme", ou meme negativo. Real ou uma criação do autor? 
Outro texto curiosíssimo é "Histórias", de Michael Moorcock, festeja autor do clássico da fantasia Elric de Melniboné que, neste conto, faz o depoimento pessoal e íntimo da relação escnadalosa de um certo escritor de ficção fantástica e seus colegas de ofício ao longo de algumas décadas. 
Mas é claro que todos os demais contos têm algo a acrescentar ao conjunto e, apesar de ser um volume de mais de quatrocentas páginas, lê-se com facilidade e prazer. E, para o leitor brasileiro, funciona como um "atualizador" – ainda que os textos sejam de 2010 – para o que se pratica contemporaneamente no campo da ficção fantástica em língua inglesa. Antigos leitores da saudosa Isaac Asimov Magazine certamente sentirão familiaridade com a maneira que ideias tão variadas e incomuns emergem ali sem aviso prévio. 
Se você, por acaso, é um dos que acha que não deve ler mais nada que tenha passado pelas mãos de Neil Gaiman, por qualquer motivo que seja, só posso dizer que estará perdendo um grande livro. 
Leitura altamente recomendada. 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Resenha: Fluam minhas lágrimas, disse o policial, Philip K. Dick

Fluam minhas lágrimas, disse o policial
(Flow my tears, the policeman said), Philip K. Dick. Tradução Ludimila Hashimoto. 256 páginas, São Paulo: Alpeh, 2013. Originalmente publicado em 1974.

Philip Kindred Dick (1928-1982), ou PKD, é uma dessas sumidades lembradas de imediato quando se fala em ficção científica. Não tanto pela ampla produção literária, que é realmente monumental, mas principalmente pelas adaptações de seus textos para o cinema e para a tv. Filmes como Blade Runner, O vingador do futuro, Screamers, Minority report, Agentes do destino, O pagamento e O homem duplo, e as série de televisão O homem do castelo alto e Sonhos elétricos, para ficar só nos mais conhecidos, são grandes sucessos e é qimprovável que alguém nunca tenha ouvido falar deles. Mas o trabalho original de PKD é conhecido apenas de uma restrita comunidade de leitores especializados em ficção científica.
Dick vem sendo publicado no Brasil desde os anos 1970, por editoras como a Bruguera, a José Olympio, Cedibra, Tecnoprint, etc. Mas o grosso do autor em língua portuguesa saiu mesmo na Coleção Argonauta, da editora portuguesa Livros do Brasil, cujos exemplares eram facilmente encontrados no Brasil e, assim, formou-se desde então uma legião de fãs. Chegou até mesmo a editoras do porte da Companhia das Letras, pois os sucessos audiovisusais nele inspirados são um motivador bastante convincente. Mas a casa editorial que mais publicou PKD nos últimos vinte anos no Brasil foi a Editora Aleph, que tem mantido em catálogo praticamente todos os títulos que publicou do autor. Entre eles está Fluam minhas lágrimas, disse o policial, romance de 1974, ganhador do Prêmio John W. Campbell, que teve edição anterior, em 1986, pela Brasiliense sob o título de Identidade perdida
Dick é conhecido por tratar de temas filosóficos complexos como a natureza da realidade, simulacros, identidades múltiplas, distopias políticas e outras questões metafísicas com proposições instigantes sempre regadas a muita especulação tecnológica, especialmente sobre drogas e outros indutores de estados alterados de consciência, todos de alguma forma presentes neste romance. Por isso, PKD é um dos escritores de ficção científica mais influentes do nosso tempo.
Fluam minhas lágrimas, disse o policial acompanha a odisseia de Jason Taverner, cantor popular de meia idade, apresentador de tv de grande sucesso, mulherengo, milionário, bonitão e "seis", ou seja, um dos poucos seres humanos dotados, por manipulação genética, de capacidades intelectuais superiores. Após um de seus shows semanais, sempre com mais de trinta milhões de espectadores, Taverner acorda na manhã seguinte em um hotel fuleiro, ainda vestindo o caríssimo terno de seda que usou no último show. Ele não está com amnésia, pois sabe muito bem quem é, mas não faz ideia de como foi parar ali. Sua primeira reação é telefonar para sua amante, uma seis chamada Heather Hart, mas ela o esnoba e diz não o conhecer. Liga então para seu advogado, que também não se lembra dele. Sem documentos – embora com algum dinheiro no bolso –, Taverner sabe que precisa de documentos válidos para sair a rua, pois a realidade política dos EUA em que vive é de um estado totalitário policial militarizado em guerra contra os estudantes universitários que se escondem nos subterrâneos das antigas universidades em ruínas. Qualquer um pego na rua sem documentos, se não for morto no ato, é preso e enviado para campos de trabalhos forçados para o resto da vida. 
O recepcionista do pardieiro, muito bem pago por Taverner, dá-lhe carona até a casa de Kathy, uma excelente falsificadora de documentos mas que, ele logo percebe, tem algum tipo de distúrbio intelectual. Por causa de suas capacidade seis e de sua aparência exuberante, Taverner sempre exerce  fascínio nas mulheres e se aproveita disso com Kathy. Mas ela também é informante da polícia, e quando o Inspetor McNulty, para quem ela trabalha, aparece de surpresa, acaba pegando Taverner. Como não consegue provar quem é, McNulty abre uma investigação sobre Taverner e descobre que não existe nenhum registro em qualquer lugar do planeta sobre ele. O mistério chama a atenção do maioral do departamento de polícia, o General Buckman, que acredita que esse desconhecido deve ser ligações importantes com poderes insupeitos, e os problemas de Taverner entram numa crescente escala de dificuldades. 
A narrativa lembra uma novela rocambolesca, em que um novo problema se acrescenta ao anterior e vai se complicando cada vez mais, principalmente porque Taverner não sabe, em momento algum, realmente o que está acontecendo. A resposta virá, mas não vou contar aqui. Só vou dizer que Taverner não é, como parece, o personagem principal nessa história. 
Outra característica das histórias dickianas é a recorrência ao gênero policial. Tal como os personagens que não sabem direito em que realidade vivem, também não sabemos bem, os leitores, se o que estamos lendo é uma história de crime ou de ficção científica, e esse é um dos charmes do estilo alucinado de PKD. Mas é bom que se diga que, assim como nas grandes histórias de crime, haverá uma solução racional no final, nem sempre fácil de entender, mas certamente de grande perspicácia. 
Tão importante quanto a história em si, são os personagens de PKD, de uma riqueza construtiva absurda, cada um deles um universo em si. E mais importante que tudo é a sensação de irrealidade que escapa do romance e invade a nossa própria realidade. Ao fecharmos a última página de uma história de PKD, precisamos olhar bem ao redor e conferir se tudo ainda está ali. Porque, eventualmente, pode ser que não esteja mesmo.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Juvenatrix 278

Está disponível a edição de janeiro do fanzine eletrônico de horror e ficção científica Juvenatrix, editado por Renato Rosatti. 
Em treze páginas, traz conto de Caio Alexandre Bezarias e resenhas aos filmes O dia em que a Terra parou (1951), O monstro que desafiou o mundo (1957), Força diabólica (1959) e Continente perdido (1951), todas assinadas pelo editor. 
A edição é completada com notícias e divulgação de livros e publicações alternativas, e de bandas de metal extremo. A capa traz uma ilustração de Angelo Junior.
Cópias em formato pdf podem ser obtidas pelo email renatorosatti@yahoo.com.br.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Resenha: Quarta Asa, Rebecca Yarros

Quarta Asa
(Fourth Wing), Rebecca Yarros. 544 páginas. Tradução de Laura Pohl. São Paulo: Planeta Minotauro, 2024. Originalmente publicado em 2023.

Violet Sorrengail é uma jovem em idade de serviço militar, atividade que lhe parece inevitável, uma vez que sua mãe, Lilith Sorrengail, é general e seus dois irmãos, Mira e o falecido Brennan, cavaleiros das forças de defesa do reino de Navarre, que mantém um conflito ancestral contra o reino de Poromiel. Porém Violet é uma garota com um baixo potencial físico, estatura pequena, facilidade para sofrer dores e lesões nas articulações, músculos e ossos, o que não parece nada adequado para que ela se torne uma cavaleira como seus irmãos. 
De fato, seu falecido pai, que era escriba, a preparou para que seguisse a sua própria carreira na ordem, mas a inflexibilidade da mãe a obriga a se alistar no Instituto Militar Basgiath, uma academia que forma os cavaleiros do reino. Não cavaleiros comuns, mas cavaleiros de dragões, o que exige uma alta dose de força física e resistência. Por isso, o processo de seleção dos cadetes é cruel, levando a maioria deles à morte ao longo dos três anos de preparação, com inúmeras chances para perder a vida que, de resto, vale muito pouco em Navarre. 
Violet vai ser levada ao limite de suas forças, mas é claro que irá sobreviver para ter não apenas um, mais dois dragões, animais gigantescos e violentos, com sua própria cultura, linguagem e poderes mentais, dotados ainda de capacidades mágicas que são transferidas aos cavaleiros depois de serem ligados a eles em uma disputa mortal em meados do primeiro ano em Basgiath. 
Mas os perigos não terminam aí. Quando mais o curso avança, mais cadetes perdem a vida num processo de depuração que só permitirá a formatura dos efetivamente mais capazes. Tudo para serem, depois, colocados na frente de batalha onde terão de enfrentar os Paladinos de Poromiel, que cavalgam nada menos que os ferozes grifos. 
Devido à personalidade autoritária e impiedosa da General Sorrengail, Violet será caçada na academia pelos estudantes que veem de famílias que sofreram nas mãos dela. O mais feroz deles é um "gigante" chamado Xaden, terceiro anista da Basgiath cujo pai foi assassinado pela própria General. Ele tem um dragão sanguinário, é o melhor aluno da academia e um hábil manipulador das sombras. E mais: ele é o comandante da Quarta Asa, divisão dos cavaleiros de dragões para a qual Violet acaba designada. Mas não existe apenas ódio em Xaden. Muitos segredos rondam o seu coração, e também, ao que parece, todas as demais relações entre cadetes, guerreiros e comandantes de Basgiath.
Este é o ambiente no qual se desenrola a história de Quarta Asa (Fourth Wing), romance de alta fantasia da escritora americana Rebecca Yarros, originalmente publicado em 2023, que se tornou um fenômeno no Tik Tok e grande sucesso editorial. O livro inaugura a série O Empyriano, que também conta com os romances Chama de ferro (Iron flame, 2023); Tempestade de ônix (Onix storm, 2025), ambos também já publicados no Brasil. 
É um livro longo, repleto de detalhes e reviravoltas, e de uma narrativa competente que estofa muito bem o modelo recorrente dos chamados livros de romantasia. Lembra, na estrutura geral, a série Divergente, ficção científica de Veronica Roth, com uma protagonista inadequada que tem que sobreviver a um treinamento brutal para encontrar seu lugar numa sociedade distópica e, enfim, descobrir que tudo aquilo em que acreditava não passava de mentiras. 
É um livro de leitura ágil, com persongens bem construídos e cenas de ação intensa, mas que tem um defeito grave: dois capítulos eróticos – quase pronográficos – que tornam o livro absolutamente contra-indicado para leitores jovens. Sua gratuidade faz concluir que foram colocados ali à força, provavelmente para atender a alguma exigência editorial uma vez que, se não forem lidos, não fazem falta na trama. Até o estilo do texto muda, quase como se esses trechos tivessem sido elaborados por outro escritor, piorados pelo fato de quem quer os tenha escrito, seja Yarros ou outro qualquer, evidentemente não dispunha de domínio sobre as narrativas eróticas.
Quarta Asa chegou às livrarias brasileiras em 2024 no selo Minotauro da Editora Planeta, com tradução de Laura Pohl, 544 páginas, capa dura e um preço bastante salgado no lançamento mas, agora, já está mais acessível e pode até ser lido gratuitamente na plataforma pública BibliOn, aqui.