segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Astrogildo

A partir da crise dos jornais impressos, na virada do século, as tiras de quadrinhos se tornaram um produto cada vez mais raro. Para não sumir de vez, a maioria dos autores de tiras migrou para a internet. E, dentre as que ainda sobrevivem, são ainda mais raras aquelas de ficção científica.
Este é o caso de Astrogildo, do cartunista Rafael Bento. Inspirado em Calvin e Haroldo, de Bill Watterson, Astrogildo é um estudante ingênuo e sonhador que deseja se tornar astronauta e no seu caminho vai encontrando diversos desafios que muito revelam sobre o nosso tempo.
Astrogildo chegou a centésima tirinha em 2019 e já tem dois volumes impressos publicados, que podem ser adquiridos diretamente com o autor pelo email rafaelbento@gmail.com.
Mais do personagem no perfil do autor, aqui.

domingo, 5 de janeiro de 2020

Espere agora pelo ano passado

Espere agora pelo ano passado (Now wait for last year), Philip K. Dick. Tradução de Braulio Tavares, 296 páginas. Rio de Janeiro: Suma, 2018.

Comentei no post anterior, sobre a novela O tempo desconjuntado, que falaria dos últimos livros do Philip K. Dick publicados no Brasil. Esta resenha é, portanto, sobre outro título do autor, Espere agora pelo ano passado (Now wait for last year), romance publicado originalmente em 1966 que estava inédito em língua portuguesa e chegou ao Brasil em 2018 pelo selo Suma da Editora Companhia das Letras, com tradução de Braulio Tavares.
Diferentemente do título anteriormente comentado, este é, sem dúvida, um exemplo perfeito e acabado do estilo dickiano potencializado no formato de romance, em que há mais de um núcleo narrativo.
A história está centrada no casal Sweetscent. Eric é um médico importante e Katherine, sua esposa, é executiva de uma grande corporação. O casal está passando por uma crise e a separação parece iminente. Nesse momento, Eric é convocado para tratar de um paciente muito especial em uma cidade distante, alguém que ele não pode se dar ao luxo de recusar: trata-se de ninguém menos que o presidente do planeta Terra, cujo corpo está entrando em falência geral depois de ter abusado de diversos tratamentos para prolongar sua vida por séculos. E o homem não pode morrer justamente quando precisa participar de uma importante negociação com a delegação de um planeta alienígena com o qual a Terra mantém uma guerra prolongada.
Com a ausência do futuro ex-marido, Katherine decide fazer aquilo que mais gosta, e investe numa droga nova que promete uma profunda experiência mística. A droga é de fato tudo o que prometia e mais um pouco: ela também permite viajar no tempo! O problema é que se trata de uma substância altamente viciante e tóxica: se ela não tomar outra dose em 24 horas, morrerá, e se continuar tomando, morrerá em uma semana da mesma forma. Desesperada, Katherine pede socorro a Eric que, para ajudá-la, compromete sua missão e torna-se procurado pelo assassinato do presidente da Terra. Para salvar a ambos, a Terra e talvez o seu casamento – o que parece impossível –, Eric terá que desvendar o que está por trás da estranha droga e se envolver no mortal jogo de espionagem interplanetária.
PKD coloca na mesa todas as suas cartas: paranoia, intrigas políticas, um crime a ser desvendado, drogas, a fragilidade da mente, a natureza da realidade e do tempo, e uma corrida alucinada em que cada segundo conta. As linhas de ação nem sempre se interligam, o que cria abismos narrativos que o leitor precisará cruzar para entender o que está acontecendo e, para isso, terá de construir as pontes, que podem mudar a interpretação da história de um leitor para outro, ou de um mesmo leitor em momentos diversos.
Muitos podem achar que isso seja fruto de um problema de tradução ou de edição, mas é improvável. Braulio Tavares é um grande tradutor e especialista no gênero, e a edição da Suma é caprichosa, com encadernação em capa dura e o requinte da pungente ilustração de Fabrizio Lenci. Não há espaço aqui para falhas. Resta, portanto, a alternativa de que a obra foi feita assim propositalmente pelo autor, e decerto que é isso mesmo. PKD tem diversos livros com características similares, alguns um pouco mais que outros, e este é um dos "mais". Para aqueles que conseguirem superar esta corrida de obstáculos, o resultado é gratificante, um exemplo perfeito do tipo de ficção que influenciou uma infinidade de autores que vieram depois, especialmente o movimento cyberpunk, com o qual PKD é muitas vezes identificado como precursor. Mesmo que fosse só por isso – há muitos outros motivos além desse – penso que vale a pena o esforço.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

O tempo desconjuntado

O tempo desconjuntado (Time out of joint), Philip K. Dick. Tradução de Braulio Tavares, 268 páginas. Rio de Janeiro: Suma, 2018.

Enquanto aguardamos o lançamento de O tempo em Marte, romance de ficção científica do escritor americano Philip K. Dick (1928-1982), anunciado para 2020 pela Editora Aleph, vamos falar um pouco sobre os últimos livros desse autor publicados no Brasil.
PKD é um autor singular. Mais conhecido pelo livro Sonham androides com ovelhas elétricas, que deu origem ao filme Blade Runner: O caçador de andróides, de Ridley Scott, lançado no ano da morte do autor e um fracasso de bilheteria que aos poucos ganhou status de cult, Dick foi um autor prolífico no período da New Wave da fc americana. Seus romances e contos inspiraram uma leva de filmes e série de tv (como O vingador do futuro, Paycheck, Minority report, O homem do castelo alto e Electric dreams, entre outros), e pode dar a impressão que se trata de um escritor popular. Não é.
PKD tem  o desagradável hábito de escrever histórias difíceis. Seu estilo é desconfortável, muitas vezes beirando o insuportável, e seus temas são complexificados a um ponto hiperbólico. São raras as histórias do autor que permitem uma interpretação sequer objetiva, muito menos fácil. Além do mais, tem momentos de profunda incorreção moral, intolerância e até algum chauvinismo. Mesmo assim, consegue flutuar acima de seus pecados graças a criatividade galopante que não faz concessões aos leitores. Ler e, principalmente, publicar PKD pode até não ser muito lucrativo, mas garante uma boa reputação, semelhante como ao que acontece com Willian Gibson, um dos pais do cyberpunk.
A primeira vez que tive um PKD nas mãos foi uma experiência frustrante. Estava com 14 anos e em minha primeira fase de interesse na fc, quando encontrei um livro do autor no acervo da biblioteca pública, Espaço eletrônico (The unteleported man), na edição da Bruguera de 1971. Li o livro inteiro mas não entendi absolutamente nada. Não era um problema com o livro, mas com o leitor: eu não estava pronto para ele. E há muitos livros de PKD que são assim, então é difícil recomendar o autor para leitores iniciantes no gênero.
Contudo, entre tantas histórias indecifráveis, sempre há alguma que pode ser lida com menor esforço. Uma dessas é O tempo desconjuntado (Time out of joint), novela de 1959 publicada no Brasil em 2018 pelo selo Suma da Editora Companhia das Letras. O romance teve uma edição portuguesa em 1985, sob o título de O homem mais importante do mundo, mas até então estava inédito aqui.
Conta a história de Ragle Gumm, homem fracassado, de meia idade, que vive na casa da irmã e passa os dias resolvendo quebra-cabeças de um concurso do jornal local. Gumm está quebrando os recordes de acertos do concurso, o que pode lhe render uma bolada em prêmios que talvez resolva sua vida, além de alguma fama, mas também o mantém socialmente isolado.
Gumm está inquieto com a repetição de fenômenos visuais estranhos e recordações incongruentes, que até podem ser frutos de estresse por sua concentração nos enigmas diários cada vez mais complexos. Depois de testemunhar o desaparecimento de uma barraca de refrigerantes no parque – que deixou em seu lugar apenas um pedaço de papel com as palavras "barraca de refrigerantes" –, ele tem absoluta certeza que está enlouquecendo. Tudo fica ainda pior quando ele encontra, num terreno baldio, uma lista telefônica com números que não deveriam existir. Acossado pela paranoia, Gumm está disposto a comprometer sua fama e fortuna para descobrir o que há por trás dessa realidade que fica cada vez mais estranha.
A edição da Suma é caprichada, impressa em papel pólen e encadernada em capa dura. A tradução é de Braulio Tavares, um especialista no gênero, e a maravilhosa capa é de Deco Farkas.
Se eu tivesse que indicar um livro de PKD para alguém que nunca leu o autor, por certo que indicaria O tempo desconjuntado. Não que seja um texto fácil, mas em se tratando de PKD, não dá para fazer por menos que isso.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

O lado sombrio do sítio

Um dos fatos mais esperados para 2019 era que a obra de Monteiro Lobato, escritor que o Brasil perdeu em 1948, caíssem em domínio público pois, pela lei brasileira, a obra de um autor deixa de ser propriedade privada de seus herdeiros a partir do dia 1 de janeiro do ano subsequente aos 70 anos da morte do mesmo. Há muito tempo que autores que cresceram lendo os livros de Lobato tinham intenções em citar, homenagear, reler ou mesmo samplear suas histórias, especialmente aquelas do ciclo do Picapau Amarelo, que se tornou uma franquia de sucesso para várias gerações.
E 2019 não deixou por menos. Por exemplo, Narizinho: A menina mais querida do Brasil, do escritor Pedro Bandeira, oferece uma versão atualizada das histórias do Picapau Amarelo, retirando expressões racistas, empretecendo Narizinho e deliberadamente excluindo Pedrinho das histórias. E nos quadrinhos, tivemos o Rancho do Corvo Dourado, que levou os personagens a uma distopia apocalíptica.
O fandom literário de ficção fantástica também debruçou-se na obra lobatiana com a antologia O lado sombrio do sítio, organizado por Felipe S. Mendes para a editora Lura. Como o título já revela, trata-se de uma releitura de Lobato em tons de horror. O volume de 288 páginas traz 43 textos de autores como Mayara de Godoy, Rômulo Baron, João Peçanha, Wanise Martinez e André Vianco.
Resta saber o que os administradores da propriedade intelectual de Lobato acham disso tudo. Como se pode ver no episódio 56 do podcast Poranduba, "Folclore e direitos autorais", a exploração de obras em domínio público pode não ser tão livre quanto se acredita.

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Alcântara

No final de 2019, foi anunciada a publicação do romance de ficção científica Alcântara: A história inspirada na história, de autoria da jornalista e roteirista mineira Miriam Rezende Gonçalves, que tem grande experiência na produção de novelas e outros programas para a televisão.
O livro, publicado pela autora, conta a história de uma cientista brasileira que está decidida a descobrir o que realmente aconteceu em 2003 na base de lançamento de foguetes de Alcântara, no Maranhão, quando 21 técnicos morreram numa explosão. A história aproveita uma detalhada pesquisa da autora sobre as tentativas de lançamento do satélite brasileiro que culminaram na tragédia.
Diz o release de divulgação: "Alcântara foi selecionado para o Laboratório de Roteiro de Longa-Metragem, do dramaturgo Eliseo Altunaga e aprovado para o seminário Histórias de Roteiristas 2012, do Núcleo de Audiovisual da Universidade Mackenzie. Este projeto quer revelar ao público brasileiro que o país tem um adiantado e sério Programa Espacial, que envolve centenas de pessoas, especialistas, técnicos e intelectuais dedicados a desenvolver uma tecnologia própria. Nunca antes tratada pela literatura ou pela cinematografia nacional, considerando o ineditismo do tema, a trama quer desvelar esse universo dos avanços, no Brasil, da ciência e da tecnologia aeroespacial." Um objetivo deveras importante neste momento histórico.
É interessante que tal assunto tenha até agora sido ignorado – ou seria melhor dizer evitado? – pelos autores de fc brasileiros. Mais uma vez, os especialistas no gênero são deixados para trás.
O livro foi lançado num evento em São Paulo no último dia 11 de dezembro, com a presença da autora e de personalidades da área astronáutica brasileira, como o Brigadeiro de Ar Celestino Todesco, o astronauta Marcos Roberto Palhares (autor do livro O céu não é o limite), Lucas Fonseca (CEO do projeto Garatea-L) e Sérgio Sacani (Unicamp). Outros eventos com a autora estão programados para Ribeirão Preto e Curitiba, entre os meses de fevereiro e março de 2020.
Alcântara está disponível na Amazon, em versão impressa e ebook.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

A Taverna

Publicação que debutou em 2019, A Taverna é uma revista digital editada por Diogo Ramos e Otoniel Pereira que oferece aos leitores contos de fantasia, ficção científica e terror de autores brasileiros. A revista é ofertada semestralmente através da plataforma de autoedição da Amazon, numa edição semi-profissional que remunera os autores publicados.
O primeiro número, lançado em janeiro de 2019, traz contos de Anna Fagundes Martino, Rubem Cabral, Letícia Copatti Dogenski, Renan Bernardo, Daniela Almeida, com ilustrações de Rodolfo Salles e capa de Giselle Almeida.
O número dois foi publicado em julho de 2019, com contos de H. Pueyo, Ana Lúcia Merege, Jaime de Andruart, Guilherme Alaor e Diego Araujo. Salles volta nas ilustrações e Harumi Namba assina a imagem da capa.
Como temos acompanhado nos últimos anos, iniciativas desse tipo enfrentam dificuldades no Brasil. Mesmo aquelas que são distribuídas gratuitamente, ainda que recebam apoio e interesse dos autores, lutam para se fazerem ler. Muitos editores experientes continuam buscando pelo formato ideal, como as revistas Trasgo e Mafagafo. Tomara que o encontrem logo.
A Taverna aceita submissões, mas há algumas regras a serem observadas no saite da revista, aqui.

domingo, 29 de dezembro de 2019

Projeto Cápsula

A editora Morro Branco, que tem brindado os leitores com um catálogo surpreendente baseado em autores e autoras representativos da fc&f internacional, a maior parte nunca antes traduzidos no Brasil, criou o Projeto Cápsula, uma coleção de ebooks gratuitos para serem lidos online, com textos importantes de autores consagrados.
Foram disponibilizadas três edições: Aqueles que abadonam Omelas, de Ursula K. Le Guin, certamente um dos melhores contos já escritos, com tradução de Heci Regina Candiani; Sons da fala, poderoso conto de ficção científica de Octavia E. Butler, também com tradução de Heci Regina Candiani; e Acender uma fogueira, aventura de Jack London, com tradução de Victor Gomes e Giovana Bomentre. É, sem dúvida, uma iniciativa importante para manter tais obras no destaque que bem merecem.