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domingo, 1 de setembro de 2019

Os vencedores do argos 2019

No dia 13 de julho, durante a Flip em Paraty, o Clube de Leitores de Ficção Científica-CLFC realizou a cerimônia de entrega da edição 2019 do Prêmio Argos, que apontou, na opinião de seus membros, os melhores trabalhos nacionais publicados no Brasil em 2018 (para todos os finalistas, leia aqui).
Na categoria Romance, o vencedor foi A mão que pune: 1890, de Octavio Aragão, publicado pela Editora Caligari. Na categoria Conto, venceu "Sombras no coração", de Marcelo Galvão, publicado na coletânea Lovecraftiano vol. 1, edição de autor. E na categoria antologia, a escolhida foi Fractais tropicais, organizada por Nelson de Oliveira para a Editora SESI-SP.
Parabéns ao vencedores!

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

O ciclo do Yig

Conforme anunciado aqui em abril de 2018, já está disponível O ciclo do Yig, coletânea de contos de H. P. Lovecraft que a editora independente Clock Tower viabilizou através de uma campanha de financiamento coletivo.
Com tradução de Daniel Iturvides Dutra, o volume tem 152 páginas e traz os textos inéditos no Brasil "A colina", "A maldição de Yig" e "Vindo dos éons" – que Lovecraft escreveu como autor-fantasma –, ilustrações exclusivas de Élson Félix, o artigo "Yig: o pai das serpentes e sua origem", assinado pelo tradutor, além de uma carta do cavalheiro de Providence à Zealia Bishop, escritora a quem foi creditada originalmente a autoria dos textos aqui publicados; somente em 1989 é que a real autoria de Lovecraft foi revelada. A edição é bem acabada, impressa em papel pólen e tem capa em cores com laminação brilhante. Uma peça de colecionador para os fãs do mestre do horror cósmico.
O livro já pode ser adquirido através do saite da editora, aqui.

sábado, 19 de janeiro de 2019

O elefante desaparece

O elefante desaparece (Zô no shômetzu), Haruki Murakami. 304 páginas. Traduzido do japonês por Lica Hashimoto. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. Publicado originalmente em 2013 no Japão.

Uma vez perguntaram ao fantasista goiano José Veiga de onde ele tirava suas ideias fantásticas. Ele respondeu, um tanto contrariado, que o que escrevia não era fantasia, era a pura realidade. De igual modo, perguntaram ao então quadrinhista (hoje escritor) Lourenço Mutarelli como ele havia desenvolvido o estilo caricato de suas ilustrações. Muito espantado, ele respondeu que seu desenho era realista, pois desenhava as coisas exatamente como eram.
Estas duas histórias são perfeitas para ilustrar a sensação de ler os escritos de Haruki Murakami, com uma pequena mas importante diferença: tudo é perfeitamente real em sua ficção mas não parece certo, algo que não pode ser perfeitamente percebido, que nunca se apresenta mas causa uma contínua tensão de estranhamento, muitas vezes beirando o insuportável. Por isso, sua ficção não é de fácil leitura e ainda mais difícil de interpretar.
Murakami nasceu em Kyoto em 1949 e é um dos mais importantes autores japoneses vivos. Continua morando no seu país natal, próximo a Tóquio, e entre seus livros mais famosos estão Kafka à beira-mar, Crônica do pássaro de corda e a série 1Q84, considerada uma legítima história de ficção científica.
O elefante desaparece é uma coletânea de 17 contos que pode servir bem como entrada à obra de Murakami, tanto para o leitor que não gosta de fantasia, uma vez que os textos do autor são muito naturalistas, muitas vezes nas franjas da crônica urbana, como para o leitor experiente que cansou dos protocolos recorrentes da fantasia convencional. Muitas histórias tem um clima tão intimista que parecem confissões do autor. Apenas uma e outra flertam mais descaradamente com o fantástico, como veremos a seguir.
"O pássaro de corda e a mulher da terça-feira" é uma dessas quase crônicas. Um homem que perdeu o emprego há poucos dias é incumbido pela esposa de encontrar o gato fugido. Na modorra de uma tarde ensolarada, ele busca o animal pelo beco que une os quintais da vizinhança – é impossível não visualizar a típica arquitetura urbana japonesa nessa hora – e acaba tendo um encontro inesperado com uma vizinha.
"O segundo assalto à padaria" é uma pérola. Um casal, assolado por uma fome desproporcional durante a madrugada, decide roubar pães de uma padaria. Mas, pelo avançado da hora, os dois não encontram nenhuma aberta. Então resolvem assaltar uma lanchonete 24 horas.
"Mensagem do canguru" é narrado em forma de epístola, na qual o funcionário do serviço de atendimento ao cliente de uma loja de departamentos, impressionado pela qualidade do texto de uma carta de reclamação declara seu amor à cliente desconhecida. O nível de psicose do funcionário faz com que o conto soe como prelúdio a história de terror.
"Sobre uma garota 100% perfeita que encontrei em uma manhã ensolarada de abril", é outra quase crônica, na qual um homem se impressiona com uma garota que viu na rua, mas não consegue falar com ela.
"Sono" conta a história de uma dona de casa que, depois de um sonho perturbador, deixa de dormir e passa a ter uma vida paralela à noite, enquanto sua família dorme.
"A queda do Império Romano, Rebelião indígena de 1881, Hitler invade a Polônia, E o mundo dos vendavais", como o título já revela, é um texto fragmentário, formado pela junção de fatos que um homem encadeia num fluxo de pensamento a partir de situações cotidianas que funcionam como disparadores.
"Lederhosen" é um tanto mais convencional. Conta a história de uma senhora que empreende uma viagem à Europa e recebe do marido o pedido por uma autêntica lederhosen, vestimenta típica da Alemanha. A busca pela peça vai causar uma forte transformação na mulher.
"Queimar celeiros" é uma das melhores histórias do volume. Conta a história de um homem que confidencia ao amigo sua fixação por queimar celeiros abandonados, e o leva a também experimentar a sensação de incendiar as coisas.
"O pequeno monstro verde" é uma das histórias em que o fantástico se apresenta de forma mais evidente. Uma mulher, sozinha em casa, recebe em sua porta a visita de um monstrinho verde que emergiu das raízes de uma árvore, e ele pede sua mão em casamento. Mas ela não é uma boa mulher.
"Caso de família" é uma crônica sobre um casal de irmãos que moram juntos, mas são muito diferentes entre si. Ele é relaxado e libertino, ela uma donzela educada e casadora. O equilíbrio da relação é alterado quando ela parece com um pretendente.
"Homens da tv" é outra história em que a fantasia se destaca mais claramente. Um homem sonolento testemunha, durante a madrugada, a invasão de sua casa por um grupo de homenzinhos que instalam uma televisão em sua sala. Espantado demais para reagir, ele simplesmente deixa acontecer até que todos se retirem. Como se isso já não fosse suficientemente estranho, a tv não exibe nada além de ruído branco, e sua esposa, sempre tão detalhista, não percebe o aparelho interferindo na decoração. As coisas ficam ainda mais estranhas quando os homenzinhos aparecem também em seu local de trabalho e ninguém além dele parece se dar conta dos estranhos invasores.
"Lento barco para a China" é o relato de um homem maduro sobre como conheceu seus primeiros chineses, dentre os quais uma jovem pelo qual se apaixonou, mas de quem se perdeu numa situação infeliz.
A fantasia volta a se declarar em "O anão dançarino", um conto de fadas sombrio e de matiz político, em que o sonho com o tal anão torna-se um fardo difícil de carregar.
"O último gramado ao entardecer" é um relato singelo mas repleto de tensão, em que um homem rememora sua juventude quando, demissionário em um emprego de aparar gramados, vai atender seu último cliente.
"Silêncio" tem o jeitão de um conto de Stephen King e começa com a pergunta: "Você já deu um soco em alguém durante uma briga?" A partir dessa questão, um homem relata ao amigo uma dura experiência sobre bulling e violência na escola que decerto ecoa naqueles que passaram por situações dessa natureza.
O volume fecha com o conto que dá nome a coletânea, uma história de realismo mágico, sobre o desaparecimento inexplicável – ou quase – do velho elefante e seu tratador no zoológico da cidade.
O elefante desaparece não é um livro divertido e de forma alguma deve ser tomado como uma leitura de entretenimento. Trata-se de uma leitura intimista, muitas vezes dolorida, mas não deixa de ser prazerosa devido as cores e sabores do Japão moderno que, sem deixar de ser singular, em muitas coisas é como qualquer outro lugar. Murakami mostra que é um grande mestre em manipular as emoções, sem pieguismos e sem receitas de bolo. Apesar da distância e da ausência metalinguística, arrisco comparar a experiência em ler sua ficção curta com a leitura de Jorge Luiz Borges pela profundidade dramática e o vigor criativo e narrativo.
É possível ensinar alguém a escrever bem. Mas para escrever como Murakami, é preciso ser Murakami.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Os trinta melhores contos de Gerson Avillez

Gerson Avillez é um novo autor de ficção fantástica que tem focado sua produção na grande rede. Ele agora decidiu reunir seus melhores trabalhos na coletânea Os 30 melhores contos, organizada por ele mesmo e disponibilizada no saite Recando das Letras. A maioria dos textos foi anteriormente publicada na internet, mas também há algum material inédito. Além desta coletânea, outros livros do autor estão disponíveis no mesmo link.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

O Sacy-Pererê

Está disponível para download gratuito o ebook O Sacy-Pererê: Resultado de uma collab, coletânea de ilustrações organizadas por Andriolli Costa para o saite Colecionador de Sacis.
Diz o texto de divulgação: "Nestas páginas, ilustradores profissionais e amadores se debruçaram sobre o centenário livro lobatiano para dar forma aos depoimentos ali registrados. Acompanha cada arte um trecho que captura a riqueza daquele testemunho."
Participam da edição os ilustradores Alisson Alencar, Azrael de Aguiar, Cristiane Xavier, Daniel Batista, David Dornelles, Fernando PJ, Ícaro Maciel, Luiz Henrique, Marco Goes, Mikael Quites, Pedro Godoy, Rafael Serpentis, Vee Marques, e a capa é de Azrael de Aguiar. A edição tem 29 páginas e pode ser baixada aqui.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Algazarra

Santiago Santos, autor do excelente romance episódico Na eternidade sempre é domingo (2016), retorna às estantes pela Editora Patuá com a coletânea de microcontos Algazarra. São cinquenta textos que vão de trezentas a mil palavras e trafegam por diversos temas e formatos, passando inclusive pela fantasia, o terror, a ficção científica e o realismo fantástico, entre outros gêneros. O volume é ainda valorizado pela belíssima capa de Ericka Lugo.
Organizada pelo próprio autor, esta é a primeira seleta de suas publicações no bem avaliado saite Flash Fiction, ainda ativo e publicando periodicamente trabalhos inéditos sempre surpreendentes pela ousadia e qualidade.
Santiago é jornalista e constrói seu multiverso ficcional a partir de Cuiabá, onde reside desde criança. Recomendadíssimo.
Mais informações no saite da Editora Patuá, aqui.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Era uma vez a mulher que tentou matar o bebê da vizinha

Era uma vez a mulher que tentou matar o bebê da vizinha, Liudmila Petruchévskaia. 206 páginas. Tradução de Cecília Rosas. Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2018.

Uma das mais antigas reclamações dos leitores brasileiros de fc&f é a falta de novidades internacionais nos catálogos das editoras que trabalham com ficção fantástica no Brasil. Embora haja muita novidade no que se refere aos autores nacionais, entre os estrangeiros a regra é republicar o que está fora de catálogo ou publicar um novo título de um autor já consagrado. Vez ou outra, aparece um nome novo, já que as editoras brasileiras têm receio de investir em títulos que podem não ser comercialmente bem sucedidos, e os mais arriscados certamente são aqueles de autores que nunca foram publicados aqui. Por isso, é motivo de comemoração o lançamento de Era uma vez a mulher que tentou matar o bebê da vizinha, coletânea da escritora moscovita Liudmila Petruchévskaia, uma novidade absoluta.
Nascida em 1938, Liudmila é considerada a mais importante escritora russa viva, mas nem mesmo na Rússia ela é unanimidade, pois sua ficção não faz concessões, mas cutuca feridas e pisa nos calos sem piedade. Sua obra, proibida por muito tempo, só ganhou espaço com fim do regime comunista e chegou ao Brasil por influência de seu filho Fedor, um apaixonado pelo Brasil, que a acompanhou à edição de 2018 da FLIP, a convite da editora Companhia das Letras que lançou a coletânea com tradução de Cecília Rosas, diretamente do russo.
Uma dificuldade é citar o seu título original. Na edição brasileira, o título original está grafado em cirílico e não consegui encontrar um modo de reproduzi-lo. Para complicar ainda mais, a página oficial do livro no saite da Companhia das Letras dá como título original em inglês There once lived a girl who seduced her sister's husband, and he hanged himself: Love stories, que não se parece em nada com o título norte-americano There once lived a woman who tried to kill her neighbor's baby. E durma-se com um barulho desses.
Trata-se de um livro de pequeno volume, com apenas 206 páginas, mas de um vulto incomensurável por conta do estilo e dos temas abordados nos 21 contos divididos em quatro seções: "Contos dos eslavos do oeste", "Alegorias", Réquiens" e "Contos de fadas".
Alguns dos textos lembram os contos decadentistas franceses com traços de romantismo, em que as histórias trabalham com situações de morte, pós-morte ou quase-morte, na forma de pesadelos ou relatos, muitos em primeira pessoa, que têm o mesmo tipo de estética que encontramos nas obras surrealistas, ou seja, são situações muito reais e cotidianas, mas que estão eivadas de um estranhamento perturbador que não permite considerá-las realistas.
Não vou comentar todos aqui, é claro, pois vale muito a pena conhecê-los em primeira mão, mas destacarei alguns dos que mais me impressionaram. O conto que dá nome a antologia é o mais realista dentre todos os textos da seleção, mas a maior parte dela está identificada com a fantasia, como "O deus Posêidon", em que  uma mulher visita a amiga em uma luxuosa mansão e descobre que seu marido é filho de um deus, ou "A mãe-repolho", em que uma mãe amorosa tenta desesperadamente criar a filha minúscula.
É claro que as histórias de horror são aquelas em que a situação de desconforto se potencializa.  Como no primeiro texto da coletânea é "O abraço", em que um militar, depois de um sonho premonitório, desenterra o corpo da falecida esposa para recuperar a carteirinha do partido (deveria ser um documento muito importante na Rússia soviética) que acidentalmente havia caído no caixão, mas ele não obedece integralmente as instruções recebidas no sonho e isso causará consequências muito desagradáveis. Ou "O sobretudo preto", em que uma mulher se vê desorientada em uma cidade penumbrosa, na qual as pessoas têm uma ralação estranha com os fósforos. E "A história do relógio", que fecha a edição, no qual uma garotinha encontra um relógio que traz uma maldição: quem lhe dá corda uma vez, tem sua vida irremediavelmente ligada ao seu funcionamento: se o relógio parar, é morte certa.
Os textos de ficção científica também são bastante sombrios. Em "Higiene", acompanhamos a decadência física e moral de uma família isolada em seu apartamento enquanto uma virose letal dizima a população da cidade. E "A nova família Robinson", em que uma outra família tenta sobreviver ao frio, à fome e à violência de um verdadeiro apocalipse ambiental.
Duas coisas se destacam na obra de Liudmila: o protagonismo feminino, que predomina quase todos os textos, com uma reflexão profunda sobre a posição da mulher na relação com o esposo, com a família e com a sociedade, e a ausência de todos os protocolos que saturam a fc&f ocidental. Ainda que as histórias de Liudmila possam ser identificadas com este ou aquele gênero, está claro que não foram escritas com isso em mente, pois as situações de misturam sem qualquer regra estabelecida. Não há o clichê das infindáveis jornadas do herói embolando as narrativas, assim como nenhuma outra condição editorial imposta à construção dos relatos: tratam-se de criações pessoais sem qualquer modelo prévio, herdeiras de uma escola que nos parece completamente estranha.
É uma maravilha ler histórias fantásticas que não apelam para elfos, anões e magos agredindo-se mutuamente, zumbis devoradores de cérebros, astronautas com armas de raios combatendo alienígenas psicopatas e trans humanos com próteses computadorizadas lutando contra megacorporações do ciberespaço. Somente quando recebemos o frescor de uma literatura como a de Liudmila é que percebemos o quanto isso já saturou.
A leitura de Era uma vez a mulher que tentou matar o bebê da vizinha não é fácil, porque não é agradável. Não há entretenimento nela, mas um convite a reflexões sobre a vida e a morte individual e social. Para pensar o quanto, às vezes, nossas vidas podem ser tão mais fantásticas que qualquer ficção.

domingo, 24 de junho de 2018

Almanaque: Os lançamentos da fcf&h em 2017

Como faço há muitos anos, em 2017 também acompanhei as publicações de livros de fantasia, ficção científica e horror no Brasil, em sequência ao trabalho iniciado pelo Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica. Essa pesquisa, além do levantamento estatístico muito interessante, gerou o já disponível Almanaque da Arte Fantástica Brasileira - Lançamentos 2017, que traz a relação integral dos lançamentos da literatura de gênero no país naquele ano, em duas listas principais – de autores nacionais e estrangeiros –, subdivididas em lançamentos e relançamentos nos formatos romances, coletâneas, novelizações, livro de arte e não ficção, nos três gêneros da ficção fantástica. Para quem acompanha estes estudos, a edição apresenta novos dados sobre a evolução do mercado e sobre as tendências do ponto de vista editorial. A lista não é absoluta e, tal como a verdade, sempre alguma coisa escapa. Mas como isso também é uma constante, acredito que as conclusões são confiáveis.
Apesar do campo estar vivendo um momento de aparente otimismo, a situação revelada pelos números não é muito animadora quando comparada ao passado recente. Confirmando a tendência, 2017 mostra queda na atividade editorial em relação à 2016, especialmente no que se refere a edição de autores nacionais. Considerando-se os números totais, isto é, lançamentos e relançamentos de autores brasileiros em todos os formatos e gêneros, foram 252 títulos (235 inéditos) em 2017, contra 321 (295 inéditos) em 2016.
Entre os livros de autores estrangeiros, a situação se manteve estável, com a publicação de 348 títulos (326 inéditos) contra 339 (219 inéditos) em 2016. Mas é bom que se diga que grande parte da responsabilidade por esse desempenho é da coleção de ebooks do Perry Rhodan, publicada pela editora SSPG que há alguns anos lança regularmente uma média de sete títulos inéditos por mês.
Ainda assim, somando brasileiros e estrangeiros, em 2017 foram 600 títulos contra os 660 em 2016, uma retração significativa portanto. A não ser para aqueles que desprezam a produção nacional em favor do material traduzido, não há muito o que comemorar.
Na tabela ao lado, podemos ver a evolução dos números ao longo do tempo a partir de 2011 e observar a tendência de queda que vem se confirmando nos números parciais de 2018. Na medida em que os investimentos de editoras e autores não se transformam  em lucro, estes migram para outras atividades, permanecendo no meio apenas os fãs diletantes. Era de se esperar que isso acontecesse depois da bolha de 2012. Mas ainda temos números generosos se comparados aos paupérrimos cenários vividos nos anos 1980 e 1990.
Quem quiser, pode repetir esses estudo a partir das listas anteriores, disponíveis na plataforma Issuu.
Estão lá as listas de 2011, 2012, 2013, 2014, 2015 a 2016, mas por conta das alterações que a plataforma impôs aos usuários, não é mais possível baixar os ebooks diretamente. Mas existem alternativas indiretas como, por exemplo, o Issuu Publication Downloader, aqui. Aproveite.

domingo, 29 de abril de 2018

O ciclo do Yig

A editora independente Clock Tower, que já trouxe uma série de títulos raros e interessantes aos fãs da weird fiction, promove agora uma campanha para a publicação da coletânea O ciclo de Yig, de H. P. Lovecraft. A ideia é viabilizar a tradução e a publicação através de financiamento coletivo.
A edição terá três textos - dois deles longos - nunca antes traduzidos no Brasil: "A colina", "A maldição de Yig" e "Vindo dos éons", além de diversos extras como uma carta a Zealia Brown Reed Bishop e ilustrações exclusivas. O prefácio será assinado por Daniel I. Dutra.
O livro já pode ser encomendado através do saite da editora, aqui.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

FCF&H brasileira essencial em 2017

Como tenho feitos nos últimos anos, relacionarei a seguir os títulos de livros de autores brasileiros de fantasia, ficção científica e terror que se destacaram entre os lançamentos de 2017. Cabe, antes de iniciar, dar alguns esclarecimentos sobre o método empregado.
Em primeiro lugar, a lista segue padrões pessoais de relevância, ou seja, trata-se de um recorte pessoal e absolutamente arbitrário. Dentro dessa premissa inicial, optei por evitar sequências, uma vez que toda sequência está necessariamente vinculada a uma publicação de um ano anterior, mas algumas vezes isso é incontornável. Também desconsidero republicações e reedições porque obviamente não são inéditas. E finalmente, só me interessam aqui os autores que escrevem em português e publicam no Brasil. Ou seja, livros publicados fora do país, mesmo que de autores brasileiros, assim como livros de autores estrangeiros traduzidos aqui não entram nesta lista. Confesso que senti vontade de não considerar os ebooks mas, devido a significância de alguns títulos, essa premissa não foi observada. Não há hierarquia de preferência e os títulos estão apresentados em ordem alfabética dentro de sua classificação.

Iniciando pelos romances e, dentro deles, pelo gênero fantasia, destaco cinco títulos. Aimó: Uma viagem pelo mundo dos orixás (Companhia das Letras), de Reginaldo Prandi, é uma obra superlativa e surpreende que o autor não tenha sido percebido há mais tempo. Conta a história da alma desmemoriada de uma menina que busca por recuperar sua história no mundo dos orixás para, dessa forma, ter a oportunidade de reviver. O que mais impressiona é a clareza do autor em apresentar o panteão africano - a mitologia mais viva do mundo moderno - e contextualizar a doutrina do candomblé.
Raphael Draccon sempre fará parte das listas de essenciais quando tiver um novo livro publicado, e ele sempre tem. Trata-se de um dos maiores vendedores de livros de fantasia no Brasil, que conta com uma legião de admiradores. Ainda não parece ter alcançado a estatura da influência de André Vianco - outro nome sempre presente nestas listas -, mas também é bastante respeitado pelos seus pares e leitores. Em O coletor de espíritos (Rocco), um psicólogo retorna ao seu antigo vilarejo para enfrentar os fantasmas da juventude.
Ordem vermelha: Os filhos da degradação, de Felipe Castilho (Intrínseca), foi lançado com pompa e circunstância na última edição da Comic Con Experience, em São Paulo, numa campanha de marketing nunca antes vista na literatura fantástica brasileira. Trata-se de uma fantasia medieval maniqueísta que usa e abusa do consagrado modelo tolkeniano, em que um grupo de paladinos enfrentam a potestade maligna de uma cidadela.
Sherlock e os aventureiros, de André Cordenonsi (Avec), é uma história na linha "juventude de Sherlock Holmes", um tipo de fanfic muito praticado em todo mundo, que até já teve uma versão para o cinema nos anos 1980. Nesta história, o lendário detetive une-se a conhecidas personalidades de fato e de ficção para salvar o mundo de conspirações sinistras.
Cordenonsi também aparece, ao lado de Enéias Tavares e Nikelen Witter, no romance escrito a seis mãos Alcova da morte: Um caso da Agência de Detetives Guanabara Real (Avec),  em que um grupo de investigadores  – que são avatares dos próprios autores – se envolve numa aventura ao molde steampunk durante a inauguração da estátua do Corcovado. Alguns poderiam dizer que este título deveria estar entre os livros de fc, mas como a história extrapola bastante o gênero, fica melhor mesmo como fantasia.


E por falar em fc, a lista continua, agora nesse gênero, com Anacrônicos, de Luiz Bras (@Link), noveleta publicada em volume independente que conta como o fim do mundo chega através do surgimento inesperado de milhões de réplicas de todas as pessoas que já viveram, incapacitando a continuidade da vida como a conhecemos.
Dunya, o primeiro ebook desta relação, tem autoria de Tibor Moricz (em edição do próprio autor) é um romance de ficção espacial sobre um grupo de colonos num planeta inóspito habitado por uma raça hostil. Apesar de ser um enredo já bastante explorado, Moricz é um dos melhores autores da Terceira Onda da fc brasileira e seus textos sempre merecem a atenção dos leitores.
Extemporâneo é o novo romance de Alexey Dodsworth (Presságio), um dos nomes favoritos entre os votantes do Prêmio Argos, que já lhe tributaram comendas em 2015 e 2017. Neste romance, o protagonista salta, aparentemente sem controle, de uma realidade a outra, experimentando vidas de todos os tipos. O tema também não é original, mas é preciso reconhecer a importância de Dodsworth no cenário atual da fc brasileira.
Eric Novello, um dos autores da Terceira Onda mais elogiados pelos leitores, publicou em 2017 seu primeiro título pela prestigiosa editora Companhia das Letras. Trata-se do romance Ninguém nasce herói, jornada adolescente numa São Paulo alternativa dominada pelo ódio, intolerância e integralismo religioso.
Gerson Lodi-Ribeiro é um nome reconhecido dentro do fandom, ativo desde os anos 1980 tanto como autor como organizador de antologias. Seu romance Octopusgarden (Draco) também se passa no espaço sideral, em um planeta aquático habitados por octópodes que recebe a visita de uma nave com golfinhos inteligentes terrestres, e a interação das espécies não vai ser muito pacífica.


No gênero do horror, finalmente chegou ao mercado O mistério de Deus, de Roberto de Sousa Causo (Devir), uma história que une carros envenenados, boxe e demônios assolando Sumaré, pequena cidade do interior de São Paulo onde o autor passou toda a sua juventude, o que garante descrições naturalistas que contrastam vividamente com o sobrenatural.
Neve negra, de Santiago Nazarian (Companhia das Letras) conta a história de um artista plástico que se depara com o insólito quando, depois de longa ausência, retorna sua residência na serra catarinense numa rara noite de nevasca.
Também pela Companhia das Letras, recebemos Noite dentro da noite, de Joca Reiners Terron, relato perturbador que observa o Brasil a partir de um garoto que sofreu um acidente grave e tem de tomar medicamentos que nublam a percepção da realidade, ou talvez não.
André Vianco aparece aqui com o romance Penumbra (LeYa), que conta a história de uma menina que desperta numa dimensão sombria onde encontra uma velha senhora que será sua nêmesis e também sua única amiga.
Antônio Xerxenesky trouxe o romance As perguntas, publicado pela Companhia das Letras. Conta sobre uma especialista em ocultismo que se envolve na investigação de um crime que vai abalar sua confiança e convicções.
Quero lembrar agora alguns títulos entre antologias e coletâneas porque, além da produção de ficção curta ser tradição brasileira, é geralmente nas seletas que florescem novos autores. Dessa forma, destacarei quatro títulos em cada gênero.


Na fantasia, é necessário reconhecer o Dicionário de línguas imaginárias, de Olavo Amaral (Companhia das Letras), em que o autor reúne textos de sua própria autoria, todos de um viés metalinguístico que se desdobra nos diversos subgêneros especulativos, sempre tendo como base a comunicação ou a falta dela.
Giulia Moon, que também é uma personalidade obrigatória entre o essencial, aparece desta vez ao lado de Walter Tierno como organizadora da antologia Fantásticas: Contos de fantasia protagonizado por mulheres (Giz), que como diz o título, pretende dar maior presença feminina à literatura do gênero, proposta que por si só é digna de nota.
O já citado Tibor Moricz aparece mais uma vez nesta relação com a coletânea Filamentos iridescentes, autopublicada em forma de ebook, que reúne alguns de seus melhores trabalhos na ficção curta, algo que realmente faltava na bibliografia do autor.
A mais destaca autora no último prêmio Argos, Ana Lucia Merege organizou este ano mais uma antologia sobre contos de fantasia medieval, Magos: Histórias de feiticeiros e mestres do oculto (Draco) que, ao lado de Excalibur e Medieval, forma um amplo painel do subgênero no país.


O espaço das antologias de ficção científica foi dominado por Luiz Bras, que organizou três dos quatro títulos lembrados aqui. Foram os volumes gêmeos de Hiperconexões, realidade expandida: Sangue & titânio e Carbono e Silício (Patuá), que são seletas de poemas, algo extremamente raro dentro do gênero no Brasil. Brás também publicou a coletânea pessoal A última árvore (Livros-Fantasma), ebook que reúne sua ficção curta mais recente. Pela qualidade de suas coletâneas anteriores, esta certamente é leitura obrigatória.
A quarta coletânea do gênero tem o singelo título de Memórias pós-humanas de Quincas Borba e outras histórias alternativas muito além do País do Futuro, ebook de Sid Castro publicado pelo autor, um veterano da Segunda Onda da fc brasileira que apresenta agora uma seleta autoral com textos interessantes de diversas propostas.


No gênero do horror, destacam-se a coletânea Comboio de espectros, de Duda Falcão (Argonautas/Avec), autor que tem se estabelecido junto ao fandom a partir de trabalhos nesse gênero, especialmente contos, que seguem um estilo gótico clássico, com uma pitada de humor, negro é claro. Camila Fernandes, autora da Terceira Onda que estava ausente há algum tempo, retornou em 2017 com a coletânea Contos sombrios (Dandelion), num estilo mais intimista. Raphael Draccon, cujo romance já foi citado no início deste artigo, contribui também no horror, ao lado da esposa Carolina Munhóz e dos escritores Frini Georgakopoulos e Rafael Montes para compor a antologia Criaturas e criadores: Histórias para noites de terror (Record), com releituras de histórias clássicas do gênero. E, ainda, Crimes fantásticos, organizada por Cesar Alcázar e Duda Falcão (Argonautas), antologia que tem o mérito suplementar de recuperar a arte de R. F. Lucchetti, um dos grandes mestres do horror brasileiro.

Para fechar esta lista, três títulos de não ficção que são obrigatórios para aqueles que querem ter uma visão mais apurada da literatura fantástica no Brasil: A a Z: Dicas para escritores, do veterano da Segunda Onda, tradutor e acadêmico Fabio Fernandes, um ebook autoeditado com orientações divertidas para novos autores de gênero, mas que também são úteis para os leitores; A fantástica jornada do escritor no Brasil, reveladora pesquisa de Kátia Regina Souza (Metamorfose) apoiada em uma série de entrevistas com personalidades da ficção fantástica brasileira, e Fantástico e seus arredores: Figurações do insólito, compêndio acadêmico editado em forma de ebook pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, organizado por Maria Zilda da Cunha e Ligia Menna, com artigos sobre a literatura brasileira e sua relação com o fantástico.
Pinçamos aqui trinta títulos importantes publicados ao longo de 2017 (quinze romances, doze coletâneas e três não ficção) que devem ser observados com carinho tanto pelos leitores como pelos estudiosos dos gêneros fantásticos no Brasil. Como foi dito no início, por ser uma seleção arbitrária, decerto que permite recortes alternativos dentro da relação total de lançamentos no ano que, na última contagem, superou 180 títulos. Contudo, a lista integralizada não está pronta pois a pesquisa ainda não foi encerrada. Quando for publicada, será divulgada aqui e cada um poderá então fazer sua própria lista de essenciais.
Por hora, vocês vão ter que se contentar com a minha. Desculpem o mal jeito.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Inaugurando 2018

A Editora @Link convida os leitores da boa ficção científica para o lançamento de dois livros do gênero: Eros ex machina: Robôs sexuais, antologia organizada por Luiz Bras, e a coletânea Às moscas, armas!, do premiado escritor Nelson de Oliveira que ressurge depois de um longo período sabático no Caribe.
Eros é uma seleta com dezoito contos eróticos com robôs, que traz textos de Alex Xavier, Dani Rosolen, Fabio Mariano, Francis Toyama, Gabriel Felipe Jacomel, Gê Martins, Giovanna Picillo, Gláuber Soares, Luiz Bras, Marco Rigobelli, Maria Esther, Mélani Sant’Ana, Nanete Neves, Nathalie Lourenço, Nathan Elias-Elias, Ricardo Celestino, Sonia Nabarrete e Tobias Vilhena.
Em Às moscas, armas!, Nelson de Oliveira retorna aos contos, formato com o qual já publicou diversos livros. O autor, que sempre trafegou entre o realismo e o fantástico, deve ter voltado com as baterias recarregadas plenamente pois a editora anuncia que este é seu melhor livro – e já valeria a pena mesmo que não fosse.
O evento, que contará com a presença siamesa de Bras e Oliveira, está marcado para o dia 24 de fevereiro, das 16 às 20 horas, na Sensorial Discos, Rua Augusta nº2389, em São Paulo, capital.
Vale todo o esforço para comparecer e matar a saudade do bronzeado Nelson de Oliveira, além de adquirir estes dois livros que decerto estarão entre as publicações essenciais da fcb em 2018.
Mais informações na fanpage do evento, aqui.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Resenha: Dicionário de línguas imaginárias

Dicionário de línguas imaginárias, Olavo Amaral. 128 páginas. Editora Companhia das Letras, selo Alfaguara, São Paulo, 2017.

Ainda que seja conceito comum entre os críticos da literatura brasileira que ela seja uma arte estagnada, recorrente em seus temas, quase sempre ligados à marginália, à pobreza e à violência, repetindo personagens e tramas que tornam a leitura previsível – e isso pode ser mesmo verdade – sempre houve uma corrente que fluiu em outras direções. De Machado de Assis a Guimarães Rosa, de Murilo Rubião a Ignácio de Loyola Brandão, de Monteiro Lobato a José J. Veiga, há dezenas de autores que escapam dessa análise superficial, que levam temas e tramas da literatura brasileira muito além da fronteira. Histórias de horror quase sempre, fantasia e ficção científica eventualmente, aparecem em todas as épocas, desde que foi permitido que os brasileiros publicassem o que escreviam.
Hoje temos um real movimento em busca desses horizontes, iniciado antes de tudo pelos leitores fãs de ficção científica que, na dificuldade de encontrar o que queriam, passaram a compor suas próprias histórias em fanzines, a princípio, e em blogues, mais recentemente. Esse movimento pré-fabricado nos anos 1960 e 1980, cresceu muito na era da internet e eclipsou aquele fluxo natural que continua lá, contudo.
Há quem diga que as obras de autores ligados ao realismo fantástico não são parte desse movimento. E não são mesmo. São autores mais incorporados ao mainstream, nunca identificados como "fãs", que emprestam para si a estética e os mecanismos de uma tradição latinoamericana que vem de muito mais longe. As histórias tem textura de weird fiction (referência à revista americana Weird Tales, publicada entre 1923 e 1954), em que os contornos da literatura de gênero não são claros e seus preciosos protocolos não são respeitados.
Este é o caso dos dez contos que formam esta coletânea de Olavo Amaral, portoalegrense nascido em 1979, médico, neurocientista,  cineasta e autor premiado, que tem em sua bibliografia as coletâneas Estática (2006) e Correnteza e escombros (2012), também relacionadas ao fantástico e ambas disponíveis para leitura na internet.
Dicionário de línguas imaginárias é o primeiro livro do autor pela Companhia das Letras e guarda tributo à Jorge Luis Borges, especialmente por conta do tema. Mas, enquanto Borges tinha no livro o seu objeto de especulação, Amaral volta sua atenção para a oralidade, a língua, e assim sustenta a mesma metalinguagem borgeana.
O conto que abre a seleta é "Uok phlau", estruturado na forma de um artigo sobre o trabalho de campo de um antropólogo junto a tribo nativa dos yualapeng, em cuja língua não existe a noção de "ir" e "vir".
"Travessia" é uma história mais convencional, sobre quatro homens que não falam a mesma língua e, por algum motivo não explicitado, estão presos em um contêiner, e os desdobramentos do estresse, medo e preconceito que surgem entre eles.
"Mixtape" é uma história sincopada, de tons eróticos, sobre um homem obcecado por um vídeo pornográfico.
"Quarto a beira d'água" retoma o estilo fantástico ao contar a tragédia de um casal depois que surge uma poça de água no meio de seu quarto de dormir.
"Iceberg" é uma fantasia com laivos de ficção científica. Um antropólogo passa o inverno observando à distância uma tribo de homens primitivos que vivem próximos ao litoral. O relato não deixa claro o que realmente está acontecendo, mas vamos sentir o estranhamento quando chega o verão.
"Choeung ek" apresenta uma sociedade que tem no turismo uma grande atividade comercial. Ali, os viajantes são encaminhados às "atrações" locais, que contam uma história tétrica e antiga de violência e crueldade, tudo muito profissional, é claro. Mas há um passeio especial, exclusivo para os turistas mais curiosos.
"O ano em que nos tornamos ciborgues" é uma ficção científica distópica, sobre uma revolução proletária fracassada que dá lugar a uma sociedade de coalizão. Sobreviventes mutilados pelo conflito são submetidos a um tratamento a base de implantes, mas ainda há muito com que se revoltar.
Em "Esquecendo Valdéz", o autor se achega ao modelo borgeano ao contar a história de um homem que forjou um intelectual inexistente a partir da produção de um livro no qual baseou seu trabalho acadêmico.
"Última balsa" tem um que de A estrada, de Cormac McCarthy. Conta o drama de um homem e um menino autista tentando sobreviver em uma ilha deserta após um naufrágio.
"Estepe" mostra o drama de um homem que tem uma doença incurável que avança tanto mais rápido quanto ele fala. O jeito é parar de falar e, para isso, ele vai viver com uma tribo nômade nas congeladas estepes russas, que não por acaso é o povo que menos fala no mundo.
Um livro curioso e perturbador, que sustenta a tradição do realismo fantástico brasileiro e latinoamericano com qualidades inegáveis, ótimas ideias e texto fluente. Leitura altamente recomendável que mostra que, ao contrário do que se pensa, há inteligência fora do fandom.

domingo, 7 de janeiro de 2018

Memórias pós-humanas de Quincas Borba

O escritor Sid Castro, veterano da segunda onda da ficção científica brasileira, lançou pela plataforma de autopublicação da Amazon, uma coletânea com o singelo nome de Memórias pós-humanas de Quincas Borba e outras histórias alternativas muito além do país do futuro, pelo selo autoral Imagem & Ação.
O volume tem 202 páginas e traz seis contos e noveletas de ficção científica. Diz o autor: "São distopias sociais e tecnológicas, superumanos e alienígenas, batalhas interplanetárias, viagens no tempo e no espaço e outras dimensões do Universo. Tudo sob o olhar antropofágico do chamado 'País do Futuro', de Machado de Assis a Iemanjá, vikings indígenas, um Brasil teocrático e robôs lutando por seus direitos".
O volume está a venda aqui para leitores Kindle, disponível gratuitamente para assinantes do Kindle Unlimited.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Argos 2017

O Clube de Leitores de Ficção Científica-CLFC divulgou os títulos dos livros finalistas da edição 2017 do Prêmio Argos, que aponta, na opinião de seus membros, os melhores trabalhos nacionais publicados no Brasil em 2016 nas categorias Romance, Conto e Antologia. São eles:

Melhor romance
A Bandeira do Elefante e da Arara, Christopher Kastensmidt, Devir Livraria
O caminho do Louco, Alex Mandarino, Editora Avec
O esplendor, Alexey Dodsworth, Editora Draco
A fonte âmbar, Ana Lúcia Merege, Editora Draco
O último refúgio, João Beraldo, Editora Draco

Melhor conto
"Amor, uma arqueologia", Fabio Fernandes (Trasgo 11)
"Auto-retrato de uma natureza morta", Octavio Aragão (Crônica da guerra dos muitos mundos, Volume 1)
"O domo, o roubo e a guia", Roberta Spindler (Dinossauros, Editora Draco)
"O grande livro do fogo", Ana Lúcia Merege (Medieval: Contos de uma era fantástica, Editora Draco)
"A noviça escarlate", Luiz Felipe Vasques (Crônica da guerra dos muitos mundos, Volume 1)

Melhor antologia ou coletânea
Crônicas da guerra dos muitos mundos, Volume 1, Rita Maria Felix da Silva, org.
Dinossauros, Gerson Lodi-Ribeiro, org., Editora Draco
Estranha Bahia, Alec Silva, Ricardo Santos e Rochett Tavares, orgs., Editora EX!
Medieval: Contos de uma era fantástica, Ana Lucia Merege e Eduardo Kasse, orgs., Editora Draco
Mistérios do mal, Carlos Orsi, Editora Draco

A novidade desta edição é a volta dos prêmios em dinheiro para os vencedores, como acontecia nas primeiras edições do Argos, além dos tradicionais troféus.
Os vencedores das serão revelados na cerimônia de premiação, no dia 16 de dezembro de 2017, das 13 às 18h, no Auditório da Sala A-206 da Universidade Veiga de Almeida, Campus Tijuca (Rua Ibituruna, 108, Rio de Janeiro). Também será entregue um prêmio especial póstumo ao editor Douglas Quinta Reis, recentemente falecido.
Parabéns a todos.

domingo, 5 de novembro de 2017

Limbographia

Os anos 1980-1990 foram era dourada da ficção fantástica brasileira. Um período romântico e idealista, de teses apaixonadas e debates ferozes, quando os gêneros obtiveram um desenvolvimento conceitual de tal monta que as obras daquela época chegaram a ser classificadas como "alta literatura" por especialistas mais recentes. Sem dúvida que é um exagero mas, de fato, havia na ficção daquele tempo um vigor e uma personalidade tão fortes que estabeleceram uma identidade para a fc&f nacional. Entre os autores desse período, nenhum foi mais festejado que Roberto Schima. O artista teve uma produção robusta e reconhecida não só pelos fãs, mas também por especialistas, sendo o maior vencedor do Prêmio Nova - o mais importante prêmio do gênero no país -, e não apenas como autor, mas também como ilustrador. Também foi o grande vencedor do concurso de contos Jerônimo Monteiro, promovido pela revista Isaac Asimov Magazine em 1991.
Apesar disso tudo, Schima teve apenas um único livro solo publicado (Pequenas portas do eu, Scortecci, 1987). A maior parte de sua produção ficou restrita aos fanzines, que desapareceram na virada do século, assim como o autor, que se afastou do campo por muitos anos.
Mas como quem é vivo sempre aparece, os antológicos contos de Roberto Schima estão novamente disponíveis na coletânea Limbographia, organizada pelo autor. Anteriormente publicada pela AgBooks, o livro chega agora em edição luxuosa pela plataforma Clube de Autores. São 20 contos de ficção científica e fantasia, entre os quais o premiado "Como a neve de maio", vencedora do já citado Prêmio Jerônimo Monteiro. Ilustrações do autor também valorizam a edição, que tem capa dura e 578 páginas em papel couchê.
O preço do volume é salgado, mas Shima é, sem qualquer dúvida, um autor que merece o investimento.

Resenha: O bazar dos sonhos ruins

O bazar dos sonhos ruins (The bazaar of bad dreams), Stephen King. 528 páginas. Tradução de Regiane Winarski. Editora Companhia das Letras, selo Suma das Letras, São Paulo, 2017.

Stephen King é provavelmente o autor mais presente na minha vida de leitor. Desde minha juventude tenho acompanhado sua obra e é interessante observar como ele tem se tornado um autor cada vez mais mainstream sem perder o apelo de uma ficção fantástica, mesmo quando não tem nada de fantasiosa. Esse caráter já pode ser claramente percebido no coletânea Escuridão total sem estrelas, resenhada aqui, mas fica ainda mais evidente na nova coletânea O bazar dos sonhos ruins, publicada em 2017 pela editora Companhia das Letras no selo Suma das Letras.
Diferente da coletânea anterior, formada principalmente por novelas, esta é mesmo uma seleção de contos, com vinte textos distribuídos em suas 528 páginas.
Os momentos mais expressivos do autor neste volume são justamente os contos não fantásticos, que demonstram que King tornou-se um sensível cronista da América decadente.
Não comentarei todos eles, pois isso tornaria a leitura desta resenha um tanto enfadonha - uma vez que não tenho, nem de longe, a habilidade do mestre para entreter o leitor. Então, falarei sobre aqueles que mais me empolgaram, embora nenhum texto da seleta possa ser classificado abaixo de bom. De fato, a maior parte está entre muito bom e excelente, com picos de excepcionalidade, que serão aqueles que vou comentar.
"Batman e Robin têm uma discussão" é uma pequena obra prima. Apesar do título, não tem nada a ver com quadrinhos e os personagens do título não aparecem na história, que conta sobre um almoço entre pai e filho num restaurante. Nada muito especial, exceto pelo fato de que o pai sofre de alzheimer, e este pequeno ritual, repetido semanalmente, é um momento de extrema ternura entre ambos. Contudo, ao retornar para a casa de repouso onde o pai vive, algo ruim acontece e a ficção vai assumir um caráter imprevisivelmente realista.
"Ur" conta uma história com a qual qualquer leitor moderno vai se identificar. Um professor de literatura algo tecnofóbico, num momento de indignação extrema depois de uma discussão com a namorada que o acusa de ser quadrado, resolve comprar um kindle, o leitor de ebooks da Amazon. Contudo, o aparelho que é entregue em sua casa algumas horas depois não é exatamente o que nós conhecemos como um kindle. É igual na forma e na operacionalidade, mas além de uma cor rosa absurda, tem um ícone a mais no menu que dá ao seu usuário acesso a livros que nunca foram escritos - pelo menso não na nossa realidade.
"Blockade Billy" tem aquele delicioso formato de alguém que conta um causo. Trata-se de uma história de esporte, sobre beisebol, um jogo com os qual os brasileiros, com raras exceções, não têm nenhuma empatia. Contudo, o que acontece dentro das "quatro linhas" - ou do diamante, com diriam os fãs de beisebol - não é diferente do que acontece em qualquer outro esporte coletivo: vitórias, derrotas, camaradagem, antagonismos, violência acidental ou não, juizes parciais, angústias e alegrias, é isso que faz com que quem gosta de algum esporte, mesmo não sendo o beisebol, curta a história. Trata-se do surgimento de um novo craque que vai levar o time a um patamar inédito de conquistas. Mas, sabendo quem é o autor da história, dá para imaginar que não há apenas glória e ouro no fim do arco-íris.
Em "Mr. Delícia" o elemento fantástico está presente, mas é tão impreciso que poderia ser classificada como uma história realista. Estamos mais uma vez entre gente idosa numa casa de repouso. Entre eles, dois amigos compartilham a montagem de um quebra-cabeças. Um deles conta ao outro sobre Mr. Delícia, alguém que ele conheceu quando era muito jovem e aparentemente está de volta a sua vida.
"Trovão de verão" é o texto que fecha a coletânea, um conto pós-holocausto de extrema delicadeza. Não há zumbis, nem canibais, nem correrias, nem explosões. A frase "o mundo não acaba numa explosão, mas num suspiro", poderia ser usada aqui mas, de fato, o mundo acaba mesmo é com um trovão em pleno verão.
Além dessas excelentes histórias, a coletânea tem muito mais a oferecer, um carro antropófago, uma duna que revela quem vai morrer, o que há depois da morte, um exorcismo bastante assustador, uma desconfortável história sobre obituários, uma corrida armamentista, um demônio em forma de menino, e pelo menos dois poemas, que é uma raridade na obra do mestre do horror.
Cada conto vem precedido de uma contextualização feita pelo autor, que revela detalhes de sua concepção e desenvolvimento, muito interessantes e efetivamente úteis para a leitura.
O bazar dos sonhos ruins é um grande livro que prova que Stephen King continua sendo um ótimo contista. Com e sem fantasia.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Terra da noite

A editora Clock Tower abre nesta sexta feita, 29 de setembro, às 20 horas, em transmissão ao vivo pelo Youtube, as vendas antecipadas para a coletânea A terra da noite, do clássico autor americano William Hope Hodgson (1877-1918), mais conhecido por sua famosa e assustadora novela A casa sobre o abismo.
As vendas serão realizadas através do site da editora, mas o endereço da Live será divulgado exatamente às 20 horas na sua fanpage, aqui. Para participar, é necessário ter um e-mail do Gmail e estar logado.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Filamentos iridescentes

Tibor Moricz, um dos mais importantes autores da terceira onda da ficção científica brasileira, está republicando em ebook os seus trabalhos esgotados. Depois de relançar o romance Síndrome de cérbero (2007, JR) e o fix-up Fome (2008, Tarja), Moricz lança agora a coletânea pela Filamentos iridescentes, com onze textos primeira vez reunidos num único volume. "Os melhores, creio, que escrevi nos últimos anos", diz o autor.
O texto de divulgação diz: "uma seleção de contos que o levará do espaço sideral a futuros distópicos, do terror ao humor, do degenerado ao instigante, ao inquietante, ao revoltante".
O pequeno conto que dá nome ao volume foi escrito há cerca de dez anos para um concurso na comunidade autores de fc da extinta rede social Orkut, e acabou escolhido como o melhor do certame pelos seus pares, o que é uma recomendação e tanto.
Os demais textos selecionados pelo autor são "Ma chérie", "Do humans dream of other realities?", "As mandrágoras", "Eu te amo, papai", "Eu sou foda, cara!", "Cibermetarealidade", "Recomeços", "Boneca Denden, feliz que a tem", "Grande G" e "Variável de imponderabilidade".
O livro está disponível aqui apenas no formato ebook para Kindle mas, com o uso de aplicativos adequados, é possível ler o arquivo em outros dispositivos.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Almanaque da Arte Fantástica Brasileira 2016

Está disponível aqui, para leitura e download gratuitos, a lista de lançamentos e relançamentos literários de fantasia, fc e horror no Brasil em 2016, que é um suplemento do blogue Almanaque da Arte Fantástica Brasileira.
Há alguns meses, publiquei aqui um estudo elaborado como tarefa acadêmica no curso Bacharelado de Ciências e Humanidades da Universidade Federal do ABC, com algumas conclusões estatísticas sobre essa lista. Contudo, como prossigo com a pesquisa dos títulos até mais ou menos o meio do ano, foram acrescentados títulos à relação que serviu de base ao estudo e alguns números foram ligeiramente ampliados, mas não em quantidade que desqualifique as conclusões obtidas nele. Também publiquei aqui, no início deste ano, um artigo comentando os títulos que considero mais relevantes dessa produção. Ambos merecem a leitura de quem tiver interesse pelo assunto, então agora vou apenas comparar os números finais de 2016 com os de 2015, cuja relação também está disponível aqui.
Foi interessante observar que, apesar da crise moral, política e financeira que assola o país, o campo da literatura fantástica brasileira cresceu. Isso não é incomum. Em tempos de crise, a busca pelo gênero fantástico – dito escapista – tende a aumentar. E, desta vez, o fenômeno não ficou restrito às mídias audiovisuais e chegou também aos livros.
No total, foram publicados em 2016, 321 títulos de autores brasileiros, contra 282 em 2015, um crescimento até bastante razoável. A fantasia segue sendo o gênero mais praticado, com a fc em segundo e o horror em terceiro, e os três gêneros apresentaram crescimento em relação a 2015. Na categoria romance, por exemplo, a fantasia subiu de 105 para 142 títulos, a fc foi de 49 para 53, e o horror, de 37 para 43.
No que se refere a ficção traduzida, os números caíram: foram publicados 339 livros em 2016 contra 414 em 2015. Ainda que a fantasia também predomine aqui, sofreu uma redução de 129 para 93 títulos publicados na categoria romance. Também a fc caiu de 140 para 127, e o horror, de 50 para 32, nessa categoria.
Isso leva a crer que a crise está ajudando os autores locais a obterem espaço, embora muito desse crescimento seja enganoso em termos de tiragem absoluta: os livros de autores nacionais continuam a ser muito menos distribuídos que dos estrangeiros e são poucos os que ganham tiragem superior a uma centena de unidades. Por isso, a plataforma virtual tem sido cada vez mais utilizada pelos autores e até algumas editoras.
As ferramentas tecnológicas vieram para ficar, assim como a globalização. Se isso é bom, ainda não é possível saber. É cada vez mais difícil fazer este levantamento devido a miríade de nanoeditoras atuando no mercado. A quantidade de títulos aumenta, mas decerto que o público não inflaciona na mesma medida. E com mais autores disputando o mesmo mercado restrito, favorece-se o seletivismo, que eleva a qualidade a médio prazo. O que não deixa de ser interessante. 

sábado, 10 de junho de 2017

A última árvore

Luis Brás é, sem dúvida, a maior revelação da fc brasileira neste século. Desde o primeiro livro de contos, Paraíso líquido, que seus textos têm impressionado os leitores especializados no gênero, pelas ideias inovadoras e estilo sofisticado. Não é para menos: Luiz Bras é heterônimo de Nelson de Oliveira, escritor premiado duas vezes com o Casa de las Americas, que já tinha um excelente currículo no mainstream.
Contudo, os primeiros livros do autor já estão fora de catálogo e é difícil encontrar exemplares nos sebos. Por isso, é muito oportuna a publicação de A última árvore, nova coletânea de Luiz Brás que chega pelo site Livros-Fantasma, com edição financiada com verba do Proac, da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. O livro faz parte de uma coleção de 24 volumes, mas é o único que navega nas águas do fantástico.
A última árvore não trás contos inéditos: todos já foram vistos em outras publicações, mas que estão na categoria dos livros esgotados. São oito textos: seis retirados do já citado Paraíso líquido, um do projeto Portal – coleção de antologias organizada por Brás na primeira década do século – e outro, mais recente, visto primeiro no periódico eletrônico Trasgo. E o melhor de tudo é que o livro pode ser baixado gratuitamente em formato pdf, renovando e facilitando o acesso público a alguns dos melhores contos da fc nacional recente.
Para baixar o arquivo, basta acessar o saite Livros-Fantasma, aqui. Os outros 23 livros da coleção também estão disponíveis.