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domingo, 1 de setembro de 2019

Os vencedores do argos 2019

No dia 13 de julho, durante a Flip em Paraty, o Clube de Leitores de Ficção Científica-CLFC realizou a cerimônia de entrega da edição 2019 do Prêmio Argos, que apontou, na opinião de seus membros, os melhores trabalhos nacionais publicados no Brasil em 2018 (para todos os finalistas, leia aqui).
Na categoria Romance, o vencedor foi A mão que pune: 1890, de Octavio Aragão, publicado pela Editora Caligari. Na categoria Conto, venceu "Sombras no coração", de Marcelo Galvão, publicado na coletânea Lovecraftiano vol. 1, edição de autor. E na categoria antologia, a escolhida foi Fractais tropicais, organizada por Nelson de Oliveira para a Editora SESI-SP.
Parabéns ao vencedores!

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Segunda escotilha

Os assinantes acabam de receber a segunda caixa preta da Escotilha, clube de leitura de ficção fantástica da editora Novo Século.
Esta entrega trouxe o livro Semente maldita, de Anthony Burgess, autor do clássico A laranja mecânica, cuja raríssima edição da Artenova de 1975 estava esgotada há décadas. A edição tem acabamento de luxo em capa dura e nova tradução assinada por Fábio Fernandes. Acompanham três cartões postais, um marcador, um botton e um fascículo informativo com ensaios de Thaís Cavalcante e Fábio Fernandes sobre o livro, o autor, as ilustrações de Paua Cruz e o trabalho de tradução.
Para mais informações sobre a Escotilha, visite o saite, aqui.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Primeira Escotilha

Chegou há alguns dias a primeira caixa preta da Escotilha, clube de leitura de ficção fantástica da editora Novo Século.
Esta entrega trouxe os livros Histórias de horror e mistério, de Arthur Conan Doyle, em edição de luxo em capa dura, e O castelo de Otranto, de Horace Walpole, em uma simpática edição de bolso. Acompanham dois marcadores, um opúsculo com o fragmento de um diário de viagem aterrador e um fascículo informativo sobre os livros enviados, seus autores e o gênero do horror, com textos de Oscar Nestarez e Duda Menezes.
Para mais informações sobre a Escotilha, visite o saite, aqui.

domingo, 7 de abril de 2019

Jogos de guerra

O escritor carioca J. M. Beraldo, autor dos romances O véu da verdade (2005), Taikodom: Despertar (2008) e Império de diamante (2015), tem um novo romance na praça. Trata-se de Jogos de guerra, ficção científica space opera que se passa no mesmo universo do já citado Véu da verdade.
Diz o texto de divulgação: "Guerrilheiros armados com tecnologia alienígena ultra avançada usam uma revolta popular para atacar a cidade corporativa de Kinshasa, acendendo um barril de pólvora que pode imergir a África em um conflito sem precedentes. Sabendo dos riscos para seus aliados, o governo do Brasil e a Aliança do Sul decidem enviar uma força expedicionária multinacional para conter o problema. É formado um esquadrão de pilotos latinos e africanos sob o comando do Major Ferreira, herói da Batalha da Amazônia, sobrevivente, pai. Ferreira precisará lidar com os conflitos entre seus novos pilotos e seu próprio trauma de guerra enquanto tenta desvendar quem está armando aos guerrilheiros antes que a União Europeia resolva intervir com força extrema".
O livro está disponível em formato ebook aqui, mas pode ser encomendado em formato impresso diretamente com o autor, aqui.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Balada dos rockeiros mortos e anjos caídos

No próximo sábado, dia 23/02, a escritora Márcia Kupstas lança seu novo livro Balada dos rockeiros mortos e anjos caídos, publicado pela editora portuguesa Chiado. O livro está disponível desde novembro de 2018 no saite da editora aqui, mas só agora chega oficialmente ao Brasil.
Kupstas foi bastante ativa no ambiente da fc&f nacional nos anos 1990, quando organizou a série de antologias temáticas da coleção Sete Faces, publicou o romance de ficção científica O demônio do computador – ambos pela da Editora Moderna – e participou de algumas antologias organizadas no fandom.
Diz o texto de divulgação: “O Anjo pode ser considerado uma metáfora do destino, a nossa posição entre o determinismo ou o livre-arbítrio; ouvimos 'a voz do Anjo' e a aceitamos ou nos rebelamos e saímos atrás de outras coisas. O que uma adolescente, Lisboa, mundos paralelos, família disfuncional, venda de drogas, Arte e um anjo têm em comum?"
O lançamento acontece a partir das 16h30 na Livraria Martins Fontes (Av. Paulista, 509, São Paulo) e contará com uma exposição de fotos e bate-papo com a autora.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Mestre das marés

Neste sábado, dia 2 de fevereiro, a partir das 16 horas, o escritor Roberto de Sousa Causo e a Devir Livraria estarão recebendo leitores e amigos na Omniverse Livraria e Hobby Store para o lançamento oficial do livro O mestre das marés, romance de ficção científica no mesmo universo de Glória sombria, livro anterior do mesmo autor. À venda desde outubro de 2018,  este novo romance leva o protagonista Jonas Peregrino em uma missão de guerra num planeta distante contra uma raça alienígena poderosa que detém tecnologias desconhecidas pelo homem e podem desequilibrar o conflito ao seu favor.
Além de Causo, também estará presente ao evento o ilustrador Vagner Vargas, que assina a capa do volume e autografará o poster exclusivo com sua arte que será ofertado a todos os compradores do livro.
A Omniverse fica na rua Teodureto Souto, 624/630, Cambuci, em São Paulo.
Mais informações sobre o trabalho do autor podem ser obtidas no saite Galaxis. O livro também pode ser adquirido pela internet, aqui.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Heróis de Novigrath

Heróis de Novigrath, Roberta Spindler. 296 páginas. São Paulo: Companhia das Letras, selo Suma, 2018.

Jogos que se confundem com a realidade formam um grupo tão grande na ficção fantástica recente que bem poderiam constituir um novo subgênero. Há histórias de jogadores que entram fisicamente no jogo, jogos que invadem a realidade, jogos reais ao estilo reality show quase sempre mortais, jogos que interagem com a realidade de formas mais ou menos sutis, e até jogos que parecem ser só jogos, mas na verdade são interfaces de realidade, mas só saberemos isso no momento propício.
Na ficção estrangeira, algumas dessas histórias tornaram-se grandes sucessos, como O jogo do exterminador de Orson Scott Card, Jogos vorazes de Suzanne Collins, Simulacron-3 de Daniel F. Galouye, Jumanji de Chris Van Allsburg, Jogador nº1 de Ernest Cline, e também no cinema, com Tron: Uma odisseia eletrônica, Zathura: Uma aventura espacial, Rollerball: Os gladiadores do futuroCorrida da morte: Ano 2000 e O último guerreiro das estrelas, entre outros. No Brasil o tema também já rendeu, como as séries 3% (Netflix)  e Supermax (Globo), e o excelente romance O jogo no tabuleiro, de Simone Saueressig, comentado aqui.
Então, da mesma forma que em outros subgêneros muito explorados, como a alta fantasia, a ucronia e a space opera, por exemplo, a  originalidade não é um aspecto tão importante também nessa área. Há muito que os fundamentos e protocolos desses modelos recorrentes na fcf já estão em domínio público, e ninguém vai reclamar se a ideia é mais ou menos parecida com essa ou aquela. Portanto, no meu modo de ver, não há nenhum problema quanto a isso em Heróis de Novigrath, segundo romance da escritora paraense Roberta Spindler, que estreou em 2014 com o romance de ficção científica A torre acima do véu (Editora Giz).
No livro, Heróis de Novigrath é um mundialmente popular jogo MMORPG – Massively Multiplayer Online Role-Playing Game –, encarado como esporte profissional com campeonatos disputadíssimos (tal como acontece na realidade com as franquias League of Legends e World of Warcraft).
Produzido pela megacorporação Noise Games, Heróis de Novigrath apresenta um cenário de guerra medieval na qual digladiam personagens mágicos de duas castas opostas: os Defensores de Lumnia e os Filhos de Asgorth. Como fica logo evidente, os primeiros representam o bem, e os outros, o mal. Devido a extrema devoção de seus usuários, o universo do jogo adquiriu existência numa realidade paralela, mas os Filhos de Asgorth não estão satisfeitos com essa condição e cobiçam a materialidade do mundo dos homens. Para atingir seu intento, absorvem a energia dos jogadores online e, com esse aporte de poder, predominam em seu universo sobre os Defensores de Lumnia. Estes, por sua vez, para frustrar os planos malignos de seus adversários, enviam à Terra um de seus campeões, o guerreiro Yeng Xiao, com a missão de selecionar uma equipe de cinco jogadores humanos com talentos especiais que possam impedir os Filhos de Asgorth de vencer o campeonato mundial do jogo pois, caso uma das equipes de Asgorth vença, a energia acumulada de bilhões de torcedores dessa casta do mal abrirá uma passagem através da qual as hordas invadirão a Terra, trazendo ao nosso mundo todos os horrores do jogo.
A história é contada a partir da visão de Pedro (codinome Epic), ex-jogador de Heróis de Novigrath, caído em desgraça depois de um escândalo num antigo campeonato sul-americano. Apesar de decadente, Pedro é escolhido por Xiao para ser o técnico da equipe de Lumnia, a Vira-Latas. Orientado pelo guerreiro virtual, Pedro convoca seus jogadores: o jovem fenômeno Cristiano (codinome Fúria, décimo no ranking brasileiro), a vestibulanda Samara (Titânia, igualmente bem ranqueada), a universitária Aline (NomNom) e os irmãos gêmeos Pietro e Adriano (Roxi e LordMetal, respectivamente).
O romance se divide em três partes principais. Na primeira, acompanhamos a montagem da equipe: os jovens se estranham e têm conflitos pessoais e coletivos que levam o técnico Pedro aos limites de sua curta paciência. A segunda parte mostra a campanha da Vira-Latas no Campeonato Brasileiro, quando os jogadores são testados em combate e têm de se entender ou morrer. A cada nível superado, os protagonistas amalgamam mais profundamente seus avatares no jogo, ao ponto de não só experimentarem uma interface totalmente imersiva durante as partidas, mas também manifestarem seus poderes fora do jogo, no mundo real, para se defenderem de entidades de Asgorth que os atacam. Na parte final, acompanhamos a Vira-Latas no campeonato mundial, na Coreia do Sul, quando terá de enfrentar sua nêmesis, a poderosa equipe dos Espartanos, dirigida por Yuri, o maior jogador de Novigrath que existe.
A autora é competente em retratar a evolução técnica e psicológica dos personagens que, de uma equipe desorganizada e insegura, torna-se uma máquina de combate bem azeitada. Há bons dramas humanos para temperar a narrativa e alguma ousadia, como a presença de um personagem homossexual entre os protagonistas, o que tem sido recorrente nos livros de fcf nacionais publicados pela Suma. Também foi uma boa sacada o uso de uma pletora de termos técnicos que deu autenticidade ao ambiente ficcional. Desconheço se o jargão é efetivamente usado pelos gamers na vida real; se não for, o trabalho de construí-lo é algo realmente admirável. A edição da Companhia das Letras/Suma é bem cuidada e praticamente não tem erros.
Não se deve esperar surpresas e viradas dramáticas, pois a história é simples, claramente maniqueista, linear e fechadinha, muito bem estabelecida como literatura de entretenimento infanto-juvenil, que se desenrola diante do leitor como um filme da sessão da tarde. Longe de ser um problema, este é justamente o maior mérito de Heróis de Novigrath, pois a contínua formação de leitores para o gênero é fundamental. Roberta Spindler vem assim se juntar a outros valentes autores de literatura fantástica infanto-juvenil, como Rosana Rios, Miguel Carqueija,  Helena Gomes, a já citada Simone Saueressig, entre outros. Esta literatura precisa ter lugar de destaque nas estantes das livrarias porque, sem os jovens leitores hoje, não haverá leitores adultos amanhã.
Mas nada impede que leitores maduros também se divirtam com Heróis de Novigrath. Eu gostei e recomendo.

Deus, o diabo e os super-heróis no país da corrupção

Meu velho amigo, o escritor e roteirista Sid Castro, chamou minha atenção para o interessantíssimo romance Deus, o diabo e os super-heróis no país da corrupção, de Fernando Fontana, escritor do interior de São Paulo, mais exatamente na região de Catanduva. Lançado em agosto de 2018, é o primeiro livro do autor, um drama policial e político num panorama de ficção científica ao estilo noir. Conta a história de um detetive de um Brasil alternativo no qual existem pessoas com superpoderes, mas não necessariamente super-heróis.
Diz a sinopse de divulgação: "Após um evento traumático, o detetive Lucca Carrara deixa o Departamento de Crimes Supranormais (DCS), e se transforma em um homem amargurado, com um passado questionável, vivendo em um país onde os assuntos do momento são o futebol, a corrupção e os super-heróis. Seus maiores amigos são o cigarro, a cerveja e o falecido escritor Charles Bukowski, com quem ocasionalmente conversa em seus delírios. Com a conta sempre no vermelho, e sem alternativa, ele aceita investigar um possível caso de adultério, envolvendo o Patriota, o maior e mais famoso super-herói do país, árduo defensor da moral e dos bons costumes, amado por muitos e protegido por um governo atolado em um mar de lama. Enquanto isso, no céu do país, as incrivelmente poderosas super-heroínas Justiça Escarlate e Miss Liberdade, mortais inimigas, lutam uma contra a outra em uma batalha que não parece ter fim, devastando quarteirões inteiros, e ignorando completamente os crimes que são cometidos ao seu redor. Um agente do Departamento de Crimes Supranormais procura por um vilão, que pode ser o principal responsável por uma terrível epidemia de estupidez que se alastra pela nação. Uma mulher invisível é ignorada. Um profeta lidera uma Cidade sem Nome. O mago mais poderoso do mundo transa com ele mesmo. É um mundo insano onde as leis da física foram abolidas. Em sua investigação, Carrara se envolverá em uma trama cada vez mais complexa e perigosa, colidindo com os interesses de homens poderosos, vilões que não vestem roupas coloridas e espalhafatosas, uma legião do mal com terno e gravata importados, capazes de qualquer coisa para manter a posição que conquistaram. Para enfrentá-los, contará com a ajuda de uma prostituta com super poderes, um indigente voador, um ex-super-herói com corpo blindado e do homem mais sortudo do mundo. Ainda assim, as chances estarão contra ele."
Os próximos projetos de Fontana são uma novela gráfica no mesmo universo do romance (com roteiro de Sid Castro e desenhos de Ivan Lima) e um novo romance que terá o instigante título Procura-se Elvis vivo ou morto, que conta como Elvis foi encontrado numa pequena cidade do interior paulista, cuja prefeita é a Morte.
Deus, o diabo e os super-heróis no país da corrupção tem 266 páginas e é uma publicação da editora Viseu.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

A mão que pune

Depois de um prolongado hiato (seu último livro, Reis de todos os mundos possíveis, foi publicado em 2013 pela Draco), o professor e escritor carioca Octavio Aragão, que muitos conhecem como o pai do universo compartilhado Intempol, retornou em 2018 com o romance A mão que pune: 1890, pela Caligari, selo da Editora CJT, do Rio de Janeiro. Trata-se de uma ficção científica de contorno steampunk, que mistura ficção alternativa e história alternativa em uma aventura pulpesca movimentada no mesmo ambiente de seu primeiro romance, A mão que cria (Mercuryo, 2006).
Diz o texto da contracapa: "A missão de Angelo Agostini e sua gangue de párias imaginários serve de eixo a uma jornada insólita. Dos céus do Brasil às catacumbas de Paris. Do presidente Júlio Verne ao Imperador D. Pedro II. De Mary Shelley a Machado de Assis. Entre a história e a fantasia, há muitos enigmas em A mão que pune". A introdução é assinada por Christopher Kastensmidt.
O lançamento oficial aconteceu no dia 30 de novembro último, no Rio, e o livro impresso pode ser encomendado aqui.

Literatura fantástica tem nova editora

A Editora Sromero inaugurou seu catálogo em 2018 com dois livros dedicados à ficção fantástica. Homo tempus, romance do engenheiro e mestre em Política Econômica F. E. Jacob, é uma ucronia, ou seja, uma história de viagem no tempo. Diz o texto de divulgação: "O romance levanta diversos questionamentos enquanto acompanha-se o bibliotecário Wallace Vidal em uma fascinante viagem acidental para o futuro. Nela, ele encontra ninguém menos que os Neandertais: nossos extintos irmãos pré-históricos, uma outra espécie de ser humano de cérebro maior e mais fortes que nós, vivendo simultaneamente com nossos descendentes homo sapiens".
O romance foi lançado oficialmente em Brasília e São Paulo no início de dezembro, mas estão programados eventos em Porto Alegre (10/1, das 18 às 21h, Centro Cultural Érico Veríssimo, R. dos Andradas, 1223) e durante o Seminário Literário de Rio Pardo/RS (11/1, das 9 às 12h, Centro de Ensino Amiga, R. São João, 462), quando também será apresentada As borboletas no muro do cemitério, fantasia infanto juvenil bilíngue de Rogério Lima Goulart, sobre um estudante que faz amizade com as borboletas. Os autores participarão de mesas do evento e conversarão com os leitores presentes.

sábado, 29 de dezembro de 2018

Nova odisseia humana

Na primeira fase da internet no país, entre 1990 e 2000 – ainda no território da Segunda Onda da fc brasileira –, surgiram vários projetos de universos compartilhados no ambiente dos fãs. Os mais conhecidos foram a Intempol, de Octávio Aragão, e a coleção SLEV, de Rogério Amaral de Vasconcellos. Com a chegada dos autores da Terceira Onda, tais iniciativas foram abandonadas em favor de trabalhos autorais, pois a facilidade na edição, tanto impressa como digital, não motivava a agremiação de autores como quando as dificuldades para publicar eram maiores.
Então, é bem interessante o recente lançamento de Nova odisseia humana, universo compartilhado apresentado na forma de uma série de romances independentes, cada um escrito por um autor diferente mas seguindo um mesmo enredo geral.
Diz o texto de apresentação: "Há mais de trezentos anos, a humanidade entrou para o rol das raças que conquistaram as estrelas. Neste período, ela ocupou nove sistemas planetários e entrou em contato com inúmeras civilizações. A colonização de mundos parecidos com a Terra e a oferta de tecnologias alternativas no comércio da região galáctica que se encontram colocaram a República em destaque. Vender seus produtos aos gigantescos, antigos e decadentes impérios, sempre envolvidos em suas intermináveis guerras, todavia tornou um problema para uma pequena, mas poderosa nação. Esta gigantesca organização, como preferem alguns, até então dominava os negócios naquela região galáctica. Conhecida como Organização dos Cientistas Livres, uma pequena porém poderosa nação local mantinha cuidadosamente a exclusividade das tecnologias de ponta deste setor da galáxia e as vendiam a quem pagassem o seu preço, controlando, contudo, as vendas das armas mais poderosas e equilibrando deste modo as guerras, fazendo-as durarem indefinidamente. Hoje, com a entrada da Terra neste mercado a situação mudou e a tensão entre estas duas pequenas nações é inevitável".
A coleção promete dez títulos em sua primeira fase chamada A Guerra dos Cientistas Livres. O primeiro volume, já publicado, é Fuga de Olek, de Claudiney Martins. Os volumes seguintes serão Selara IV: O mundo das armadilhas, de Abelardo Domene Pedroga, e O espião relutante, de Miguel Carqueija. Outros nomes envolvidos no projeto são Andréa Martins, Carlos Relva, Roberval Barcellos e Ubiratan Peleteiro.
Para adquirir o primeiro volume, bem como para mais informações sobre o projeto, visite o saite oficial da Editora Universo Compartilhado, aqui.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Interferências

Interferências (Crosstalk), Connie Willis, tradução de Viviane Diniz Lopes. 464 páginas. Editora Companhia das Letras, selo Suma, São Paulo, 2018.

Conheci o texto de Connie Willis no periódico Isaac Asimov Magazine (carinhosamente chamada de IAM), publicação tradicional nos EUA que teve 25 edições no Brasil nos anos 1990, pela editora Record. Ao lado de monstros da ficção científica recente, como Charles Sheffield, Kim Stanley Robinson, James Tiptree Jr., Geoffrey Landis, Bruce Sterling, Judit Moffet, George R. R. Martin e Lucius Sheppard, entre outros, Connie Willis era autora frequente e seus textos sempre interessantes e contundentes, como a novela “O último dos Winnenbagos” – publicado na edição número 11 de abril de 1991 e ganhador dos prêmios Hugo e Nebula –, sobre um casal idoso em viagem nas estranhas estradas do uma América futurista. Willis é uma das autoras mais premiadas de sua geração, com nada menos que sete Nebulas e onze Hugos no currículo (e contando).
Connie Willis é, então, uma paixão do passado. Se alguém diz que há uma nova história dela no mercado, meu coração já começa a bater mais forte. Ler Willis hoje é como voltar no tempo e reviver a emoção de ler uma IAM inédita. Velhos tempos.
Interferências, romance de 2016 traduzido no Brasil em 2018 pela Companhia das Letras no selo Suma, é o segundo romance de Connie Willis no Brasil. O anterior foi O livro do juízo final, publicado pela mesma editora em 2017 e resenhado aqui. Fiquei um pouco receoso de que Connie não tivesse acertado a mão em Interferências, pois ouvi opiniões que davam conta de que esta não seria uma história de ficção científica, a especialidade da autora. Mesmo assim, confiava que o talento literário de Willis não me decepcionaria. Eu estava certo e as opiniões, erradas, é claro.
A história acompanha a confusão que se torna a vida de Briddey Flanningan, jovem executiva de uma indústria de celulares que aceita o pedido de Trent, seu noivo e chefe na empresa, para realizarem com um importante cirurgião da moda o implante de um tipo de chip cerebral que permitirá ao casal compartilhar as emoções um do outro e, dessa forma, ter uma relação mais intensa e transparente. Muitos casais felizes atestam as vantagens do procedimento, que é um tipo de prova de amor nesse futuro próximo, sendo uma operação simples e corriqueira, sem riscos à saúde. Mas essa não é a opinião de um dos colegas de Briddey, o engenheiro de desenvolvimento C.B., mais conhecido nos corredores da empresa como “Corcunda de Notre Dame” devido ao seu aspecto desengonçado e anti-social, sempre isolado em sua oficina no subsolo. C.B. usa todos os seus piores argumentos para demover Briddey de sua decisão pelo implante, apela até para um discurso de terror explícito dando exemplos de cirurgias aparentemente simples que levaram os pacientes a óbito, mas a jovem está convencida do amor de Trent e briga com C.B., pois acredita ele está com ciúmes e tentando sabotar seu sonho de conto de fadas.
Depois de uma verdadeira operação de guerra para evitar as fofocas no trabalho e as invasivas mulheres de sua família irlandesa, Briddey e Trent internam-se secretamente no hospital para receber o implante. Tudo vai bem até que a anestesia passa e Briddey descobre que alguma coisa deu muito errado com a cirurgia: em vez de sentir as ondas de amor emanadas por Trent, começa a ouvir em sua mente a voz de C.B., com quem agora têm um vínculo telepático. E isso é muito mais que um inconveniente, pois o que Trent vai pensar quando souber que sua amada tem com o “Corcunda de Notre Dame” uma ligação mais íntima que com ele próprio? Mas isso é só o início dos problemas de Briddey, pois o seu dom telepático pode colocar em perigo não só a si, mas a toda sua família, que é disfuncional mas a qual ela ama sinceramente.
A história tem, em boa parte, o tom de uma comédia romântica, e em alguns momentos iniciais realmente lembra o enredo do longa-metragem Do que as mulheres gostam (What women want, 2000). Mas é só superficialmente, porque Interferências tem um panorama efetivamente de ficção científica, com muitas teorias voando por todos os lados, com direito a conspirações e cientistas malucos que tornam a narrativa uma verdadeira montanha-russa. O tom humorístico é delicioso e raro tanto no trabalho de Willis – que geralmente é dramático – quanto no gênero da ficção científica de modo geral. Uma peça literária valiosa portanto.
E as epígrafes que abrem cada capítulo são um charme à parte, transcrevendo frases inspiradoras de filmes, seriados de tv e livros como Graça infinita, Artemis Fowl, Alice no País das Maravilhas, O jardim secreto e outros, que fazem o delírio dos fãs de citações.
Por tudo isso, Interferências é um livro que pode ser lido com prazer tanto pelo leitor veterano, fã de ficção científica, como também pelo leitor não especializado no gênero, incluindo aquele que acredita não gostar dele. Porque, no fim das contas, Connie conseguiu com louvor fazer aquilo que muitos perseguem sem sucesso: escreveu uma ficção científica para quem não gosta de ficção científica. E isso é um feito e tanto.

A assombração da Casa da Colina

A assombração da Casa da Colina (The haunting of Hill House), Shirley Jackson, Tradução de Débora Landsberg. 240 páginas. Editora Companhia das Letras, selo Suma, São Paulo, 2018.

Muitas vezes, conhecemos um clássico não pela obra original, mas por suas inúmeras adaptações. Mas é claro que as adaptações, por não serem obrigatoriamente idênticas ao original, tomam liberdades, mudam contornos e até alteram completamente seu conteúdo. Na maior parte das vezes, as adaptações não fazem justiça ao original e as exceções são raras.
Não foi diferente com relação a este romance de Shirley Jackson (1916-1965), escritora norte-americana que viveu de maneira reclusa e morreu jovem, aos 48 anos, tendo escrito uma porção de contos e uns poucos livros, geralmente associados ao gênero do horror, dentre os quais seu quinto romance, A assombração da Casa da Colina (1959), é o mais destacado. Apesar disso, sua obra é muito respeitada, sendo frequentemente creditada como influência por autores como Richard Matheson (1926-2013), Stephen King e Neil Gaiman. Contudo, foi pouco publicada no Brasil; além deste, somente está disponível o romance Sempre vivemos no castelo (We have always lived in the castle, 1962), publicado pela editora Companhia da Letras em 2017. E isso é bastante sintomático. Jackson trabalha temas incômodos e delicados, entre os quais a condição da mulher na sociedade. Finalmente, a Companhia das Letras decidiu traduzir e publicar esses dois títulos em edições luxuosas de capas duras, a altura de seu significado.
Mas o teor feminista é apenas um dos muitos atributos de sua arte. Jackson é senhora de um estilo limpo e elegante, de descrições vívidas, personagens bem construídos e uma sensibilidade emocional que impacta o leitor.
A história é conhecida dos brasileiros nas adaptações cinematográficas Desafio do além (1963, Robert Wise) e A casa amaldiçoada (1999, Jan de Bont). O filme de Wise tem uma proposta mais cerebral, próxima à ficção científica e com um desfecho que tudo explica de forma mais ou menos satisfatória. O de Bont é um festival de efeitos especiais em que a história é o que menos importa. Nenhuma delas prepara o leitor para a experiência emocional que é mergulhar nas páginas da narrativa literária. A mais recente adaptação do romance é uma série exclusiva do servidor de streaming Netflix, que dizem ser bastante fiel ao romance, mas isso é algo que ainda preciso conferir.
Acompanhamos a história pelos olhos da jovem desempregada Eleanor, que se inscreve para um projeto de pesquisa acadêmica de um tal Montague, doutor em filosofia que pretende estudar uma casa incomum próxima a Hillsdale. Ela vê nisso a oportunidade de encontrar um rumo para sua vida, depois da longa doença e morte da mãe da qual cuidava, o que comprometeu as chances de uma carreira mais precoce. Ao ser selecionada, Eleanor empreende uma corajosa viagem dirigindo seu próprio automóvel, chega ao vilarejo em que se encontra a mansão e, numa breve parada para um café, percebe de imediato a animosidade dos habitantes locais com relação ao lugar. Quando avista a construção pela primeira vez, fica angustiada com a aparência externa da casa. E fica ainda mais alarmada com a recepção feroz que recebe dos empregados do lugar, um casal de zeladores muito rudes e intimidadores. Mas, ao adentrar a mansão, fica impressionada com o luxo das dependências, que beira ao extravagante. Apesar de tudo, a casa é aconchegante e confortável, mas de uma arquitetura que confunde os sentidos.
Suas preocupações reduzem-se com a chegada dos outros membros da equipe de pesquisas: Theodora, garota segura e expansiva com a qual Eleanor se identifica de imediato; Luke, jovem herdeiro da mansão que participa do grupo por insistência dos proprietários, e o próprio dr. Montague, que parece muito mais interessado em curtir o luxo da residência do que realmente realizar uma pesquisa séria.
Depois de alguns dias, período em que os jovens passam a se conhecer e dominar a confusa estrutura da casa, que tem peculiaridades como portas que se fecham sozinhas, armários que se auto-organizam e áreas em que a temperatura é radicalmente contrastante com o ambiente ao redor. Mas o mais assustador são os acontecimentos noturnos, que parecem ameaçar a vida dos hóspedes, mas que não deixam quaisquer rastros: a casa sempre se recompõe depois de cada evento, deixando em todos a impressão de que tudo não passou de alucinação.
As coisas complicam quando chegam dois novos hóspedes: a sra. Montague e seu motorista. Agora percebemos por que o dr. Montague não parecia tão interessado na pesquisa: a verdadeira pesquisadora é a sua autoritária esposa, uma mulher de personalidade forte e dominadora, que acredita piamente em espíritos desencarnados e quer fazer contato com eles para poder “libertá-los” de sua sina. O trabalho, enfim, começa. Mas a casa tem outros planos e Eleanor parece fazer parte deles. E quando uma casa escolhe alguém, é muito difícil negociar com ela.
A assombração da Casa da Colina é uma história apavorante, mas está longe de ser uma história de horror. Não há monstros, nem assassinos psicopatas. Não há perigos maiores do que aqueles que enfrentamos em qualquer outro lugar. O grande terror é mesmo a tensão psicológica de estar vinculado a uma situação da qual sabemos que precisamos nos afastar mas que, ao mesmo tempo, não queremos, por razões muitas vezes justificadas, mas que mesmo assim nos fazem mal. O destino da equipe de pesquisadores importa menos que o de Eleanor. A história que se conta aqui é a dela, e só a dela.
O final é surpreendente, sem ser um “final surpresa”, por contraditório que isso possa parecer. Talvez até escorra uma lágrima, mas não choramos por Eleanor. Choramos por nós mesmos, que ficamos na Casa da Colina.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Carruagens de fogo

O escritor carioca Rogério Amaral de Vasconcellos, que na virada do século fez muito rebuliço com a coleção de ebooks SLEV, retoma o selo pela plataforma de autoedição da Amazon com o romance de ficção científica Carruagens de fogo.
A história – que começa em 2073 e avança até o século 23, quando a Terra está superpovoada, as viagens espaciais são rotineiras e a humanidade está pluralizada em diversas espécies – inicia acompanhando as desventuras do cargueiro Aurum Palladium numa viagem ao sistema Ômega do Tigre. O romance tem 256 páginas e está participando do Concurso Literário da Amazon.
Para mais informações, com direito a degustação, viste a página do romance aqui.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Abdução: Relatório da terceira órbita

Antes disponível apenas em edição digital, o romance de ficção científica Abdução: Relatório da terceira órbita, de Pedroon Lane, ganha publicação real pela editora Novo Século, em seu selo Talentos da Literatura Brasileira.
Trata-se de um catatau de mais de 700 páginas, que investe na ficção ufológica, uma das mais fortes tradições da fc brasileira. Este não é o primeiro trabalho do autor, que já dispõe de certa notoriedade na internet, sendo Abdução uma sequência ao romance Adução: O dossiê alienígena.
Diz o texto de divulgação: "No passado, uma dupla de alienígenas chega à Terra com intenções desconhecidas. No futuro, um casal de irmãos dá a largada para uma nova vida em um estranho habitat paralelo ao Sistema Solar, um mundo hiperfuturista descrito como Universo Quântico. A vida da dupla e do casal parece convergir por caminhos distintos, mas sua conexão é tão forte que nem a distância que os separa tão longe no tempo evitará a cadeia de ações e a sequência de acontecimentos que colocarão em risco o destino do planeta e da inteira humanidade".
Abdução também está disponível em ebook, aqui.
O lançamento oficial do livro acontecerá no dia 14 de outubro, a partir das 16 horas, na Livraria Martins Fontes (Av. Paulista, 509, São Paulo).

De ferro e de sal

A escritora gaúcha Simone Saueressig anuncia que já está disponível na plataforma de autoedição da Amazon seu romance inédito De ferro e de sal, fantasia densa destinada ao leitor adulto.
Diz o texto de divulgação: "Em torno da Forja, ergue-se Brutmir, a Cidade dos Ferreiros. O cenário perfeito para que a Reta e Cega se encontrem para seu baile macabro. A Reta e a Cega: os Potentados sinistros da Vingança e da Traição. As que nunca esquecem. As que jamais desistem".
Simone tem muita habilidade no trato dos gêneros fantásticos e também já demonstrou ser ótima autora para adultos, como se pode atestar na leitura do romance histórico aurum Domini: O ouro das missões e da ficção científica B9, e não erro em afirmar que é a melhor escritora do gênero no país.
Confira seu estilo elegante e agudo lendo gratuitamente aqui o conto "Muiraquitã", merecidamente vencedor do concurso A Bandeira do Elefante e da Arara RPG, promovido pela REDERPG, e veja se não tenho razão.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Araruamas

Um dos mais expressivos cases de sucesso da plataforma de crowndfunding Cartarse, Araruama 2: O livro das raízes, romance de fantasia  de Ian Fraser inspirado em culturas nativas brasileiras e mesoamericanas, bateu o bom desempenho do primeiro volume, publicado em 2017 com o apoio de mais de 700 pessoas, e reuniu nada menos que 982 apoiadores e superando a meta de R$25.000,00 em mais de 250%, com uma arrecadação total de R$63.931,00!
Um dos diferenciais do projeto é doar parte da arrecadação para o Instituto UKA - Casa dos Saberes Ancestrais, uma instituição sem fins lucrativos fundada e dirigida por indígenas brasileiros, abrindo uma discussão sobre a apropriação cultural que começa a se tornar importante no espaço da ficção fantástica brasileira.
Enquanto os apoiadores esperam pacientemente a entrega dos livros – eu entre eles –, quem não aproveitou pode adquirir aqui a versão em ebook do primeiro romance da série, no qual cinco jovens treinam para um ritual de passagem, o Turunã. O livro é publicação da Editora Moinhos.

sexta-feira, 27 de julho de 2018

O ditador honesto

O que viria a ser um ditador honesto? Isso existe? Por incrível que pareça, houve época que esse personagem era louvado pelos intelectuais mas, naqueles tempos, recebia o nome de "déspota esclarecido". Não são poucos os pensadores iluministas do século 18 que viam nessa figura contraditória a luz de um futuro redentor para a humanidade, e sabemos para onde isso nos trouxe. Contudo, O ditador honesto também pode ser muito divertido, pois trata-se do romance satírico de ficção política - e arrisco dizer científica - do escritor baiano Matheus Peleteiro, autor do romance Mundo cão (2016) e da coletânea Pro inferno com isso (2017). O ditador honesto é narrado por um secretário escandalizado com as práticas do chefe de estado de numa distopia não muito diferente dos nossa...
A preocupação com o crescimento do fascismo no Brasil é o principal motivador de uma série de livros que têm ganhado a luz nos últimos meses, como os já resenhados Ninguém nasce herói, de Eric Novello, e Noite dentro da noite, de Joca Reiners Terron.
O livro tem 172 páginas e é uma publicação independente. Para obter um exemplar, entre em contato com o autor pelo email matheus_peleteiro@hotmail.com, ou pelo nas redes sociais, aqui.

O velocista

O velocista é o primeiro romance do professor pernambucano Walter Cavalcanti Costa, Doutor em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco (PPGL/UFPE). Trata-se de uma ficção científica de propostas experimentalistas, que narra, em forma de diário, as inquietações do astronauta Jô Tadeu em missão prolongada no espaço sideral.
O que salta aos olhos é a proposta formal, com uma narrativa dividida em 310 fragmentos de uma ampla variedade de experimentações criativas, bem como a presença importante de uma poética rara na ficção científica, que passei por várias propostas estéticas.
O livro tem 214 páginas e a apresentação gráfica também é destaque imediato, com impressão na contracapa, páginas negras que separam os capítulos e a bela capa que remete ao surrealismo, e vem recomendado pelo 5º Prêmio Pernambuco de Literatura e pelos bem recebidos trabalhos anteriores do autor, a coletânea poética Entressafra 89 (2011) e o infanto-juvenil Marlinda: Em diálogo de amor às suas cidades (2017). O velocista é uma publicação da Companhia Editora de Pernambuco - Cepe.
Pedidos ao autor pelo email waltercavalcanticosta@gmail.com.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Noite dentro da noite

Noite dentro da noite, Joca Reiners Terron. 464 páginas. Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2017.

Há relações evidentes entre a ficção fantástica e o Surrealismo como proposta para o discurso artístico. O atrito entre o que é e o que não é, o real e o imaginário, o desperto e o onírico é o que constrói as narrativas, formando a substância do que poderia ser. Se o Surrealismo plástico lançou mão da combinação de imagens incompatíveis, a ficção fantástica cria interferências na realidade usando o sobrenatural, o metafísico e o absurdo, costurando bem seus contornos e disfarçando com retoques do que se convencionou chamar de "suspensão da incredibilidade". Conforme o conjunto, damos-lhe a classificação de fantasia, ficção científica ou horror.
No início do período pulp, ou seja, anos 1930, os três gêneros conviviam misturados e só separaram conforme os interesses comerciais predominaram no meio editorial dos EUA. Mas os autores não vinculados ao modelo anglo-americano continuaram a trabalhar a ficção fantástica sem sectarização, e esse tipo de tratamento, ainda que muito suavizado pelas propostas modernistas, também teve representantes na literatura brasileira. É dessa forma que podemos entender a literatura que Joca Reiners Terron traz à luz em Noite dentro da noite, vultoso romance publicado em 2017 pela editora Companhia das Letras, que foi razoavelmente comentado quando de seu lançamento, mas com pouca ou nenhuma repercussão dentro do fandom brasileiro de fc&f, o que é muito imerecido. Isso porque Terron nos apresenta um trabalho denso, repleto de perturbações e literariamente sofisticado, que se estabelece tanto na tradição do fantástico latino-americano quanto na literatura brasileira recente.
O romance conta a história de um jovem que, devido a um acidente, perde toda a memória. Pouco depois, vê-se levado abruptamente para uma terra estranha – a região do Pantanal mato grossense, na fronteira com o Paraguai –, onde vai passar a adolescência como um pária, perseguido barbaramente pelos colegas na escola e convicto de que sua mãe – a quem se refere como a Rata – e o pai, um gerente de banco severo e distante, não são seus pais verdadeiros. Mas as tragédias não se esgotam aí. Sua vida vai se misturar com a de personagens míticos e históricos, como o tradutor Curt Meyer-Clason – narrador de boa parte do que lemos –, o marinheiro e cientista nazista Kurt Meier – que, apesar do nome, não é a mesma pessoa –, o assassino imortal El Cazador Blanco, um submarino fantasma do Chaco paraguaio, uma entidade vegetal referida pelo impronunciável nome de Pyhareryepypepyhare – ou a flor-vampiro –, Elisabeth Nietzsche e seu marido Bernhard Förster – que realmente fundaram uma vila anti-semita no Paraguai, em 1887 – e uma infinidade de membros da família Reiners, personagens torturados, sempre à sombra da histórica nevasca que destruiu a economia do estado do Paraná em 1975. Até a a escritora Hilda Hilst faz uma pontinha.
A história ainda passa pela Segunda Grande Guerra, pela ditadura militar, pela guerrilha do Araguaia, e chega até o período da abertura política, incluindo um atentado a bomba num comício na Candelária, no Rio de Janeiro, que mata um promissor candidato a presidência da República que, alguns poderão dizer, faz deste um legítimo romance de história alternativa.
Terron também mistura referências autobiográficas com a mais transgressora ficção, sem poupar o leitor nas passagens de violência e horror explícitos, delírios de pesadelo regados a fortes doses de fenobarbital, longos passeios de carro por estradas de terra e uma narrativa não linear que salta como uma máquina do tempo enlouquecida, avançando e recuando sem aviso prévio, com histórias dentro de história num efeito rocambolesco que amplia ainda mais a inadequação melancólica do protagonista.
Não é possível dizer que Noite dentro da noite seja um livro de ficção fantástica. Também não é possível dizer taxativamente que não é. Talvez seja o mais bem acabado exemplo de surrealismo literário já cometido em Terra Brasilis. Isso fica para o leitor decidir.
Desorientados é como saímos desta leitura complexa e angustiante, que remete à Roberto Bolaño e David Foster Wallace. Não sei quanto aos demais leitores mas, por associação, arrisco dizer que é um livro muito bom e que uma leitura é recomendável. Provavelmente, mais de uma.