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terça-feira, 14 de julho de 2026

Resenha: O último continente, Simone Saueressig

O último continente
, Simone Saueressig. 166 páginas. Novo Hamburgo: da autora; 2021. 

Simone Saueressig é uma dessas escritoras que sempre merecem ser lidas. Ativa desde os anos 1980, escrevendo principalmente literatura infanto-juvenil, construiu um catálogo de obras relevantes, muitas adotadas por prefeituras e governos estaduais para compor bibliotecas escolares. Seu livro mais conhecido é A máquina fantabulástica (Scipione, 1997), que já superou a casa das centenas de milhares de exemplares vendidos. Os temas de sua literatura navegam entre a fantasia, o horror, o mistério e a ficção cientifica, com igual desenvoltura e qualidade. 
Nos últimos anos, a autora acelerou o rítmo de lançamentos por editoras, por editais públicos e também por autoedição. Entre esses lançamentos mais recentes, está O último continente, novela de ficção científica que se coloca como sequência a Padrão 20: A ameaça do espaço-tempo (Besouro Box, 2014), em que o casal de jovens protagonistas Maria do Céu e Shiaka se viu às voltas com uma trama que pretendia destruir o acelerador de partículas CERN, em Genebra. 
Em O último continente, Maria do Céu e Shiaka estão de férias em Torres, no litoral do Rio Grande do Sul, mas, ao investigar o comportamento suspeito de Helena, filha de um cientista desaparecido, literalmente embarcam numa aventura perigosíssima em alto mar a bordo de um barco de pesquisas conduzido por Félix, uma inteligência artificial muito eficiente, mas que tem suas limitações. 
Helena acredita que seu pai ainda esteja vivo, preso em algum lugar no meio do oceano, numa ilha artificial formada por resíduos plásticos, e ela não está de todo enganada. A viagem, repleta de perigos, com direito a navio fantasma, tempestades e até o ataque de um exército de ratazanas famintas, efetivamente chega à ilha plástica flutuante, onde PIANE – o barco perdido do pai de Helena – está encalhado. Félix assume o controle da embarcação mas os parâmentros da missão original do PIANE, que também era controlado por uma IA,  contaminam seu sistema e podem impedir o resgate dos sobreviventes perdidos no meio do Atlântico. 
A história apresenta personagens fortes e decididos, mas é preciso aceitar a situação em que os jovens se metem com alguma permissividade para aproveitar a emoção da aventura. Afinal, não é muito provável que três jovens consigam se apropriar com tanta facilidade de um barco com tais tecnologias. Mas Saueressig contorna bem a dificuldade encadeando uma sequência ininterrupta de cenas de ação intensa, que deixa pouco espaço para outras preocupações do leitor. Os momentos mais intensos da narrativa acontecem a bordo do navio fantasma Lyunov Orlova, e quando os jovens desembarcam na ilha flutuante e têm de enfrentar uma IA enlouquecida. O maior mérito da história, contudo, é trazer a discussão da poluição dos oceanos pelo lixo plástico, que é efetiva e muito séria, e nem sempre é tratada de forma consistente pelos autores brasileiros.
O último continente foi editado com recursos da autora e ganhou o Prêmio AGES 2022 na categoria Livro do Ano, além de uma Menção Honrosa no V Prêmio ASBREST de Literatura. A publicação ainda está disponível no blogue da autora, aqui, e vale muito a pena conferir.

terça-feira, 30 de junho de 2026

Lançamento: Mistério na Igreja Antiga, Simone Saueressig & Eduardo Ribas

Mistério na Igreja Antiga
é mais uma criação da escritora gaúcha Simone Saueressig porém, neste caso, em parceria com o ilustrador Eduardo Ribas. Trata-se de um álbum em quadrinhos, que busca homenagear a história da Igreja Antiga de Campo Bom, e faz parte das suas ações do Restauro.
Diz o texto de apresentação: "Transformar as memórias, as curiosidades e a importância desse bem material em uma história em quadrinhos é uma forma muito bacana de garantir que as novas gerações se conectem com o patrimônio da sua própria cidade."
Saueressig assina o roteiro e Ribas, os desenhos, com produção da Simples Assim. Foram produzidas cinco mil unidades, que "serão distribuídas gratuitamente nas escolas da região, unindo leitura, arte e educação patrimonial na sala de aula."
O projeto conta com o financiamento do Pró-Cultura RS, do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, e não será colocado à venda. Mas pode ser apreciado online, aqui

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Lançamento: Os ossos-e-cinzas, Simone Saueressig

Os ossos-e-cinzas é  o novo romance de fantasia infanto-juvenil da escritora gaúcha Simone Saueressig, obra que integra o projeto Indígenas no Vale do Sinos. 
A aventura tem um formato inusitado: possui dois começos – A história de Jandira e A história de Näfy – que se encontram no meio da narrativa. Diz a sinopse: "Näfy é um jovem Kaingang que vive no Vale do Rio dos Sinos e possui um dom incomum: compreender a linguagem dos animais. Quando sua irmã mais nova, Kuadmé, é sequestrada, ele parte em uma jornada ao lado do amigo Katui para resgatá-la. A busca os leva até territórios guaranis e os coloca diante de mistérios, criaturas desconhecidas e desafios que conectam passado e presente em uma trama repleta de imaginação." 
O texto vem acompanhado das ilustrações de Maurício Hilgert, artista visual natural de Novo Hamburgo, e conta com participações dos professores Bruno Ferreira e Joel Pereira, que têm larga experiência na formação educacional de povos indígenas, e ainda com a assistência de leitores sensíveis das nações Kaingang e Guarani.
Os ossos-e-cinzas tem planejamento cultural da Simples Assim e realização da Kunst Empresa de Cultura, do Ministério da Cultura e do Governo Federal, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, e é inteiramente destinado às escolas e bibliotecas. Um número limitado de exemplares podem ser adquiridos diretamente com a autora. Contatos através do saite Porteira da Fantasia

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Os trabalhos de Hércules, Simone Saueressig

"Na Paris de 1889, Arsène Raoul Lupin está focado na sua vida de estudante – mas a aventura nunca está longe. De roubo de livros raros da biblioteca do Liceu, a uma vingança anarquista, ele se depara com um espetacular roubo em cena aberta, documentos perdidos, o cenário de uma de suas mais famosas futuras aventuras, e uma perseguição bizarra em plena Exposição Universal. Um ano da vida de Lupin – já disse o cronista – vale por dez."
Este é o texto de divulgação de Os trabalhos de Hércules, terceiro volume da série de fantasia O jovem Arsène Lupin, da premiada escritora gaúcha Simone Saueressig, inspirada nos trabalhos do escritor francês Maurice Leblanc (1864-1941).
O volume tem 144 páginas e está em pré-venda no saite da Editora Avec, aqui. Os dois primeiros números da série, A dança macabra (2021) e A coroa de ferro (2024) também estão disponíveis.

sábado, 13 de setembro de 2025

Blitz, a fada do caneco de porcelana; Simone Saueressig

Vinculado aos festejos de comemoração dos duzentos anos da imigração alemã em Novo Hamburgo, Blitz, a Fada do Caneco de Porcelana é um livro de fantasia da experiente escritora gaúcha Simone Saueressig, no ambiente dos livros infantojuvenis, em que a autora atuou a maior parte de sua carreira. O livro, que tem ilustrações de Beto Soares, faz alusão à trajetória da imigração alemã na região por meio da história da Casa Schmitt-Presser, primeiro empreendimento comercial de Novo Hamburgo. 
Diz o texto de divulgação: "Depois de atravessar mares e terras, a fada Blitz chega para viver em um lugar cheio de novidades. A história é narrada por esse pequeno habitante, em uma verdadeira viagem no tempo e na história."
A publicação faz parte do projeto Uma História Centenária de Valor (PRONAC: 232067), viabilizado por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei 8.313/91), do Ministério da Cultura, e é uma publicação de uma pareceria entre o ACI, Simples Assim e Ministério da Cultura, e a tiragem foi voltada às escolas públicas da região. 
Por enquanto, o livro não está a venda em parte alguma. Mas, quem sabe...

terça-feira, 11 de março de 2025

aurum Domini: O ouro das missões, Simone Sauerissig

Esta é a segunda edição deste romance de fantasia histórica, publicado originalmente em 2011 pela Editora Artes e Ofícios, que buscou inspiração nos pampas gauchescos para contar a história da jovem Adélia e do peão Chico em busca de um grande tesouro perdido. 
A escritora, Simone Sauressig, geralmente trabalha com temas evidentemente fantásticos mas, neste romance, optou por navegar em ambientes e situações realistas. Contudo, não conseguiu escapar, se é que tentou, do clima geral de uma fantasia épica. Lembro que, quando da publicação original, ela me confessou ter se inspirado nas aventuras de Indiana Jones para elaborar a trama geral, e foi muito feliz no resultado. Tanto que o romance ganhou, naquele ano, o prêmio Livro do Ano – Narrativa Longa, da Associação Gaúcha de Escritores - AGES. Mas eu prefiro dizer que aurum Domini (assim mesmo, com "a" minúsculo) é uma releitura de O tempo e o vento em versão saueressigesca. 
Diz o texto de divulgação: "1846. Depois da Guerra dos Farrapos, um jovem peão de estância tenta recomeçar a vida, uma órfã carrega as marcas de uma tragédia e um criminoso guarda consigo o mapa de um tesouro perdido: a Casa de M’bororé, espécie de cofre que abriga as riquezas das Missões Jesuíticas – as que foram construídas por mãos indígenas, destruídas pelas armas da Europa e perdidas na Pampa esquecida por Deus."
O volume está em pré-venda no saite da Editora Cinco Gatas, aqui, com direito a brindes extras assim descritos pela autora: "um comentário meu a respeito das fontes e das razões que me levaram a escrever a história, e o conto inédito 'A canção do abismo branco', que fala sobre um episódio épico dentro da retirada das Missões do Paraná, em direção ao sul, em 1632, quando foi necessário à frota de mais de 700 embarcações vencer o Salto do Guairá." A editora também liberou, na página do livro, os capítulos iniciais da saga. Também está disponível aqui um episódio do podcast Porteira da Fantasia comentando a edição de 2011.
Eu li e afirmo: a diversão é garantida.

quarta-feira, 12 de junho de 2024

Porteira da Solidariedade

A escritora Simone Saueressig, que vive em Novo Hamburgo, dentro da região mais afetada pelas enchentes que assolaram o estado do Rio Grande do Sul em maio, acaba de lançar uma campanha para ajudar a recuperar o acervo das bibliotecas públicas e escolares atingidas pelas cheias. 
Trata-se da campanha Porteira da Solidariedade, na qual o apoiador financia kits de livros da autora que serão encaminhados para bibliotecas da região. São mais de sessenta bibliotecas, nas cidades de Arroio do Meio, Bom Retiro do Sul, Campo Bom, Canoas, Colinas, Cruzeiro do Sul, Encantado, Estrela, Forquetinha, Lajeado, Marques de Souza, Muçum, Novo Hamburgo, Relvado, Roca Sales, Sebastião do Caí e Taquari. 
Há várias opções de kits montados previamente com os títulos O último continente, Contos do Sul, Um vulto nas trevas, Felino Psicodélico, A história do Rubi Ragank e O Rubi Ragank. Cada kit vai acompanhado de uma carta de agradecimento com citação nominal ao apoiador.
Mais informações podem ser obtidas na página da campanha, aqui.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Relançamento: O palácio de Ifê, Simone Saueressig

Uma das primeiras publicações anunciadas para 2024 é o relançamento de O palácio de Ifê, novela de fantasia da escritora gaúcha Simone Saueressig originalmente publicada pela LP&M em 1989, que há tempos estava fora de catálogo. A nova edição vem pela editora Bennu, com 80 páginas e ilustrações de Rubem Filho. 
Diz o texto de divulgação: "Uma casa apertada, no morro, com condições socioeconômicas precárias, mas com moradores felizes e orgulhosos de sua escola de samba. De repente, o irmão mais novo, Pingo adoeceu. E essa doença misteriosa se espalhou, atingindo a todos. Quem não estava doente, já não saía de casa ou usava máscara para não se contaminar, e o mundo se perguntava como sair disso. Dedé e Apito, irmãos mais velhos de Pingo, resolveram fazer alguma coisa. Embrenharam-se em uma aventura fantástica, em um outro mundo, o mundo dos Orixás, nas terras de Ifê. Em uma mistura de encantamento, fé e aventura sobrenatural, imersos em muita cultura e também preocupação ambiental, os pequenos personagens mostram sua força e determinação para conseguir, com a ajuda dos orixás, uma solução para salvar seu irmão e o mundo."
Não se trata de um fruto deste momento em que muitos autores têm enveredado no caminho da ficção folclórica e do afrofuturismo, pois Saueressig é uma das pioneiras em utilizar mitos e religiosidades do povo brasileiro na construção de textos de ficção fantástica para jovens, sendo este um de seus exemplos mais bem realizados. 
Uma bem vinda republicação que certamente vai encantar os leitores das novas gerações.

sábado, 30 de dezembro de 2023

Resenha do Almanaque: Um vulto nas trevas

Um vulto nas trevas, Simone Saueressig. 80 páginas. Coleção Asa Negra. Novo Hamburgo: da autora, 2004.

Há alguns anos a cultura brasileira de fc&f ignoraria qualquer título que estivesse alinhado com o mercado infanto-juvenil. É claro que isso nunca passou de chauvinismo de fã e ele ainda existe e se aplica em diversos segmentos do fandom, mas desde há algum tempo tem se tentado também prestar atenção nesse tipo de literatura que, de mais a mais, não tem nada de desprezível, ao contrário, identifica-se como uma luva com o tipo mais promissor de leitores de fc&f, o adolescente.
Por isso mesmo não é de se admirar que uma das mais completas autoras brasileiras de fc&f seja uma frequente colaboradora de coleções infantojuvenis. Simone Saueressig é gaúcha de Novo Hamburgo, com muitos livros publicados por editoras importantes, tais como O palácio de Ifê (L&PM, 1989), A fortaleza de cristal (L&PM, 1993), A máquina fantabulástica (Scipione, 1997) e Receita para um dragão (Scipione, 1999), entre outros.
Simone confessa ter sido obrigada a publicar Um vulto nas trevas sozinha, pois as editoras não se dispunham a fazê-lo. Temos que agradecer à autora a iniciativa por publicar este que certamente é um de seus melhores trabalhos, dentro de uma galeria de obras maravilhosas.
Trata-se de uma novela de mistério com características de horror sobrenatural gótico, devidamente adaptada ao moderno ambiente brasileiro urbano e claramente orientada ao leitor jovem, ainda que tenha apelo bastante forte ao leitor adulto pela qualidade da narrativa.
É a história de Beto, um garoto de cerca de dez anos que, junto com seu primo Inácio, de catorze anos, vai passar o final do ano com o avô, Seu Chico, num casarão tão velho quanto estiloso em Gramado. Beto já passara outras férias ali e guardava muitas memórias e impressões das outras estadas.
Seu Chico é viúvo e mora apenas com sua filha adotiva Clarisse, uma jovenzinha muito magra e de aparência débil, mas que realizava praticamente todas as tarefas domésticas no casarão.
Logo na primeira noite, Beto tem uma experiência bizarra que vai pautar todo o drama da narrativa. Sem sono, o garoto levanta tarde da noite para beber água e, da janela da cozinha, avista um vulto diáfano dançar no jardim, flutuando ao redor do poço e desaparecendo num salto. De quem seria aquele fantasma? Por que rondava a casa nas noites claras de verão?
Aterrorizado, Beto passa a ver assombrações em todas as partes do casarão, que se presta perfeitamente a essas coisas. Desse modo, o casarão assume o posto de quinto personagem da história, com suas salas vazias, portas rangedoras, gradil enferrujado e muitas, muitas frestas e goteiras.
Numa das explorações no segundo pavimento da casa, fechado ao uso por estar demasiadamente deteriorado pela falta de manutenção, os garotos encontram um embrulho misterioso que os leva a crer que seja um videogame que o avô estaria escondendo para lhes fazer uma surpresa no Natal. Acreditando que poderão passar os dias divertindo-se com o presente do avô, decidem pedir o adiantamento da entrega do mesmo. Sem alternativa, Seu Chico consente.
Beto e Inácio estão certos em quase tudo. Sim, aquele era mesmo o presente de Natal do avô. Sim, eles vão se divertir muito (talvez um pouco mais do que isso), mas... não é um videogame.
Ao abrirem o pacote, encontram um livro enorme e pesado. Não um livro qualquer, mas um antigo livro de recortar e montar a miniatura de cartão de um casarão chamado "Das Voguel Haus" em alemão - "A casa dos pássaros" em português – exatamente onde eles estavam hospedados naquele momento, o mesmo velho casarão de seu avô.
Desenxabidos e sem muito mais para fazer, Beto e Inácio passam a ajudar o avô a montar a maquete, uma representação exata em cada detalhe do projeto original do casarão.
Eles não sabem, mas esse quebracabeças guarda a resposta da visão assustadora que Beto teve naquela noite de insônia e que continua a atormentar-lhe a imaginação.
Todos os mistérios serão desvendados a seu tempo, não sem uma boa dose de coragem, desprendimento e afeição de ambos os garotos com relação ao seu avô e sua prima que, ao início da história, pareciam tão sem graça.
Um vulto nas trevas é uma história de amadurecimento, de um rito de passagem. Para Beto é a passagem da infância para a adolescência. Para Inácio, a passagem da adolescência para a vida adulta. E para todos os leitores, é uma história de como os laços humanos mais diáfanos são reforçados na tragédia.
Simone trata cada um dos personagens com a maturidade de uma escritora experiente. Todos são perfeitamente caracterizados, críveis e verdadeiros em cada detalhe. Os cenários são descritos com clareza e o leitor percebe-se caminhando pelos corredores da Casa dos Pássaros junto aos garotos, explorando seus recônditos mais obscuros, janelas e portas e móveis que bem poderiam abrir para dimensões tão loucas e perigosas como um guardarroupas de C. S. Lewis ou um buraco no jardim de Lewis Carrol.
Só uma coisa a lamentar neste livro de Simone: ele é muito breve. Esse era um livro que deveria ter mais páginas, só para se demorar a acabar. Prova definitiva que é mal negócio ignorar qualquer dos ambientes criativos da nossa literatura, sob o risco de se perder a melhor parte.

sábado, 2 de setembro de 2023

Resenha: De ferro e de sal, Simone Saueressig

De ferro e de sal
, Simone Saueressig. 608 páginas. Novo Hamburgo: edição de autor, 2018. Ebook.

Asanegra é um adolescente em idade de ser vendido, por isso seu pai o leva até o mercado central da cidade fortificada de Brutmir, onde poderá encontrar o comprador certo para encaminhar o filho a uma profissão respeitável e lucrativa. E esse comprador acaba sendo o ferreiro Daskos que não tem filhos homens e pressente que precisa passar suas habilidades a um aprendiz. 
Satisfeito com o dinheiro que irá saldar suas muitas dívidas, o homem deixa o filho com Daskos e volta para sua terra, na região rural do distrito. Asanegra também está animado, pois escapou de ser comprado por algum tarado, o que não é incomum nesse tipo de negócio. O que ele não imaginava é que Daskos na verdade não é um homem sem filhos. Ele tem uma filha, a rabujenta Orí, que sempre quis conhecer a Forja onde o pai trabalha mas nunca pode porque é tabu que mulheres entrem lá. 
A Forja é uma instituição importante para Brutmir, uma vez que é onde se fabricam as armas e as barreiras de defesa da cidade contra o ataque do povo élfico, inimigos figadais dos homens desde que estes lhes tomaram a Torre de Amálgama, edificação que fica no centro de Brutmir e é sagrada para os elfos, que juraram retomá-la. Todo o trabalho na Forja só é possível com a ajuda dos Servidores, demônios domesticados que fazem a função de fornalhas de bancada, aquecendo o metal para ser modelado pelos ferreiros. Acontece que os Servidores enlouquecem de desejo se sentirem o cheiro das mulheres humanas e, no gozo do prazer, acabam por matá-las numa explosão autodestrutiva. 
Desse modo, a vida de Asanegra na casa de Daskos torna-se um inferno com as provocações e maldades de Orí, enciumada pelo privilégio do garoto em entrar na Forja e por ele ter a atenção do pai que, até então, só a ela pertencia.
Em outra parte da cidade, vive o estranho Sivo, homem poderoso e cheio de mistérios, chamado por todos de o Homem Santo. Sivo não é uma boa pessoa, pois está até o pescoço de ódio e ressentimento, e seu único desejo é destruir Brutmir e tudo o que ela representa. Para isso, vem articulando um plano de longo prazo, com detalhes que precisaram ser definidos com o cuidado de um relojoeiro. E a hora de colocar a máquina em funcionamento se aproxima pois, em breve, haverá uma conjunção rara de planetas que vai abrir caminho para o ataque definitivo dos elfos, algo em que ninguém em Brutmir acredita, pois os elfos estão distantes há muito tempo. Sivo se aproveita dessa situação para enfraquecer as defesas da cidade muralhada, bem como o seu exército que está decadente pelo ócio e pela corrupção. 
Este é, basicamente, o enredo de De ferro e de sal, romance de alta fantasia da escritora gaúcha Simone Sauressig, que o publicou em 2018 com recursos próprios através da plataforma de autoedição da Amazon. 
Trata-se de um texto longo, com mais de cem mil palavras e muita ação, especialmente em sua metade final, uma vez que a primeira metade do livro é dedicada a apresentar os muitos personagens, todos bem construídos, e a cidade murada de Brutmir, personagem principal da trama.
Alta fantasia não é uma novidade na produção da autora, que já apresentou outras obras no gênero, como a saga Os sóis da América (2013), o romance O jogo no tabuleiro (2009) e a duologia A noite da grande magia branca (1993)/A fotaleza de cristal (1988). A diferença que salta aos olhos para quem já conhece a ficção de Saueressig é o tom violento e cruel desta dramatização. Não que seus trabalhos anteriores não tivessem situações tensas e incômodas, inclusive isso foi bastante utilizado pela autora no romance de ficção científica B9 (2010) e em suas histórias curtas de horror, nas quais cenas sangrentas não são incomuns. Até mesmo a morte de personagens importantes nas tramas também está presente em obras anteriores. Porém, em De ferro e de sal, esse tom está definitivamente emaranhado à história, configurando um estilo diferenciado diante das peças acima citadas, como se Saueressig estivesse deliberadamente conduzindo sua ficção para um público mais maduro do que aquele ao qual foram dirigidos os trabalhos anteriores. Isso, somado ao curioso formato humorístico de sua coletânea mais recente, A noite dos insensatos (2023), demonstra o desejo de Saueressig em encontrar novos públicos e escapar do paradigma de autora de ficção juvenil. De ferro e de sal é certamente o ponto alto dessa estratégia e confima, mais uma vez, o estatus de Simone Saueressig  como um dos melhores autores de alta fantasia no Brasil.

terça-feira, 30 de maio de 2023

Resenha do Almanaque: A estrela de Iemanjá, Simone Saueressig

A estrela de Iemanjá, Simone Saueressig. Ilustrações de Maurício Veneza. 168 páginas. São Paulo: Cortez, 2009.

A ficção fantástica produzida no Brasil, com honrosas exceções, não privilegia as características nacionais. Não que isso tenha sido sempre assim. Muitos fantasistas brasileiros não sentiram dificuldade em inserir o imaginário nos cenários brasileiros. Mas, no que se refere a fc&f contemporânea feita nos últimos quarenta anos dentro dos muros do fandom, havia a princípio uma grande dificuldade em enxergar a fantasia e a tecnologia no ambiente cotidiano local. Os autores costumeiramente apelavam para ambientes europeus e norte-americanos, aproveitando também para batizar os personagens com nomes associados a cultura anglo-europeia, pois o contrário lhes soava de tal modo deslocado que impedia que fosse levado a sério, o que o escritor Braulio Tavares veio a batizar como "Síndrome do Capitão Barbosa". Em 1986, o escritor-fã Ivan Carlos Regina (O fruto maduro da civilização, GRD, 1993), propôs nas páginas do fanzine Somnium um manifesto de valorização da brasilidade na ficção científica nacional, que ficou conhecido como Movimento Antropofágico da FCB, em referência ao Manifesto Antropofágico da Semana de 1922. Em torno do texto de Regina reagiram inúmeros autores, a favor e contra, e com os passar dos anos as imagens, nomes e culturas brasileiros emergiram em boa parte dos textos realizados pelos fãs, o que felizmente continua acontecendo hoje.
Contudo, muito disso deve-se a um esforço militante de um determinado setor que busca uma identidade para a ficção fantástica brasileira. A maior parte desses autores avançou sobre temas e conceitos que para si próprios não eram naturais. Não vou dizer aqui que isso não não funcionou, porque funcionou sim. Mas o "brasileirismo" vai muito além de ambientes.
Uma das maiores dificuldades dos autores é com os personagens. É muito difícil definir idiossincrasias pessoais sem cair na caricatura e no estereótipo. Na digna tentativa de evitar essa armadilha, os personagens acabam homogenizados, achatados num espaço de pouca manobrabilidade, que é ainda mais engessada nas mãos de autores menos experientes.
Então, para demarcar bem seus personagens, os autores costumam lançar mão dos arquétipos. Funciona, do ponto de vista dramático, mas os personagens ficam distantes do leitor, tão irreais como os personagens mitológicos.
Ainda há muita dificuldade em modular personagens e, entre os mais evitados, estão os personagens pretros. Isso porque a ampla maioria dos autores brasileiros que se exercita na fc&f são brancos. Não passaram e nunca passarão pelas dificuldades de ser uma pewssoa preta num país que aboliu a escravidão há pouco mais de um século. Talvez haja um certo mal estar entre esta legião de escritores brancos em se colocar no lugar de um preto brasileiro, então melhor nem tentar.
Entretanto, há tentativas bem sucedidas mas, de forma geral, os personagens pretos só o são porque o autor decidiu descrevê-los assim. No mais, eles se comportam exatamente como qualquer outro, não há muita da etnia em sua vida. Uma das desculpas recorrentes entre os autores é querer reafirmar a igualdade entre pretos e brancos, que a cor da pele não faz diferença. Mas faz: interfere de maneira importante na psiquê do indivíduo e na forma como ele é tratado na sociedade. Talvez apenas os próprios autores pretos tenham suficiente sensibilidade para construir personagens pretos palpáveis mas, infelizmente, estes são minoria no fandom. Por isso, não é de se surpreender que tenham sido tão poucas as tentativas de usar o panteão africano como base de histórias especulativas. Talvez haja aqui alguma preocupação com o fato desse imaginário ser base de religiões vivas no país, como a umbanda e o candomblé.
Mesmo assim, a corajosa escritora gaúcha Simone Saueressig, autora de A noite da grande magia branca (Cortez, 2006) e A fortaleza de cristal (L&PM, 2006), ousou investir nesse tema em seu romance A estrela de Iemanjá, publicado pela editora paulista Cortez em uma edição ilustrada por Maurício Veneza, com acabamento luxuoso até então  pouco visto nas letras nacionais.
A história, indicada pela editora para aulas de língua portuguesa, geografia e história, conta como três jovens pescadores pretos, Tomás, Cosme e Daniel, inadvertidamente capturam em sua rede a poderosa estrela do mar de Iemanjá, roubada de sua proprietária por Joelho e Benevides, dois salafrários que para isso usaram um submarino. Durante a fuga, a estrela causou problemas na máquina e, morto de medo, Benevides jogou a estrela por uma escotilha, justamente quando a rede dos meninos flutuava por ali. 
Os poderes da estrela provocam uma tempestade furiosa que arremessa os garotos na praia de Aganjú, uma ilha desconhecida que não devia estar ali. Eles ajudam Ubatá, uma garota que está numa importante missão e, para isso, teve de roubar o amuleto de uma raça de seres ferozes. Para voltar para casa, os meninos terão de acompanhar Ubatá para o interior da ilha, em busca de ajuda. Mas eles não imaginam que Joelho e Benevides estão logo atrás deles, pois querem recuperar a estrela, que eles carregam sem saber do que se trata. A ilha de Aganjú esconde um universo maravilhoso, repleto de magia, perigos e mistérios que os meninos terão de superar caso queiram escapar dessa armadilha mortal, que envolve o próprio fim dos tempos para todo o planeta.
Não é a primeira vez que Simone conta uma história com orixás. Em O palácio de Ifê (L&PM, 1989), a autora enveredou pelo tema, numa aventura que também tem contornos juvenis, mas é algo mais dramática.
Simone não evita temas regionalistas e folclóricos, ao contrário, ela os persegue com rara criatividade e poesia. Talvez tenha sido por isso que a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil selecionou A estrela de Iemanjá para representar o Brasil na Feira do Livro Infantil de Bolonha 2010, junto a outros 210 títulos que foram apresentados a editores, escritores, ilustradores e estudiosos do mercado internacional. Foi a primeira vez que a autora de Novo Hamburgo teve um de seus livros selecionados para a mostra.
A simples presença do trabalho de Simone entre os leitores jovens cria uma boa expectativa para as futuras gerações de escritores, que terão nela uma excelente referência criativa. Ainda que muita gente sofra, por convicção, da Síndrome do Capitão Barbosa, está bastante claro que não há nenhuma dificuldade ou facilidade agregada ao texto apenas pelo fato dele fazer uso de imagens e etnias brasileiras. Não é preciso disfarçar a origem cultural para ser "melhor recebido" pelo mainstream, seja no mercado nacional seja no internacional. Faça-se o que quiser, tanto faz. O que conta a qualidade do trabalho realizado e, sem dúvida, isso não falta a Simone.

quinta-feira, 11 de maio de 2023

A noite dos insensatos, Simone Saueressig

A noite dos insensatos e outras histórias bizarras
, Simone Saueressig. Novo Hamburgo: edição de autor, 2023. 

Houve um tempo em que os textos escritos pelos autores de fandom brasileiro de fc&f eram efetivamente lidos e causavam debates furiosos nas redes sociais analógicas da época, que aconteciam nas páginas dos fanzines que também veiculavam os textos em si. 
As redes digitais pareciam, a princípio, acenar com um acirramento desse tipo de debate, mas foi uma expectativa frustrada rapidamente na medida em que os autores abandonaram as discussões para evitar os melindres em seus seguidores. O encarregado de uma grande editora, hoje já fora do mercado, chegou a anunciar uma lista negra para os autores que fizessem comentários polêmicos nas redes. 
Portanto, é de se comemorar a iniciativa da fantasista gaúcha Simone Saueressig, que publicou com seus próprios recursos a coletânea A noite dos insensatos e outras histórias bizarras, com seis contos imprevisíveis e absolutamente fora do espaço de conforto da autora. 
Conhecida por sua ficção de viéz folclórico voltada principalmente para o público juvenil, Simone investe aqui em textos de forma e natureza totalmente diversos de suas características, com um forte conteúdo humorístico, quase sempre negro, e ataques declarados a comportamentos da sociedade brasileira recente. 
A coletânea tem apenas 37 páginas, mas seu conteúdo é explosivo e de alta octanagem, que levou legiões de usuários das redes sociais a mover uma verdadeira campanha contra o volume, algo que não se via no fandom desde que as redes decidiram limar Monteiro Lobato da literatura brasileira. 
O conto título abre a antologia e é o mais longo da seleta. Trata-se de uma farsa engraçadíssima, um tipo de charge literária, sobre dois alienígenas que atuam em segredo na proteção do planeta Terra e decidem fazer uma visita não autorizada à uma região ao sul do Brasil em meio a campanha eleitoral de 2022. Sendo charge, o texto exige uma certa contextualização para fazer sentido, mas acredito que os brasileiros não terão problema com relação a isso. 
"Buraco de minhoca" narra o drama de uma dona de casa que tem em sua máquina de lavar roupas a extremidade de chegada de um buraco de minhoca de onde surgem todos os pés de meias perdidos no mundo.
"Pleonasmos" é uma narrativa metalinguística que surpreende porque a autora desrespeita sua própria filosofia de escrever corretamente e comete repetidos e deliberados pleonasmos, tudo a serviço do desfecho da história. 
"Infestação" é a história mais poética do conjunto, sobre uma jovem que passa a ser incomodada pela presença cada vez mais intensa de variados tipos de insetos em sua casa, prenúncio de importantes transformações na sua vida.
Em "A reforma" temos uma narrativa de horror, uma especialidade da autora. Durante uma reforma em sua residência, o pedreiro abre um buraco na parede que se transforma em uma gigantesca bocarra faminta. 
"Tsundoku" fecha o volume com a história de uma amante dos livros que compra muito mais do que consegue ler. A certa altura, os volumes começam a brotar expontaneamente até ocuparem toda a casa, que se torna então num labirinto de livros empilhados onde as pessoas desaparecem para sempre. 
Como se vê, a autora flerta com o modelo de fantasia de Murilo Rubião e Jorge Luis Borges, com textos curtos e poderosos que não permitem que o leitor fique impassível a eles. Com exceção do conto título, todos os demais têm protagonistas femininas em meio ao cotidiano urbano, o que certamente deve significar alguma coisa importante.
O volume foi publicado apenas em formato virtual para leitores Kindle e pode ser adquirido aqui. Contudo, quem não tiver o dispositivo poderá ler o livro no aplicativo online da própria plataforma. 
Recomendo fortemente a leitura, por ser um ponto de virada na obra da autora, pelas discussões que suscita e porque é uma leitura bastante rápida. Dessa forma, mais gente pode entrar na discussão. Afinal, "A noite dos insensatos" é ou não proselitista? Não vou responder, mas que é divertidíssimo, lá isso é.

sábado, 22 de abril de 2023

Resenha do Almanaque: Contos do Sul, Simone Saueressig

Contos do Sul, Simone Saueressig. 96 páginas. Capa de Marciano Schmitz. Novo Hamburgo: edição da autora, 2012.

A escritora gaúcha Simone Saueressig é um nome significativo no fandom brasileiro de ficção fantástica. Autora premiada e experiente, Simone surgiu por volta de 1983 nas páginas do boletim do já extinto Clube de Ficção Científica Antares, de Porto Alegre. Logo profissionalizou-se como autora de livros de fantasia infanto-juvenis, tais como os romances O palácio de Ifê (1989) e A máquina fantabulástica (1997), publicados pelas prestigiosas editoras L&PM e Scipione, respectivamente.
Simone viveu na Espanha durante cinco anos e voltou ao Brasil em 1999, quando retomou suas carreiras de professora de dança flamenca e escritora. Logo nos primeiros tempos de sua volta, a dificuldade em restabelecer o contato com as antigas editoras levou a publicar ela mesma o livro Um vulto nas trevas (2004). Embora tenha depois reconquistado seu espaço no meio editorial, gostou da experiência de autopublicação e passou a se utilizar mais vezes desse expediente.
Contos do Sul é uma dessas iniciativas, coletânea com cinco contos de horror que usam como tema as lendas e mitologias gauchescas. O título do volume faz referência ao importante livro de Simões Lopes Neto, Lendas do Sul, publicado pela primeira vez em 1912. A própria Simone comenta a obra, neste trecho transcrito da apresentação do volume:
"Contos do Sul aborda quatro criaturas folclóricas: a Iara em sua forma original de ypupiara, o lobisomem, a mula-sem-cabeça e o Saci. A exceção é o Diabo, que não pode ser considerado folclore brasileiro, já que é universal na área de abrangência da cultura cristã, e não é tema da Lendas do Sul."
O primeiro texto é o excelente "A cisterna", uma história vigorosa e assustadora, que está entre as melhores peças do gênero já escritas por um autor brasileiro. Conta a aventura de um grupo de crianças por uma mata próxima de suas casas. Em algum lugar ali existe uma espécie de piscina artificial, larga e funda, onde alguma coisa estranha vive. Curiosas, as crianças sobem numa árvore para olhar o ser que se move sob as águas escuras, logo abaixo dos galhos. O pouco que se pode observar revela voluptuosos contornos femininos que fascinam os garotos. Mas tudo se complica de verdade quando a coisa começa a falar.
Em "O cemitérios dos cães", investigadores da polícia escavam um terreno próximo a um canil, e encontram pistas que comprometem seriamente a versão do proprietário para o desaparecimento de seu filho. Apesar de ser uma narrativa curta em que as cenas de horror são rápidas e imprecisas, trata-se de um conto de forte expressão emocional.
"O galpão" é a história com o diabo, citada por Simone na apresentação. O vínculo com a cultura sulista vem na forma de uma pequena cidade interiorana, tão pequena que nem cemitério tem. De vez em quanto, passa por ali um trem, conduzindo passageiros e, principalmente, levando os caixões com os mortos do lugar, para serem enterrados em uma outra cidade. O que é uma mão na roda para Klaus, que aproveita o fato de ser o encarregado de despachar os cadáveres para antes dilapidá-los de seus pertences sem que ninguém desconfie. Para passar o tempo, Klaus atrai crianças e vagabundos para o galpão onde são armazenados os cadáveres até a passagem do trem, e ali os assassina por pura diversão. Depois, desfaz-se dos corpo de suas vítimas nas fossas de um curtume desativado. Quando um desconhecido chega a cidade, Klaus logo sente o sangue ferver pela expectativa de mais uma noite de diversão macabra. E, para melhorar, o homem traz uma brilhante corrente de ouro no pescoço, o que vai unir o útil ao agradável.
É o texto mais moralista da coletânea, mas tem personagens muito bem delineados e uma ótima ambientação. Simone chegou a me mandar a foto de um desses tenebrosos buracos de curtume, coisa comum na região.
"O farol" vai para a beira do mar, onde o solitário faroleiro recebe a visita do chefe, que veio entregar suprimentos. Quando desaba um grande temporal, ambos têm que se abrigar no interior do farol. No meio da chuvarada, uma mulher bate à porta e o faroleiro a despacha bruscamente, o que intriga o seu superior. O faroleiro explica que ela é uma mulher meio doida quee pediu para se abrigar da chuva no galpão e ele deixou, mas o homem se indignou: devia ter deixado a infeliz entrar no farol  com eles, que é mais protegido. Quando começa a soar uma zoada estranha do lado de fora, o homem não atende aos pedidos do faroleiro e abre a porta do farol para ver o que é, e o fim do mundo espalha-se sala adentro, escoiceando e queimando tudo. O que aconteceu, só saberemos dias depois, no hospital. Apesar de ser uma história de pouca tensão, os parágrafos que descrevem as cenas de  confusão dentro da sala do farol são vívidas e impressionantes, e fazem valer a história.
O último conto da antologia é "O saci", conto "Destaque" do 3º Prêmio Habitasul Revelação Literária na Feira, de 2003, e publicado então no livro do evento. É o conto mais longo da coletânea, mas isso não significa muito porque os textos são todos mais ou menos do mesmo tamanho. Lembra as histórias de Ray Bradbury, com circos assombrados em que acontecem coisas estranhas, mas a poesia de Simone não é igual à do escritor norteamericano, além do que a ambientação bem desenvolvida, assim como a cultura gaudéria que encharca o texto, não permitem que se realize maiores comparações.
A história conta sobre um jovem, pré-adolescente que, ao visitar a feira de esquisitices de um circo itinerante, vê a oportunidade de ter sua iniciação sexual com a dançarina da trupe. Mas, para isso, ela exige que o menino traga o saci que, inadivertidamente, ele revelou que seu avô guarda aprisionado numa garrafa. Mesmo temendo a maior bronca de sua vida, o menino rouba a garrafa onde a coisa presa demonstra toda a sua fúria, e a leva para a garota, ávida por uma atração realmente incomparável para o circo. Nada mais direi, exceto que este saci tem muito pouco a ver com aquele que Monteiro Lobato tornou popular.
Contos do Sul tem formato de bolso e apenas 96 páginas, sendo um livro que se pode ler de um só fôlego. Mas as histórias são tão intensas e surpreendentes que acabamos lendo cada uma delas mais de uma vez, só pelo prazer reviver as histórias. Especialmente "A cisterna" e "O saci", que são peças de qualidade inegável, representantes de uma dark fantasy brasileira autêntica, que não abre mão de personagens bem estruturados e situações realmente assustadoras, e que não se deixa cair na caricatura e no estereótipo.
Simone sabe, como poucos, manipular as emoções do leitor e conduzir a tensão das histórias em direção ao melhor resultado dramático possível. É uma autora de posse de toda a sua competência técnica, que se movimenta com desenvoltura num gênero que lhe parece tão familiar quanto a própria cultura que herdou de seus antepassados. E faz parecer de tal forma natural que nos perguntamos: por quê há tão pouco disso na literatura nacional?

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

De ferro e de sal

A escritora gaúcha Simone Saueressig anuncia que já está disponível na plataforma de autoedição da Amazon seu romance inédito De ferro e de sal, fantasia densa destinada ao leitor adulto.
Diz o texto de divulgação: "Em torno da Forja, ergue-se Brutmir, a Cidade dos Ferreiros. O cenário perfeito para que a Reta e Cega se encontrem para seu baile macabro. A Reta e a Cega: os Potentados sinistros da Vingança e da Traição. As que nunca esquecem. As que jamais desistem".
Simone tem muita habilidade no trato dos gêneros fantásticos e também já demonstrou ser ótima autora para adultos, como se pode atestar na leitura do romance histórico aurum Domini: O ouro das missões e da ficção científica B9, e não erro em afirmar que é a melhor escritora do gênero no país.
Confira seu estilo elegante e agudo lendo gratuitamente aqui o conto "Muiraquitã", merecidamente vencedor do concurso A Bandeira do Elefante e da Arara RPG, promovido pela REDERPG, e veja se não tenho razão.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

O pitbull é manso, mas...

O romance de horror O pitbull é manso, mas o dono dele já mordeu uns quantos..., de Simone Saueressig, recebeu uma nova edição, com capa nova e texto revisado para contar a aventura de Deco, Bebel e Marcão e um lobisomem. E o melhor de tudo: gratuito. Baixe seu exemplar em formato pdf no saite da autora, aqui.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

As mulheres e a produção de fc no Brasil

Está "no ar" mais um episódio de Ghost Writer, podcast sobre literatura, produzido e a apresentado por Ricardo Herdy e Raphael Modena.
Nesta edição, as escritoras Simone Saueressig, Finisia Fideli e Marcia Olivieri, acompanhadas de Cesar Silva, debatem a presença feminina na ficção científica brasileira, com muitos dados históricos e recomendações de leitura.
O programa pode ser ouvido online ou baixado gratuitamente no saite do Ghost Writer, aqui.
Vale a pena explorar todo o acervo, que tem uma boa quantidade de episódios interessantes.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Menos do que um troco

A escritora Simone Saueressig, mais conhecida por seus textos de fantasia, anuncia a publicação de seu novo livro Menos do que um troco, editado pela Artes e Ofícios. Mas avisa que, desta vez, não não se trata de literatura fantástica, mas sim de um romance "o mais realista que consegui fazer", diz a autora.
O lançamento acontecerá no dia 19 de junho, às 19 horas, na livraria Sapere Aude (rua Lopo Gonçalves nº 33) em Porto Alegre/RS. Haverá um batepapo com a autora e com o também escritor Luís Dill.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Resenha: Livros para chamar o Sol

Os sóis da América III: O coração de jade, 184 páginas; Os sóis da América IV: A Pedra da História, 176 páginas, Simone Saueressig. Ilustrações e capas de Fabiana Girotto Boff. Edição da autora, Novo Hamburgo, 2014.

Em 2014, Simone Sauressig publicou, com recursos próprios, O coração de jade e A Pedra da História, partes finais da tetralogia Os sóis da América, saga de fantasia com as aventuras do menino Pelume por um continente americano mítico, em busca da história para chamar o Sol, sem a qual seu povo, que habita a longínqua Caverna Mais Alta do Mundo, localizada em uma ilha no Círculo Polar Antártico, jamais verá o astro nascer novamente.
Nos livros anteriores, O Nalladigua e A Flauta Condor, publicados em 2013, Pelume e seus amigos, a menina Misqui e o guarani Nimbó, atravessaram os territórios do sul, passando pelos pampas gaúchos, o Rio da Prata, as cataratas do Iguaçu, os campos de caçada e a grande cordilheira dos Andes, fazendo novos amigos e enfrentando perigos mortais, entre os quais o bruxo Machí que, tendo seus planos frustrados por Pelume, os persegue sem trégua, em busca de vingança a qualquer custo. Quando Pelume precipita-se nos abismos andinos, Misqui e Nimbó são obrigados a seguir viagem sozinhos.
O coração de jade inicia exatamente nesse momento. Miraculosamente, Pelume sobrevive a queda ao ser capturado, em pelo ar, por uma ave que pretende devorá-lo, mas o velho remo – que é um galho da lendária árvore Nalladigua – o protegeu do apetite da fera alada. Perdido na selva, Pelume é envolvido pelas promessas da traiçoeira Cobra Grande, que consegue convencê-lo a trocar seu coração puro de menino pelo transporte até a cidade de Tiahuanaco. No lugar, Pelume passa a ter um coração feito de jade, duro e frio, que a Cobra Grande lhe deu. Agora sem sentimentos, Pelume suporta sem muita dificuldade uma aterrorizante viagem no lombo da cobra, só para, no final da jornada, encontrar seus amigos aprisionados pelo poderoso Machí. O confronto com o bruxo revela o quanto o menino mudara. Pelume resgata seus velhos amigos, mas o custo emocional é enorme e a relação entre eles nunca mais seria a mesma. Na sequência da jornada para o norte, os meninos chegam à maravilhosa cidade Teothiuacán, onde se deparam com uma urbanidade inédita que deixa maravilhado até o insensível Pelume.
Ali eles conhecem um povo muito desenvolvido, mas que está passando por um momento delicado. Esta próxima a hora da cerimônia do Fogo Novo, quando todos os fogos da cidade são apagados e substituídos por uma nova chama. Para isso, é necessário o sacrifício de um homem honrado, ou então, de um pouquinho do fogo sagrado de Popocatepetl, o vulcão que se ergue sobre a cidade. Por trás do drama de Tenamaztli, o valente guerreiro que terá de ser sacrificado, está a história de ciúme de uma mulher egoísta que não se importa em colocar toda a cidade em risco de ser destruída apenas para satisfazer seus caprichos. Isso vai colocar os três jovens do sul na busca pelo fogo de Popocatepetl e numa luta infernal contra um exército de seres mágicos que prenunciam o fim do mundo.
A Pedra da História, volume final da série, vai levar os jovens aos limites setentrionais do continente. Perseguidos de perto pelo cada vez mais enfurecido feiticeiro Maquí, que agora tem um séquito de feras mágicas sob suas ordens, os do sul atravessam as grandes pradarias norte americanas, a Floresta Dourada e a Mata do Norte, conhecem povos nativos e civilizações mágicas, e encontram-se com a misteriosa Mulher-Aranha, que entrega a Pelume a misteriosa Pedra da História e faz revelações que o menino só poderia compreender se ainda tivesse um coração de verdade no peito. A fuga prolongada e cansativa, as constantes lutas e o frio cada vez mais intenso começam a minar a determinação de Pelume, e quando ele percebe que seus amigos estão muito próximos do completo esgotamento físico e emocional, ele mesmo dominado pela frieza de coração de jade, decide abandonar a busca e se entregar à ira de Maquí. Mas as revelações pelas quais tanto lutou, bem como o destino de seus amigos, estão para além da banquisas polares.
Assim como em O Nalladigua e A Flauta Condor, O coração de jade e A pedra da história são ilustrados por Fabiana Girotto Boff, que também assina as capas. Cada livro vem com um marcador de páginas que estampa um útil glossário de termos linguísticos e figuras mágicas, que ajuda a entender de onde veio a infinidade de criaturas fabulosas que aparece ao longo da narrativa e seu contexto no folclore das diversas culturas com as quais Pelume toma contato.
Apesar da invejável bibliografia da autora, que detém em seu currículo vários prêmios importantes e romances ousados como aurum Domini: O ouro das missões (2010), O jogo no tabuleiro (2010) e B9 (2011), Os sóis da América se destaca como um trabalho de fôlego, que certamente exigiu um esforço monumental de pesquisa. Seu maior mérito é ter ido além de qualquer bairrismo, reclamando todo o continente como o espaço sem as fronteiras que perdemos de vista por causa do apelo nacionalista, uma proposta corajosa e inovadora na ficção fantástica brasileira.

sábado, 14 de junho de 2014

Agenda: Padrão 20

A escritora Simone Saueressig convida todos os amigos e leitores para o lançamento oficial do seu romance de ficção científica Padrão 20: a ameaça do espaço-tempo, publicado pela editora Besourobox. O evento acontece no dia 18/06, à partir das 19h, na Livraria da Feevale Campus II, que fica na Rodovia ERS 239 nº 2755, em Novo Hamburgo/RS.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Simone Saueressig em dose dupla

Dona de uma índole ativa e irriquieta, a escritora gaúcha Simone Saueressig não se acomoda nunca, e dá continuidade a sua obra literária com dois títulos simultâneos, ambos lançados durante a III Odisseia de Literatura Fantástica, recentemente realizada em Porto Alegre.
O coração de jade é o terceiro volume da série de fantasia Os sóis da América, com a saga do jovem Pelume, nativo de uma ilha perdida no Círculo Polar Antártico, em peregrinação por uma América mítica em busca da história que fará o Sol se levantar sobre sua gente. A história segue agora pela América Central, com Pelume e seus amigos confrontando criaturas da mitologia asteca.
Ao contrário do que eu pensava, não é a última parte: o título do volume 4 será A pedra da história, em que os heróis irão avançar pelo norte do continente.
O livro tem 184 páginas e, como nas edições anteriores, tem ilustrações de Fabiana Girotto Boff. Mais informações no blogue da série, aqui.
O outro livro de Simone é Padrão 20: A ameaça do espaço-tempo, ficção científica juvenil editada pela Besouro Box, na qual a protagonista, Maria do Céu, durante férias em Genebra, se depara com situações insólitas dignas de um episódio de Além da imaginação. Os títulos dos dezessete capítulos que compõem o romance são uma atração a parte, pois muitos deles fazem referência a outros textos do gênero, nacionais e estrangeiros. O livro pode ser encontrado em diversas livrarias.