Simone Saueressig é uma dessas escritoras que sempre merecem ser lidas. Ativa desde os anos 1980, escrevendo principalmente literatura infanto-juvenil, construiu um catálogo de obras relevantes, muitas adotadas por prefeituras e governos estaduais para compor bibliotecas escolares. Seu livro mais conhecido é A máquina fantabulástica (Scipione, 1997), que já superou a casa das centenas de milhares de exemplares vendidos. Os temas de sua literatura navegam entre a fantasia, o horror, o mistério e a ficção cientifica, com igual desenvoltura e qualidade.
Nos últimos anos, a autora acelerou o rítmo de lançamentos por editoras, por editais públicos e também por autoedição. Entre esses lançamentos mais recentes, está O último continente, novela de ficção científica que se coloca como sequência a Padrão 20: A ameaça do espaço-tempo (Besouro Box, 2014), em que o casal de jovens protagonistas Maria do Céu e Shiaka se viu às voltas com uma trama que pretendia destruir o acelerador de partículas CERN, em Genebra.
Em O último continente, Maria do Céu e Shiaka estão de férias em Torres, no litoral do Rio Grande do Sul, mas, ao investigar o comportamento suspeito de Helena, filha de um cientista desaparecido, literalmente embarcam numa aventura perigosíssima em alto mar a bordo de um barco de pesquisas conduzido por Félix, uma inteligência artificial muito eficiente, mas que tem suas limitações.
Helena acredita que seu pai ainda esteja vivo, preso em algum lugar no meio do oceano, numa ilha artificial formada por resíduos plásticos, e ela não está de todo enganada. A viagem, repleta de perigos, com direito a navio fantasma, tempestades e até o ataque de um exército de ratazanas famintas, efetivamente chega à ilha plástica flutuante, onde PIANE – o barco perdido do pai de Helena – está encalhado. Félix assume o controle da embarcação mas os parâmentros da missão original do PIANE, que também era controlado por uma IA, contaminam seu sistema e podem impedir o resgate dos sobreviventes perdidos no meio do Atlântico.
A história apresenta personagens fortes e decididos, mas é preciso aceitar a situação em que os jovens se metem com alguma permissividade para aproveitar a emoção da aventura. Afinal, não é muito provável que três jovens consigam se apropriar com tanta facilidade de um barco com tais tecnologias. Mas Saueressig contorna bem a dificuldade encadeando uma sequência ininterrupta de cenas de ação intensa, que deixa pouco espaço para outras preocupações do leitor. Os momentos mais intensos da narrativa acontecem a bordo do navio fantasma Lyunov Orlova, e quando os jovens desembarcam na ilha flutuante e têm de enfrentar uma IA enlouquecida. O maior mérito da história, contudo, é trazer a discussão da poluição dos oceanos pelo lixo plástico, que é efetiva e muito séria, e nem sempre é tratada de forma consistente pelos autores brasileiros.
O último continente foi editado com recursos da autora e ganhou o Prêmio AGES 2022 na categoria Livro do Ano, além de uma Menção Honrosa no V Prêmio ASBREST de Literatura. A publicação ainda está disponível no blogue da autora, aqui, e vale muito a pena conferir.

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