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segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Resenha: Os filhos das estrelas, H. G. Wells

Os filhos das estrelas
(Star begotten), H. G. Wells. 248 páginas. Tradução de Gustavo Terranova Aversa. São Paulo: Andarilho, 2025. Publicação original de 1937.

H. G. Wells (1866-1946) dispensa apresentações. Este escritor britânico é sumamente conhecido e popular entre leitores no mundo todo, autor de uma infinidade de clássicos da literatura, entre os quais estão A guerra dos mundos, O homem invisível, A máquina do tempo, além de trabalhos em diversas outras áreas, como filosofia, política e história. 
Contudo, mesmo sendo um leitor inveterado dos textos de Wells, não conhecia Os filhos das estrelas, novela originalmente publicada em 1937 que apresenta uma série de características incomuns, tanto ao gênero da ficção científica no qual ele pode ser classificado, não sem alguma polêmica, mas ao próprio escopo  dos textos do autor. 
Não que lhe seja realmente desconforme, pois está alinhado às ideias mais frequentes de Wells, mas por conta do estilo. Creio nunca ter lido um texto assim de Wells e me parece nunca ter lido algo parecido na fc.
Porque Os filhos das estrelas mal tem um enredo. De fato, ele se manifesta através de longos diálogos ao estilo platônico,  que vão se aprofundando, mudando o ponto de vista e reformulando argumentações. Ou seja, a novela está mais para um ensaio filosófico do que para uma ficção, como um diálogo de Platão com pequenas parábolas como ilustrações argumentativas. A única diferença é que Wells não encerra em aporia, mas oferece uma conclusão mais ou menos satisfatória.
A história, se podemos dizer assim, fala sobre Joseph Davis, um homem comum da sociedade britânica que, certo dia, depois de participar de conversas aleatórias com alguns intelectuais num evento, tem uma revelação perturbadora: a humanidade estaria sendo manipulada em sua estrutura genética por alienígenas de Marte que, sem condições de promover uma invasão física ao planeta, bombardeiam a Terra com raios cósmicos mutagênicos para alterar a humanidade até que ela se torne marciana. Ao relatar suas angústias a um psicólogo, este acaba contaminado pela ideia e, sendo afeito a fofoca, espalha a história, que se torna um meme internacional. 
Talvez a proximidade maior deste texto de Wells, inclusive considerando-se o tema, seja com Assim falou Zaratustra, do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, publicado em 1883.  Alias, o conceito de Übermensch, desenvolvido pelo filósofo nesse livro, foi bastante explorado pela fc e pode ser percebido, por exemplo, em diversos livros de Arthur C. Clarke, e no desconcertante The new Adam,  de Stanley G. Weinbaum, publicado em 1939. O conceito é chave de entendimento desta novela de Wells.
O volume tem formato de bolso com 248 páginas, tradução de Gustavo Terranova Aversa, e faz parte da coleção Clube Andarilhos da Editora Andarilho, que é comercializada através de assinaturas. Mas, após algumas semanas, os livros dessa coleção podem ser encontrados para venda no saite da editora, aqui.
Sem dúvida, um livro incomum e valioso para todos os que gostam de uma boa ficção científica filosófica.

sábado, 28 de junho de 2025

Lançamento: Os filhos das estrelas; H. G. Wells

Chegou aos assinantes a edição de junho da Coleção Andarilhos, clube de assinaturas da Editora Andarilho dedicado à publicação mensal de livros de bolso de ficção fantástica clássica e inédita, de autores pouco conhecidos. 
A edição apresenta a novela de ficção científica Os filhos das estrelas (Star begotten), do famoso escritor britânico H. G. Wells (1866-1946), originalmente publicada em 1937. 
Diz o texto de apresentação: "Angustiado com o comportamento enigmático da esposa e com os rumos da humanidade, Joseph Davis se depara com uma teoria perturbadora: marcianos estariam alterando a genética humana. Obcecado, ele mergulhga em uma investigação que abala sua noção de identidade e revela verdades inquietantes sobre o futuro da espécie".
O volume tem 248 páginas, tradução de Gustavo Terranova Aversa e, junto a ele, os assinantes recebem um marcador de páginas personalizado e um adesivo magnético com os dizeres "Eu quero acreditar".
Os livros do Clube Andarilhos são comercializados inicialmente por assinaturas mas, após algumas semanas, podem ser encontrados para venda no saite da editora, aqui.

segunda-feira, 17 de junho de 2024

Lançamento: Universos peculiares, H.G. Wells

Universos peculiares
é uma coletânea de contos de fantasia e horror de um dos país da ficção científica, Herbert George Wells, autor de clássicos como A máquina do tempo e A guerra dos mundos, mas que desenvolveu trabalhos em diversas outras vertentes literárias.
Diz o texto de apresentação: "Wells também se arriscou pelo território da magia, do fantasmagórico e do horror. De uma loja mágica de brinquedos, a uma porta que leva ao passado, percorrendo por fantasmas, viajantes e um traje sobrenatural que guiará um jovem para o mais inesquecível luar de sua vida. Várias de suas primeiras histórias ficaram à sombra de suas obras mais famosas e escondem um universo inteiro para ser explorado pelos leitores. "
O volume tem 224 páginas e conta com uma equipe de tradutores formada por Regiane Winarski, Natalie Gerhardt, Carolina Rodrigues, Michele Gerhardt, Andrea Coronado, Carolina Leocadio e Marceli Hauck. 
Universos peculiares é uma publicação do selo Wish, da Darkside Books, com lançamento previsto para 15 de julho de 2024.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Lançamento: Ugh-Lomi e Uya: Uma história da Idade da Pedra, H. G. Wells

A Sociedade das Relíquias Literárias é um projeto da Editora Wish para viabilizar a tradução e publicação em ebook de textos raros de ficção fantástica internacional, resgatando assim obras desconhecidas de autores em domínio público, quase sempre inéditas em português. Uma assinatura mensal dá ao apoiador o direito de um novo ebook a cada mês, entre outras recompensas aditivas. 
A relíquia de janeiro é a novela Ugh-Lomi e Uya: Uma história da Idade da Pedra (A story os stone age, Ugh-Lomi and Uya), do escritor inglês H. G. Wells, originalmente publicada em 1897.
Considerado um dos precursores da ficção científica moderna e tendo em seu currículo obras fundadoras do gênero, como A máquina do tempo (1895), A guerra dos mundos (1898) e O homem invisível (1897), Wels aqui se volta ao passado pré-histórico da humanidade, numa ficção que se reflete em obras como e A guerra do fogo (1909), de J.-H. Rosny aîné (1856-1940) e a série O clã da Caverna do Urso (1980), de Jean M. Auel. 
Diz o texto de apresentação da obra: "Esta narrativa é de uma época além da memória da espécie humana, antes do início da história... Há 50 mil anos, em meio aos bosques, pântanos e pradarias costeando o Rio Wey, pouco se diferenciava os seres humanos dos animais selvagens habitantes da região. Em meio a conflitos tribais e ameaças constantes, Ugh-Lomi e a jovem Eudena precisam se unir para sobreviver juntos e, quem sabe, dar início a uma nova história."
O volume tem 90 páginas, tradução de Camila Fernandes e traz também a biografia do autor. A capa tem uma ilustração de Eduardo Hy Mussi.
Para fazer parte da Sociedade, basta formalizar o apoio na página do projeto, aqui.

domingo, 25 de setembro de 2016

Marte sempre ataca

Em 2016 comemoram-se os 150 anos do nascimento do escritr britânico Herbert George Wells (1866-1946), mais conhecido com H. G. Wells, considerado o pai de ficção científica, autor de grandes clássicos do gênero, como A máquina do tempo (1895), O homem invisível (1897) e A ilha do Dr. Moreau (1896), entre muitos outros. Mas seu romance mais importante é, sem dúvida, A guerra dos mundos (The war of the worlds, 1898), que recebeu recentemente das editoras Companhia das Letras/Objetiva em seu selo Suma das Letras, uma edição comemorativa extremamente bem cuidada, com tradução de Thelma Médici Nóbrega.
O luxuoso tratamento gráfico e editorial, a começar da capa dura com laminação fosca, relevo seco e papel pólen nas 312 páginas do miolo, revela sua natureza realmente especial no conteúdo, que traz um prefácio assinado por Braulio Tavares (parte dele pode ser lido no Blog da Cia das Letras), com um levantamento histórico e bibliográfico do autor, repleto de informações pitorescas, bem como a longa e igualmente instigante introdução de autoria do também britânico Brain Aldiss, outra sumidade do gênero. Mas não fica nisso. O grande diferencial da edição são os cerca de 30 desenhos de Henrique Alvim Corrêa, artista brasileiro que produziu estas artes para a primeira edição belga do romance, publicada em 1906. A edição brasileira não mantém a mesma qualidade na definição das imagens originais (que podem ser apreciadas em diversos saites na internet, basta pesquisar) mas, mesmo assim, é um privilégio poder apreciá-las na forma similar a que foram apresentadas originalmente aos leitores.
A história é bastante conhecida. Depois de esgotarem os recursos naturais de seu planeta natal, a civilização marciana empreende uma migração em massa para a Terra, com objetivo de aqui se estabelecer. Dotada de grande avanço científico e tecnológico, os invasores facilmente dominam o planeta e iniciam a transformação do ambiente para seus próprios padrões, eliminando o incômodo humano no processo. A narrativa parte do ponto de vista de um cidadão comum, morador de Winchester, na Inglaterra, que, no ano de 1894, ao lado de outros moradores locais, testemunha a aterrissagem de uma das primeiras espaçonaves marcianas, a partir de onde todo o horror começa.
Não se trata de uma história convencional dentro do subgênero das invasões que ela mesma inaugurou. É uma narrativa de horror, repleta de descrições vívidas e muita desesperança. Wells não estava ali propondo apenas uma obra de ficção para entreter adolescentes. Na época em que escreveu, esse objetivo não existia no gênero*. Tinha sim um alvo maduro e evidente, que era a política colonialista que o império britânico imprimia ao mundo de seu tempo, algo similar ao que fazem hoje os impérios neocoloniais, impondo sua presença em territórios estrangeiros à força de seu poder bélico superior. Do mesmo modo que as populações invadidas de hoje reagem com ações que o ocidente convencionou chamar de "terrorismo", em A guerra dos mundos a humanidade tenta, com seus parcos e insignificantes recursos, resistir à presença alienígena, sem qualquer efeito. A invasão é completa e irresistível, e a humanidade parece viver seus últimos dias. O que vai decretar o desfecho da história é inesperado, algo sob o qual nem homens nem marcianos detêm qualquer controle. Mais uma vez, Wells estava coberto de razão.
A edição ainda traz, em suas páginas finais, uma entrevista com o autor e o cineasta Orson Welles – cuja adaptação da obra para o rádio 1938 causou pânico nos EUA. Welles certamente ajudou a construir a fama que A guerra dos mundos tem hoje, que depois recebeu adaptações para diversas mídias, e pelos menos duas grandes produções cinematográficas em Hollywood, uma de 1953 e outra de 2005, cada qual com uma leitura própria da obra vista a partir do território americano. Na verdade, A guerra dos mundos já assume o formato de um universo compartilhado, pois há dezenas de obras que dão versões em cores locais à invasão marciana de Wells, com fatos ocorridos em paralelo ou na seuência, como na ótima noveleta "A vitória dos minúsculos", em que o escritor brasileiro Roberto de Sousa Causo narra, em estilo machadiano, a chegada dos marcianos ao Rio de Janeiro, e na novela "Não estamos divertidos", na qual o escritor português João Manuel Barreiros conta uma missão de contra-ataque da Terra a colônia marciana na Lua, que sobreviveu ao holocausto.
Ou seja, ainda que seja um clássico obrigatório, nunca foi tão oportuno adquirir, ler e reler esta que é, sem dúvida, o que se pode chamar de uma edição definitiva para A guerra dos mundos.

* O conceito de literatura segmentada só viria a ser instalado na fc no período da normatização editorial das literaturas de gênero, promovida pelo editores pulp, nos anos 1930/1940, nos EUA, com objetivos unicamente comerciais.