quinta-feira, 15 de junho de 2023

Lançamento: Barretos, homens de Livros

A  Kitembo é uma editora de São Paulo que oferece um catálogo inteiramente voltado à literatura fantástica produzida por escritores pretos. Dentre os muitos títulos que vale conhecer, está Barretos: Homens de livros, de Hedjan CS, obra premiada com o Proac 2022 da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. 
Diz o texto de apresentação: "Um escritor ativista e desafiador tenta descobrir o paradeiro de um garoto desaparecido. Ao mesmo tempo, um jornalista bem posicionado na sociedade recebe a incumbência de localizar um 'livro maldito'. Essas duas situações unem esses homens que se odeiam, respectivamente Lima Barreto e João do Rio, em uma busca perigosa pelas ruas, becos, no morro da Providência e arrabaldes do Rio de Janeiro de 1907."
Esta interessantíssima sinopse aponta para um romance de fantasia nas franjas da ficção científica, mas o que realmente instiga é saber que nele temos a chance de conviver com versões alternativas de dois grandes fantasistas brasileiros que nos legaram heranças culturais singulares.
O volume tem 312 páginas e traz ilustrações internas de Lucimara Penaforte, Will Rez e Gê Mendes. A elegante capa é assinada por Douglas Reveri.
E mais: por ser um livro financiado com fundos públicos, sua distribuição é gratuita; basta pagar o frete. Melhor que isso, impossível! 
O meu já está em mãos.

quarta-feira, 14 de junho de 2023

In trash we trust!

O blogue Intervalo Cultural Rio está promovendo uma brincadeira muito divertida entre os fãs de cinema bagaceira, e promete distribuir "brindes especialmente selecionados" entre os que participarem. 
O desafio é o seguinte: "Se você fosse convidado para dirigir um novo canal de televisão chamado Telecine Trash, que filmes indicaria  para a grade da programação?" 
Capa participante deve indicar dez títulos, de qualquer nacionalidade, com o respectivo ano de produção, enviando a lista para o email intervalo.rj@gmail.com. O prazo para as indicações vai até 30 de junho de 2023. 
Mais informações podem ser obtidas aqui

terça-feira, 13 de junho de 2023

Resenha do Almanaque: Amor vampiro

Amor vampiro
, Ednei Procópio, org. São Paulo: Giz, 2007 

Antologia com contos de dark fantasy organizada pelo editor da Giz, reunindo alguns dos mais ativos autores brasileiros que têm nos contos com vampiros o principal trabalho. O expediente informa 2007 como a data de publicação, mas só foi efetivamente publicado no início de 2008.
O livro é elegante, com uma belíssima capa assinada por Amauri Modesto de Oliveira, ótimas produção gráfica, diagramação e revisão. Em suma, uma edição que faria história em qualquer época em que fosse publicada, exceto hoje, uma vez que o mercado está saturado de histórias de vampiros. É lamentável que assim seja, porque o livro apresenta um projeto editorial consistente e os autores publicados têm experiência.
Por exemplo, Adriano Siqueira foi editor do bem sucedido saite de horror Adorável Noite, que ajudou a catalisar o gênero no Brasil. André Vianco é um dos maiores fenômenos da literatura fantástica brasileira, com muitos livros publicados, entre eles o bestseller Os sete (2001), bem recebido também pela crítica. Martha Argel podemos dizer que é uma veterana no fandom, presente desde a década de 1990 quando praticava ficção científica, até identificar-se com os vampiros e desenvolver alguns dos bons livros no tema, como o romance Relações de sangue (2002), a antologia O vampiro de cada um (2003) e o excelente O vampiro da Mata Atlântica (2009), entre outros. J. Modesto é autor do romance Trevas: Eles estão por toda parte (2006). Nelson Magrini tem em seu currículo os livros Anjo, a face do mal (2004) e Relâmpagos de sangue (2006). Regina Drummond é a mais experiente de todos, com um trabalho importante e premiado como escritora, editora e incentivadora da leitura. Giulia Moon, por sua vez, é uma das mais interessantes autoras brasileiras de vampiros, com vários livros publicados, entre eles Vampiros no espelho & Outros seres obscuros (2004), A Dama-Morcega (2006) e a série de romances com a vampira Kaori.
Dessa forma, era de se esperar que os contos publicados fossem trabalhos destacados no gênero e na bibliografia dos autores, aproveitando a ousadia que o título da antologia sugere, uma vez que os vampiros são, em sua dimensão mítica, seres deformados. Mas como se poderá perceber pela resenha a seguir, não houve muita variação e quase todas as histórias versam sobre relações entre homens e vampiras com as mais previsíveis conotações. Nenhum outro tipo de amor parece fazer parte do ideário vampírico, seja por parte do monstro seja por parte das suas vítimas, pelo menos na opinião do organizador da antologia, uma vez que alguns dos autores já mostraram visões mais interessantes nesse mesmo tema em outras oportunidades. Apesar disso, o conjunto soa harmonioso, sem que nenhum dos trabalhos publicados se destaque entre os demais.
Não parece haver um padrão na ordem dos autores, mas cada um deles forma um caderno particular, isolados entre si por uma folha decorada com grafismos e um pequeno currículo.
Adriano Siqueira abre a antologia, com três trabalhos muito curtos. O primeiro deles é “O outro lado do espelho”, com apenas três páginas é o mais breve da antologia e faz o trabalho de um diapasão para o que virá em seguida. Numa ambientação algo gótica, um vampiro satisfaz o desejo de uma bruxa que insiste ser vampirizada. Em “O dia dos vampiros”, um jovem sem sorte troca de lugar no espaço e no tempo com um vampiro que ia ser imolado séculos atrás. Enquanto o jovem azarado é sacrificado em seu lugar, o vampiro acompanha sua namorada a uma festa dedicada aos vampiros. O conto assume ser uma homenagem a 13 de agosto, o Dia do Vampiro, quando a comunidade brasileira de fãs festeja o seu objeto de desejo. O terceiro conto é “A grande chance”, no qual um adolescente apaixonado pela garota mais bonita da escola espera pela chance de se declarar. Mas ela está envolvida com um vampiro e o destino do jovem é tornar-se o prato principal da noite.
O caderno seguinte apresenta o conto “A canção de Maria”, de André Vianco. O experiente autor ousa instalar sua narrativa na Palestina dos tempos de Jesus Cristo, quando um lenhador judeu abriga em sua casa uma jovem mãe que lhe pede ajuda. Porém a mulher morre e deixa sua criança com o homem, que decide cuidar dela sozinho. Mas o fantasma da mãe parece rondar a casa com a intenção de levar também a criança, que fica cada vez mais fraca e doente. Assustado e cada vez mais desesperado, o homem abandona suas convicções religiosas e busca na feitiçaria uma forma de proteger o bebê e a si mesmo. É o conto mais diferente do livro, com uma vampira não usual e uma relação de amor triangular entre o lenhador, a jovem mãe e o bebê. Mas o conto não está bem ambientado e a Palestina romana de Vianco não soa realista. O judeu não pratica sua religião e talvez nem o seja de fato, mas ao buscar ajuda com o Nazareno, sem sucesso, dá a impressão de que fosse. A imagem burocrática que Vianco pinta de Jesus que, na sua opinião, seria agenciado por João Batista, é historicamente inconsistente e enfraquece o conto. Os resultados seriam melhores se Vianco tivesse plantado seu drama de horror diretamente na Europa medieval, com a qual se identifica mais plenamente. Apesar disso, é o melhor trabalho do livro.
A seguir, Martha Argel apresenta o conto mais longo do volume, “A flor do mal”, uma noveleta com quarenta páginas ambientada na Florença do tempo dos Médicis. Uma vampira, ao voltar de sua caçada noturna, é surpreendida por um homem em busca de vingança pela morte de um parente, mas os instintos da monstra a alertam a tempo de evitar qualquer dano, e o atacante acaba escravizado pela vampira. Surge um romance entre os dois e, mais tarde, a vampira acaba transformando seu amante numa criatura semelhante a ela. Há bons momentos no conto – especialmente os mais apimentados, que a autora domina muito bem – e a ambientação florentina é eficiente, mas faltou algo mais à história, pois os dramas emocionais dos dois vampiros não são convincentes.
J. Modesto conta duas histórias. Em “Amante notívago” um vampiro se aproveita de uma dama da nobreza enquanto seu marido não está no castelo. Este, vindo não se sabe de onde, esfalfa-se para chegar a tempo de salvar sua esposa das garras do monstro. O confronto favorece ao homem que, depois de destruir a criatura do mal, deita-se ao lado da esposa desacordada. Quando o cansaço o faz dormitar, a dama finalmente revela sua nova natureza. Em “O anjo e a vampira”, uma senhora idosa fala a seu neto adolescente sobre a paixão entre dois seres de naturezas incompatíveis. Apaixonados, anjo e vampira procuram uma bruxa que conspurca a santidade do anjo para que o casal possa satisfazer sua luxúria em segurança. Modesto é o autor menos experiente do grupo, mas suas histórias não destoam do conjunto.
“Isabella” é a contribuição de Nelson Magrini, que conta como um nerd obcecado por uma vampira arma um esquema para que ela o note e se apaixone por ele. Usando de lógica supostamente científica, o rapaz argumenta que a vampira é mais humana do que pensa e, finalmente, consegue convencê-la a se entregar a sua paixão. O texto tem problemas com repetições de palavras e aliterações, e nas primeiras páginas há uma adjetivação tão exagerada que chega a incomodar. Mas passado esse mal início, a narrativa flui melhor.
Regina Drummond participa com “A velha, o jovem e o casarão”, a aventura de um adolescente que, maltratado pela madrasta, foge de casa. Sem ter para onde ir, observa como uma velha senhora desaparece num trecho desmoronado do muro que cerca um velho casarão aparentemente abandonado, e resolve segui-la. Uma vez nos domínios do imóvel, é envolvido por energias nefastas que o impedem de se afastar. Depois de passar uma noite no casarão, finalmente se encontra com a velha, que o recebe com amabilidade. Dessa forma, o jovem decide permanecer para explorar melhor as dependências do velho solar, o que vai revelar ser um grande erro. A história, se não é original, é muito bem contada, tem um nível de estranhamento delicioso e faz uma bela homenagem aos velhos casarões assombrados. A referência ao amor vampiro é transversal e só vai materializar-se no trecho final da história, mesmo assim é preciso a participação interpretativa do leitor. A apresentação de Regina Drummond impressiona, é uma autora muito experiente, com uma sólida carreira dedicada à literatura infanto-juvenil, e é estranho que com tanto prestígio não tenha uma bibliografia mais consistente no fantástico. Certamente não é por causa de seu texto, que é irrepreensível, assim como sua criatividade, que faz de seu conto um dos melhores trechos da antologia. Talvez sua carreira literária já estabelecida seja um dificultador junto aos seus editores, e sua presença nesta coletânea inaugure uma linha alternativa de sua obra. Espero que a autora tenha a oportunidade de nos apresentar, num futuro breve, mais trabalhos voltados para o fantástico, com ou sem vampiros, pois é uma excelente escritora.
“Dragões tatuados”, de Giulia Moon, fecha a antologia com uma história que se passa no bairro da Liberdade, na capital paulista. Um rapaz tem por profissão observar e catalogar vampiros em nome de alguma organização que não é explicitada na história. Sempre muito discreto e cuidadoso, catalogou centenas dessas criaturas amaldiçoadas, mas desta vez alguma coisa não deu certo, pois ele acorda na cama de sua suíte no hotel sem lembrar dos eventos da noite anterior e com duas pequenas perfurações em seu pescoço. Na busca por respostas, ele vai se envolver com uma mulher fatal que tem por hobby tatuar dragões em suas vítimas. Giulia tem um ótimo domínio do texto e a história envolve o leitor mas, depois de tantas histórias de paixão entre homens jovens e vampiras sedutoras, acaba por ser mais um pouco do mesmo.
Fica a certeza que o organizador perdeu a chance de construir uma antologia realmente representativa do tema escolhido, pois alguns dos autores selecionados já publicaram histórias melhores nessa premissa. Quando os textos se aproximam de uma narrativa pornográfica, um pouco mais de ousadia poderia ter elevado a experiência do leitor a algo realmente emocionante – uma vez que assustadora não é – mas os contos são comedidos, juvenis, e fica a impressão de um moralismo excessivo, que não consegue pensar num amor vampiro para além do heterossexual. Uma visão mais criativa e ousada ficou assim para uma outra oportunidade.
De qualquer forma, o livro entretem e o editor nos informou que o volume teve aceitação muito boa pelos livreiros, provavelmente animados com o nome de André Vianco entre os autores, e com a excelente apresentação gráfica.

segunda-feira, 12 de junho de 2023

QI 182

Quadrinhos Independentes-QI
, editado por Edgard Guimarães, é um fanzine inteiramente dedicado ao estudo das histórias em quadrinhos, destacando a produção independente e os fanzines brasileiros. 
O número 182, referente ao período julho/agosto de 2023, tem 44 páginas e traz artigos de Alex Sampaio, E. Figueiredo, Henrique Magalhães, Lio Guerra Bocorny, Pedro José Rosa de Oliveira, Alexandre Nagado e do editor, além de quadrinhos de Manoel Dama, Henrique Magalhães, Luiz Iório, Mário Labate e do próprio Guimarães. Completam a edição as colunas "Fórum" com dezoito páginas de cartas dos leitores, "Edições independentes" divulgando lançamentos de fanzines do bimestre anterior e "Mantendo contato", de Worney Almeida de Souza. A imagem da capa vem em preto e branco na edição impressa, mas aparece em cores em um encarte para recortar e armar uma versão interativa da cena.
Junto a esta edição do QI, os assinantes receberam o 16º fascículo da série Artigos sobre Histórias em Quadrinhos, de vinte páginas, com a pesquisa de Carlos Gonçalves sobre a revista Diversões Escolares, publicada pela Editora Abril nos anos 1960. Também o primeiro fascículo da série HQ além dos balões, com oito páginas para a pesquisa de Fabio Sales sobre "Adaptações de quadrinhos para o cinema"; e ainda o suplemento de quatro páginas Quadrinhos nas mãos, registrando em imagens fotográficas o passo a passo da montagem artesanal dos livros da editora Marca de Fantasia.  
Exemplares impressos do QI e seus encartes podem ser adquiridos mediante assinatura. Mais informações, diretamente com o editor pelo email edgard.faria.guimaraes@gmail.com. Contudo, versões digitais de todas as edições, desde o primeiro número, bem como de seus encartes, estão disponibilizadas no saite da editora Marca de Fantasia, aqui, além de muitas outras publicações que vale a pena conhecer.

sábado, 10 de junho de 2023

Mystério Retrô 14

Editada por Tito Prates, a revista Mystério Retrô é um periódico literário trimestral impresso, viabilizado através de financiamento direto dos assinantes na plataforma Catarse. Sua linha editorial prioriza a literatura de mistério, mas mantém um certo flerte com os gêneros fantásticos.
Neste momento, está aberta a campanha da edição 14, que comemora quatro anos de atividade. 
A edição traz contos de Eudes Cruz, Carlos Rodrigues, Renata de Luca, Mizaki, Juliana Lino, Wesley Guilherme, Bettina Stingelin, Schleiden Nunes Pimenta, André Albuquerque, Igor Candido, Marcela Avellar, Charles Machado, além de artigos de Matheus Peixoto, João Vitor Lopes e Chrystal Siqueira.
Um dos diferenciais da Mystério Retrô no Catarse é a entrega imediata, uma vez que a revista já está impressa. 
Mystério Retrô 14 pode ser adquirido aqui. Também há ofertas para aquisição de combos e até da coleção completa.

sexta-feira, 9 de junho de 2023

Resenha do Almanaque: Trilogia Padrões de Contato, Jorge Luiz Calife

Trilogia Padrões de Contato, Jorge Luiz Calife. 648 páginas. São paulo: Devir, 2009.

Padrões de contato faz parte do restrito conjunto de títulos seminais que são lembrados em primeiro lugar quando se fala em ficção científica brasileira. Da mesma forma o seu autor, o jornalista carioca Jorge Luiz Calife, que ganhou notoriedade quando o escritor britânico Arthur C. Clarke o citou em agradecimento no seu romance 2010: Uma odisseia no espaço II (1982). Calife era seu fã e correspondente, e sugerira num esboço os contornos gerais de uma continuação a 2001: Uma odisseia no espaço (1968), abrindo as comportas para uma sequência que Clarke julgava impossível. Seja como for, 2010 foi um grande sucesso editorial e cinematográfico, lançando o nome de Calife na grande imprensa. A então muito popular revista Manchete apressou-se em publicar o esboço que Calife enviara ao famoso escritor, nomeado de "2002". Logo, as editoras se interessaram pelo que aquele desconhecido jornalista tinha a dizer e, em 1985, Padrões de contato ganhou as livrarias pela editora Nova Fronteira.
No ano seguinte, pela mesma editora, veio a sequência, Horizonte de eventos. Articulados a um conjunto de circunstâncias, os dois romances inauguraram o que ficou conhecido como Segunda Onda de ficção científica brasileira, caracterizada pela formação de um grupo de fãs organizado, pela publicação de muitos fanzines, pelo desenvolvimento de uma consciência de corpo e pela busca de identidade para ficção científica nacional, que não existia até então.
Contudo, a maior importância de Padrões de contato/Horizonte de eventos é que se tratou da primeira ficção científica hard nacional na qual os conceitos de astronomia e astronáutica foram tratados de forma precisa e rigorosa. A ficção científica brasileira tinha enfim o seu representante hard fiction e isso inspirou muita gente a seguir-lhe os passos.
Mas naquele final de século não era fácil publicar um livro e a maior parte da produção da Segunda Onda estava apoiada nos fanzines, com os quais Calife, mesmo depois de seus romances publicados, não se furtou em colaborar. Vários contos no mesmo universo do romance foram neles impressos. Em 1991, Calife ainda veria publicado um terceiro volume da série: Linha terminal, pela legendária editora GRD, com uma tiragem tão minúscula que, na prática, circulou apenas dentro dos muros do fandom.
Em 2009, próximo do momento em que Padrões de contato completaria 25 anos de publicação, a Devir reuniu os três romances em um único volume e recuperou para o público esta que é conhecida como a primeira trilogia da ficção científica brasileira, ainda que eu, particularmente, discorde desse título. Afinal de contas, Calife não construiu uma trilogia, ele apenas publicou três livros, que podem ser mais se as editoras assim quisessem. Padrões de contato é, de fato, uma série aberta, um universo recorrente do autor que comporta, além desses três livros, uma boa quantidade de contos e noveletas publicadas ao longo dos anos em fanzines e antologias, incluindo ainda um quarto romance, Angela entre dois mundos, publicado em 2010 pela mesma editora.
A Devir fez um bom trabalho na compilação, que foi totalmente revisada e premiada com a belíssima capa de Vagner Vargas, que também executou ilustrações para a abertura interna de cada livro. O volume conta ainda com um prefácio do jornalista Marcello Simão Branco.
O primeiro livro, "Padrões de contato", está divido em quatro partes distintas. A primeira delas, intitulada "Estrela cadente (2426 AD)", narra o primeiro contato de um ser humano com a inteligência alienígena Tríade, na pessoa de Angela Duncan que, por isso, é agraciada com a juventude eterna. Desde então, Angela torna-se uma personalidade mundial numa Terra futura na qual a ciência respondeu a todas as dúvidas e acabou com todos os problemas da sociedade. Enquanto inteligências artificiais governam a civilização e grandes corporações lutam pelo domínio do espaço, a humanidade é sacudida pelas revelações apocalípticas de uma sonda alienígena vinda do espaço profundo.
Na segunda parte, "Luzes do abismo (2560 AD)", as inteligências artificiais foram literalmente para o espaço e uma geração pós-humana reforçada com todo tipo de upgrades biotecnológicos, pretende seguir o mesmo caminho. A imortal Angela vive numa estação instalada na atmosfera de Júpiter, onde os cientistas tentam contatar uma sociedade alienígena que ali reside.
Em "Fuga da eternidade (2701 AD)", a Tríade volta a Terra e absorve uma parte da humanidade que se preparara para isso voluntariamente. Sem mais nada de útil para fazer, um grupo de homens e mulheres requisitam uma espaçonave para também meter-se para sempre no espaço sideral.
"A filha dos deuses (3002 AD)" completa o livro. A bordo de uma espaçonave repleta de alienígenas em missão de pesquisa num buraco negro, Angela finalmente volta a se encontrar com a Tríade, que lhe revela o motivo de ter lhe dado vida, juventude e beleza eternas.
O segundo livro, "Horizonte de eventos", divide-se em três partes. A primeira, a melhor de toda a trilogia, é "Choque cultural", em que Angela Duncan e a também imortal jornalista Luciana Vilares viajam à bordo do mundo artificial Éden 6, a caminho do núcleo da galáxia. A certa altura encontram a Brasil, uma antiga espaçonave terrestre perdida. Lançada no século XXII, a Brasil usava uma tecnologia primitiva, viajando no espaço tridimensional em velocidades próximas à da luz, de modo que a tripulação só envelhecera duas décadas em oitocentos anos de viagem. A tripulação era formada por colonizadores brasileiros em busca de um planeta selvagem, mas um acidente no percurso os tirara da rota, levando ao poder uma guarnição de militares diretamente inspirados na nossa ditadura, que ali governavam com mão de ferro.
"Os dois lados do amanhã" é um típico período de interregno. Superados os problemas com a Brasil, Éden 6 segue sua jornada ao centro da galáxia, onde pretende encontrar-se com a Tríade. Dafne, neta de Angela e igualmente imortal, pesquisa alienígenas globulares e Luciana, na companhia de Fernando – um dos sobreviventes da Brasil – viajam à Terra para pesquisar as fichas dos náufragos, que deviam subexistir nos antigos registros preservados em velhíssimos bancos de memória.
"Horizonte de eventos" conclui este segundo livro. Lena, filha de Dafne, não herdou da mãe a dádiva da juventude eterna. Como todo o resto da humanidade, ela também vive no espaço sideral em constante trabalho de pesquisa científica. A expedição em que Lena participa a leva a expôr-se a uma desconhecida raça alienígena, os nictianos, que se revelam de natureza parasitária e invadem os corpos dela e de toda a equipe. Com a mente controlada pelos nictianos, Lena e seus companheiros atacam Éden 6, num mortal jogo de gato e rato em meio às estrelas do núcleo da galáxia.
"Linha terminal" fecha a trilogia retomando personagens e situações que haviam aparecido no primeiro livro e não tinham sido lembrados no segundo. Os pesquisadores descobrem uma antiga espaçonave terrestre orbitando um estranho planeta. Ali encontram evidencias da presença antiga dos djestares, civilização galáctica desaparecida que criou a Tríade. Enquanto isso, Angela Duncan, com recursos da Grande Comunidade Galáctica, passou as últimas décadas dedicada a construir uma enorme máquina do tempo, através da qual volta a época em que os djestares ainda existiam para descobrir uma forma de recuperar a saúde da Tríade, que está morrendo. Por acaso, a época em questão é justamente os anos 1980 e o local em que ela pretende encontrá-los é justamente o litoral do Rio de Janeiro.
A narrativa de Calife é equilibrada, com bons diálogos e ritmo agradável, sem vales profundos ou montanhas íngremes: o leitor passeia tranquilo e sem sobressaltos. Mas a reunião dos três romances tornou a leitura um fardo difícil de carregar. Primeiro, por causa do peso de suas quase 700 páginas que, se não estiver bem apoiado, em poucos minutos faz doer os braços mais musculosos. Depois, porque os romances foram escritos para serem lidos separadamente. Justapostos, tornam-se cansativos e redundantes. A falta de uma linha narrativa principal confunde o leitor que, quando chega ao meio do livro, já não se lembra mais do que aconteceu no início.
Irrita também a insistência do autor em convencer seus leitores da não existência de Deus, pois o romance em si já seria suficientemente eloquente. Volta e meia, os alter-egos femininos do autor lascam um discurso antignóstico que beira o panfletário. A revisão bem poderia ter removido essas partes que, além de não fazerem falta nenhuma no enredo, empanam o brilho do que poderia ter sido uma perfeita peça de proselitismo ateu. Não que eu concorde necessariamente com a crença do autor mas pelo menos o livro, como peça literária, teria subido alguns pontos na minha avaliação.
A falta de conflitos importantes e a fragilidade das personagens principais, todas muito parecidas, também enfadam o leitor que, na maior parte do tempo, depende unicamente das elaboradas descrições de imagens cósmicas para sustentar o interesse.
Quando Calife encontra um bom conflito para explorar, como é o caso do acidente de Angela nas nuvens de Júpiter (em Padrões de contato) e o conflito entre o mundo artificial Éden 6 e a totalitária Brasil (em Horizonte de eventos), o texto ganha fôlego e a leitura progride com vigor. Mas os problemas são rapidamente superados e o curso narrativo logo volta ao ritmo de cruzeiro, pacífico e preguiçoso.
Mas que não fiquem dúvidas: Jorge Luiz Calife e Padrões de contato merecem todas as homenagens que lhe cabem. Trata-se de uma obra pioneira em vários aspectos, com belíssimas e inspiradoras descrições de maravilhas do espaço profundo, coisa em que Calife é sem dúvida, imbatível.

quinta-feira, 8 de junho de 2023

Resenha do Almanaque - Steampunk: Histórias de um passado extraordinário

Steampunk: Histórias de um passado extraordinário, Gianpaolo Celli, org. 182 páginas. São Paulo: Tarja, 2009.

Os fãs gostam de estar antenados com as ondas estrangeiras, especialmente dos EUA e Reino Unido. Assim também são autores-fãs, que acreditam que explorar novos ambientes e novos instrumentos narrativos é o melhor atalho para a criação de algo novo, sendo esse valor suficiente por si mesmo. Antes mesmo da habilidade técnica, o autor-fã acredita na originalidade e sobre ela costuma ser muito ciumento. Dessa forma, as ondas do cyberpunk, do new weird e do steampunk chegaram aos fanzines muito mais rapidamente que a qualidade narrativa dos autores, reverenciadas como aspectos da originalidade desejada. Essa falta de maturidade técnica acaba impedindo que a maior parte dos autores compreenda profundadamente o que esses movimentos significam em toda a sua amplitude e acabem por adotar apenas seus aspectos mais óbvios, não raro criando modelos que, ao fim e ao cabo, são mais cerceadores que libertadores.
Dessa forma, o cyberpunk foi emulado pelos fãs brasileiros unicamente pela presença intensiva da virtualidade e de uma linguagem forrada de jargões tecnológicos; o new weird transformou-se tão somente na mistura de gêneros estilo "tudo ao mesmo tempo agora". O steampunk, enfim, foi estigmatizado pelos cenários vitorianos com tecnologias imaginárias ou extrapoladas. E, assim sendo, o steampunk sequer é novidade. Afinal, essas características já estavam presentes nos primórdios da ficção científica. Os cenários são os mesmos que vemos nos primeiros textos de ficção científica de Edgar Allan Poe, Júlio Verne, H. G. Wells e seus contemporâneos. Então, por que isso agora?
Desde os anos 1990, especialmente no Brasil, os leitores progressivamente desinteressaram-se pelas promessas do futuro e voltaram-se para o passado: romances históricos, fantasia medieval e horror gótico passaram a ser o tipo de leitura comercialmente melhor sucedida. A ficção científica acompanhou a tendência justamente com o steampunk, encampando o romance histórico a partir da história alternativa – que pode aproveitar personagens reais – e da ficção alternativa, na qual são emprestados os personagens de ficção em domínio público, como Sherlock Holmes, Allan Quartermain e Drácula.
A editora Tarja, gerenciada por jovens escritores de ficção fantástica, decidiu assumir o subgênro e reuniu nove trabalhos inéditos na que propôs ser a primeira antologia steampunk da ficção brasileira, organizada por Gianpaolo Celli sob o título de Steampunk: Histórias de um passado extraordinário. Ainda que seguindo o mesmo princípio derivativo que historicamente caracteriza a ficção científica brasileira, o livro logrou ser um dos melhores momentos do gênero em 2009. Autores experientes deram ao volume o estofo necessário para agradar aos leitores exigentes, e os autores estreantes revelaram uma qualidade acima da média das antologias publicadas.
O conto que abre a antologia é "O assalto ao trem pagador", assinado pelo seu organizador, Gianpaolo Celli. Na virada do século XIX, três pesquisadores de aerostatos, cada um deles representante de uma sociedade secreta que manipula os destinos do mundo, criam um dirigível especial para roubar o carregamento de ouro de um trem superarmado. Apesar da boa narrativa, a moral da história é discutível e os personagens esquemáticos não evocam a simpatia do leitor.
Em seguida encontramos "Uma breve história da maquinidade", do experiente tradutor Fabio Fernandes que, em 2009, também publicou Os dias da peste, seu primeiro romance pela mesma Tarja Editorial. O autor mergulha na ficção alternativa, emprestando de Mary Shelley o Doutor Victor Frankenstein que, depois do fracasso com a criatura de carne, decide construir homens de metal. Associado a outros notáveis, cria uma fábrica de robôs e muda os caminhos da civilização do início do século XIX, colocando um serviçal robótico na casa de cada família. Com o passar dos anos, as máquinas ganham consciência e passam a reivindicar seus direitos civis, algo similar à clássica peça R.U.R., do escritor tcheco Karel Capec, não obtém contudo a mesma eficiência dramática.
"A flor de estrume" é a estreia do jornalista Antonio Luiz M. C. Costa como escritor. A história se passa em São Paulo, no início do século 20, em uma realidade em que os povos nativoamericanos não foram extintos e desenvolveram alta tecnologia. Um espião europeu tenta roubar do Instituto Butantã um produto recém-desenvolvido: a penicilina. O conto abusa de termos tupi-guaranis e investe no detalhamento dos cenários, construindo imagens pungentes que inserem o leitor nesse ambiente exótico com grande eficiência, mas abandona a história em si. O ambiente minucioso contrastado com um conflito ligeiro deixa impressão de uma história que terminou antes da hora, que pede para ser estendida.
"A música das esferas" também é estreia do autor Alexandre Lancaster. Um jovem prodígio em tecnologia envolve-se no que parece ser um caso de assassinato. Junto a um policial de técnicas pouco ortodoxas, enfrentam os riscos de uma descoberta científica muito perigosa. A primeira metade do conto é perfeita, com personagens bem montados e um mistério instigante a ser resolvido mas, na busca por uma narrativa intensa, a conclusão se vulgariza num show hollywoodiano de fogos de artifício. Ficou a sensação de ser o primeiro de uma série.
"O plano de Robida: Un voyage extraordinaire" é o texto mais longo do livro. Assinado pelo experiente Roberto de Sousa Causo que, em 2009, também publicou o romance Um anjo de dor, pela editora Devir Livraria, conta uma bem urdida aventura que mescla ficção e história alternativas. A bordo de um dirigível, um comando militar, acompanhado de um alternativo Alberto Santos Dumont, ataca forças terroristas internacionais acampadas na selva brasileira. Capturados, confrontam Robert Robida, o líder dos terroristas, que pretende tornar-se o senhor do mundo dominando tecnologias modernas e conhecimentos tão antigos quanto a civilização humana. O conto dialoga claramente com o romance Robur, o conquistador, de Júlio Verne, mas Causo mudou o nome do vilão provavelmente em homenagem ao importante ilustrador dos livros de Verne, Albert Robida (1848-1926). Também homenageia os romances de mundo perdido dos primórdios da ficção científica brasileira, como Amazônia misteriosa (1925) de Gastão Crulz e A cidade perdida (1948) de Jerônymo Monteiro. Uma verdadeira new weird, com dinamismo e conflitos em doses certas. A conclusão em aberto sugere uma sequência.
"O dobrão de prata", de Claudio Villa, escapa um tiquinho do formato geral dos demais contos da antologia, pois investe no terror sobrenatural ao invés da ficção científica. Um pesquisador acadêmico embarca numa aventura marítima em busca de um tesouro naufragado. Conto simples, que busca o estilo de H. P. Lovecraft.
A convencionalidade do conto de Villa valoriza ainda mais a sofisticação do texto seguinte, "Uma vida possível atrás das barricadas", de Jacques Barcia, o melhor texto do livro, candidato às listas de melhores contos da ficção científica brasileira. Um estranho casal – um robô e uma golem – foge para onde sabe que conseguirá ajuda para gerar um filho. Mas o local enfrenta uma revolução trabalhista e a guerra é um perigo contínuo. Uma história forte, com personagens interessantes e narrativa vigorosa e criativa. Contudo – e isso não é demérito algum – está mais para cyberpunk do que para steampunk, sem fazer uso das convencionalidades de nenhum dos dois subgêneros.
Em "Cidade phantástica", de Romeu Martins, o personagem principal é um super-edifício onde um delegado investiga os desdobramentos de um sequestro. As muitas citações podem agradar aos que gostam de caçar detalhes.
Flávio Medeiros fecha a seleta com "Por um fio", deliciosa homenagem à obra de Júlio Verne – sempre ele – contando o confronto de seus dois sociopatas favoritos, Nemo e Robur, cada qual em seu veículo de guerra característico num combate até a morte. Ecoa também A raposa do mar (The enemy bellow, 1957), longa metragem que narra uma dramática batalha entre um couraçado americano e um submarino alemão.
Numa avaliação geral, a qualidade da antologia está acima da média, equilibrada e bem editada. Peca apenas pela falta de originalidade, já que a proposta é, sem nenhum pudor, emular um subgênero da moda. Já se vê por aí grupos de fãs fantasiados de Bat Masterson, de colete, polainas, bengala e chapéu coco, tentando implementar, tal como os fãs de Star Trek, um estilo de vida steampunk.
Não há nisso, portanto, muito mérito, pois não se percebeu empenho dos autores, exceção feita a Jacques Barcia, em fugir dos paradigmas mais evidentes do steampunk. A recorrência aos aerostatos e a Júlio Verne mostra que ou os autores tiveram dificuldade em visualizar alternativas para o ambiente ou simplesmente não se empenharam em desdobrar o modelo em algo mais original.
A editora Tarja encerrou suas atividades em 2013, sem efetivar a publicação de um prometido segundo volume da antologia, que chegou a ser anunciado em diversas fanpages ligadas ao tema. Contudo, lançou outros títulos que com ela dialogam, como a antologia Retrofuturismo, publicada em 2013 com contos de proposta algo mais ampla. Contudo, a mais importante herança da antologia Steampunk foi a enorme quantidade de antologias similares que a ela se seguiram por várias outras editoras, que ainda repercutem no fandom brasileiro.