Impresso no Brasil: Dois séculos de livros brasileiros, Aníbal Bragança e Márcia Abreu, orgs. 664 páginas. São Paulo: Editora UNESP, 2011.
Em 1944, o escritor argentino Jorge Luiz Borges publicou na antologia Ficções o conto "A biblioteca de Babel". Nessa fantástica biblioteca imaginária, os pesquisadores encontram, perfeitamente alinhados em estantes idênticas e intermináveis, um exemplar de cada livro possível de ser escrito com as combinações dos dígitos dos quais dispomos para registrar nossas ideias. Ou seja, entre muitas obras ilegíveis também estariam ali todos os livros do mundo, de todos os tempos e culturas. Entre muitas leituras possíveis, Borges sublimou ali um intenso maravilhamento frente ao mercado livreiro e à imponderabilidade de suas gigantescas tiragens e variedade.
No romance Poeira: Demônios e maldições, de Nelson de Oliveira, publicado em 2010 pela editora Língua Geral e vencedor do prêmio Casa de Las Americas, um bibliotecário surta quando livros começam a brotar por todos os lados, numa volúpia que inviabiliza a sua devida classificação.
Ambas são ficções recheadas de espanto perante a importância do livro para a civilização. O fabuloso é a argamassa da ficção fantástica, está sempre lá. Por isso, quando se quer ser surpreendido, nada melhor que abrir um livro de ficção.
Mas isso também pode acontecer com um texto de não-ficção acadêmico?
Pode. Um exemplo disso é a antologia de ensaios Impresso no Brasil: Dois séculos de livros brasileiros, organizada por Aníbal Bragança e Márcia Abreu, publicada em 2010 pela Editora UNESP e Fundação Biblioteca Nacional, comemorando os 200 anos da instalação da Impressão Régia no Brasil. Em 2011, este trabalho editorial foi agraciado pela Câmara Brasileira do Livro com o Prêmio Jabuti, na categoria Comunicação.
Geralmente, as publicações acadêmicas têm um viés tão específico e rigorosamente formatado aos padrões escolásticos que pouco ou nenhum prazer dão ao leitor leigo. São compêndios de conceitos científicos, com uma linguagem difícil e jargões impenetráveis. Contudo, enquanto conta a história da indústria editorial brasileira, a leitura desta antologia revela, como em Borges e Oliveira, um ambiente deliciosamente espetacular, nas franjas do fantástico e do mitológico.
Os organizadores têm ampla autoridade do assunto. Aníbal Bragança é português, mas tem toda a sua atividade acadêmica no Brasil. É Doutor em Ciência da Comunicação pela Universidade de São Paulo, docente da Universidade Federal Fluminense, Coordenador-Geral de Pesquisa e Editoração da Fundação Biblioteca Nacional. É autor de Livraria ideal: Do cordel à bibliofilia (Com-Arte/Edusp, 2009), entre outros livros.
Márcia Abreu é professora do Departamento de Teoria Literária do IEL–UNICAMP, com doutorado em Teoria e História Literária na mesma Universidade, e pós-doutorado em História Cultural na Ecole des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris. É autora dos livros Histórias de cordéis e folhetos (Mercado de Letras/ALB, 1999), Os caminhos dos livros (Mercado de Letras/ALB/FAPESP, 2003) e Cultura letrada: Literatura e leitura (UNESP, 2006), entre outros.
Impresso no Brasil tem a introdução do imortal da Academia Brasileira de Letras, José Mindlin (1914-2010), e em suas 664 páginas reúne 35 ensaios de autores diferentes, divididos em duas partes. A primeira, chamada "Uma nova história editorial brasileira: editores, tipógrafos e livreiros" trata da história das editoras no país. É a parte mais volumosa do livro, composta por 22 ensaios. O primeiro é de autoria do próprio Aníbal Bragança, que vai buscar os precursores da tipografia no Brasil, António Isidoro da Fonseca e Frei José Mariano da Conceição Veloso, ainda no século 18, e os motivos pelo qual seu trabalho foi interrompido por um decreto do Rei de Portugal que, por longo tempo, interditou o funcionamento de qualquer tipografia na colônia, até a instalação da Família Real aqui em 1808 e a criação da Impressão Régia.
Em seguida, Márcia Abreu trata dos primeiros livros impressos no Brasil, sendo que a estudiosa identifica O diabo coxo: Verdades sonhadas e novelas da outra vida (1707), do escritor francês Alain-René Lesage, como o primeiro deles, traduzido em 1810.
Nos capítulos seguintes, a história do livro brasileiro desdobra-se nos ensaios de um grupo selecionadíssimo de pesquisadores acadêmicos. Eliana de Freitas Dutra aborda a Editora Garnier, Alessandra El Far comenta a moda das edições baratas do fim do século 19, Marcia de Paula Gregorio Razzini insere na história as publicações didáticas que caracterizaram o início da indústria livreira paulista.
O ensaio mais empolgante do volume é o de Cilza Bignotto, "Monteiro Lobato: Editor revolucionário?", que conta como esse conhecido intelectual das letras montou a primeira rede distribuidora de livros no país.
Outra personalidade importante da nossa indústria livreira tratada neste trabalho é Ênio Silveira, da Editora Civilização Brasileira, cuja característica revolucionária, ao contrário de Lobato, não é questionada pelos ensaístas Guilherme Cunha Lima e Ana Sofia Mariz.
Já o ensaio de Gabriella Pellegrino Soares é inteiramente dedicado aos irmãos Weiszflog, fundadores da Editora Melhoramentos. Editoras que também mereceram atenção em ensaios específicos foram Companhia Editora Nacional (por Maria Rita de Almeida Toledo), Editora Abril (por Mateus Henrique de Faria Pereira) e Companhia das Letras (por Teodoro Koracakis). Outras tantas foram abordadas de forma mais genérica, em ensaios dedicados às editoras pequenas e médias (por Marília de Araújo Barcellos), editoras universitárias (por José Castilho Marques Neto e Flávia Garcia Rosa) e editoras regionais em Pernambuco (Denis Antônio de Mendonça Bernardes), Paraíba (Socorro de Fátima Pacífico Barbosa), Bahia (Luis Guilherme Pontes Tavares e Flávia Garcia Rosa) e Rio Grande do Sul (Elisabeth W. Rochadel Torresini).
Há ainda ensaios sobre a visualidade e tipologia dos livros nos séculos 19 e 20 (Isabel Cristina Alvez da Silva Frade), sobre a censura aos livros durante a ditadura militar (Sandra Reimão) e sobre a evolução do mercado editorial entre 1995 e 2006 (Fábio Sá Earp e George Kornis).
Dois ensaios destacam-se fechando esta primeira parte, por abordarem assuntos um tanto mais coloridos: Antonio Hohlfeldt trata das publicações dedicadas às crianças, citando O Tico-Tico, Sesinho, Suplemento Juvenil e Edição Maravilhosa, além de autores como Lobato, Viriato Corrêa, Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, Lygia Bojunga Nunes, Ana Maria Machado, Ziraldo e Maurício de Sousa, entre outros. O ensaio de Silvia H. S. Borelli é especialmente dedicado a analisar o fenômeno Harry Potter, série de livros infanto-juvenis de autoria da escritora britânica J. K. Rowling, a partir do seu desempenho no mercado europeu, com amplo espaço argumentativo conduzido por Humberto Eco, ferrenho defensor da série.
A segunda parte, intitulada "Cultura letrada no Brasil: autores, leitores e leituras" faz um levantamento histórico e geográfico das bibliotecas, salas de leitura, comunidades de leitores, organizações de autores, e trata também da obra de alguns deles.
Minas Gerais recebe a atenção nos ensaios de Luiz Carlos Villalta e Christianni Cardoso Morais, sobre as bibliotecas privadas, e de Francisca Izabel de Oliveira Galvão sobre as histórias de Lili. Marisa Midori Deaecto faz um levantamento das instituições de leitura em São Paulo, Sandra Jatahy Pesavento investiga a vida literária em Porto Alegre, enquanto Felipe Matos faz o mesmo em Florianópolis, e Maria Luiza Ugarte Pinheiro, em Manaus. A Coleção Eurico Facó recebe a atenção de Giselle Martins Venancio, e Marcello Moreira estuda a nacionalização das letras da América portuguesa.
Os trechos mais emocionantes, contudo, estão nos ensaios de Lúcia Maria Bastos P. Neves e Tania Maria Bessone da Cruz Ferreira, sobre o direito autoral no Brasil do século 19, que é muito revelador sobre a tradição nacional de não respeitar esse princípio jurídico.
João Paulo Coelho de Souza Rodrigues recupera a história da Academia Brasileira de Letras, e Ana Maria de Oliveira Galvão trata do sempre bem vindo tema da literatura de cordel.
Fecham o volume os ensaios de Maria Tereza Santos Cunha, sobre a literatura erótica de Corin Tellado e Carlos Zéfiro, enquanto Richard Romancini avalia a obra de Paulo Coelho e seus predecessores.
Ficou faltando, entretanto, um capítulo que avaliasse o impacto das novíssimas tecnologias, especialmente as publicações virtuais, na arte literária, na indústria editorial e no hábito da leitura, visto que esta é certamente a mais significativa revolução editorial no país desde a instalação da Impressão Régia em 1808.
Mesmo sendo um estudo robusto e minucioso, Impresso no Brasil: Dois Séculos de Livros Brasileiros é uma leitura agradável e surpreendentemente leve, com temas variados que atraem a atenção de uma vasta gama de leitores, não apenas acadêmicos, mas de todos aqueles que trabalham com os livros, seja em bibliotecas, livrarias, editoras, comunidades de leitura e até mesmo do público leigo apaixonado pelos livros e por sua história. Provavelmente porque os próprios autores também sejam apaixonados por esses objetos prosaicos considerados por muitos como tecnologicamente ultrapassados, mas que, um por um, compõe uma Babel nacional que nem mesmo uma fabulação de Borges ou de Oliveira poderia retratar completamente.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2019
Velta só para maiores
Emir Ribeiro saca rápido e lança Velta 2019 logo na primeira quinzena do ano. Trata-se de uma edição muito importante na mitologia da conhecida super heroína dos quadrinhos nacionais alternativos, pois dá conclusão a um longo arco de histórias iniciado ainda nos anos 1980.
A edição tem 36 páginas e publica a hq "Objetivo atingido". Diz a sinopse: "No planeta gelado, está terminando a estadia de Velta, Doroti, Denise e a Kátia de outro universo; enquanto na Terra, a robótica Nova descobre um meio de se tornar mais humana mas não menos forte".
A história traz uma Velta extremamente tórrida, tanto que é desaconselhada para menores de idade. Mesmo os fãs históricos da personagem, já acostumados às ousadias do autor, vão se surpreender com a volúpia da edição.
Velta 2019 é uma publicação da Atomic Quadrinhos e pode ser encomendada aqui.
A edição tem 36 páginas e publica a hq "Objetivo atingido". Diz a sinopse: "No planeta gelado, está terminando a estadia de Velta, Doroti, Denise e a Kátia de outro universo; enquanto na Terra, a robótica Nova descobre um meio de se tornar mais humana mas não menos forte".
A história traz uma Velta extremamente tórrida, tanto que é desaconselhada para menores de idade. Mesmo os fãs históricos da personagem, já acostumados às ousadias do autor, vão se surpreender com a volúpia da edição.
Velta 2019 é uma publicação da Atomic Quadrinhos e pode ser encomendada aqui.
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quinta-feira, 10 de janeiro de 2019
Fractais tropicais
Lançada ainda em 2018, mais exatamente no dia 19 de dezembro, pela editora SESI-SP, a antologia Fractais tropicais propõe ser um panorama representativo da aventura de produzir literatura de ficção científica no Brasil a partir do elencamento de seus principais textos na opinião do organizador, o também escritor Nelson de Oliveira. Conhecido como importante antologista das recentes gerações de escritores no Brasil nos livros Geração 90 e Geração Zero Zero, assim como por seus próprios trabalhos, como os premiados O filho do crucificado e Poeira: Demônios e maldições, entre outros, Oliveira também se tornou ele mesmo um autor de ficção científica, gênero que observa ser a alternativa mais favorável à crise de criatividade da literatura brasileira.
Do alto de suas 496 páginas, Fractais tropicais posta-se como pedra fundamental para um cânone da fc nacional, pois faz um levantamentos técnico, estilístico e histórico do gênero a partir das "Ondas" de autores vinculados ao movimento dos fãs (fandom), conceito consagrado entre os estudiosos do gênero. Dessa forma, o volume se divide em três partes correspondendo a cada uma das ondas, apresentadas em ordem cronológica inversa, ou seja, iniciando pela terceira e voltando no tempo, como numa viagem ao passado, o que faz todo o sentido num livro de fc.
Dessa forma, o volume se inicia com a "Terceira Onda", formada pelos autores que exercitam o gênero a partir do estabelecimento das redes sociais da internet na virada para o século 21, com textos de Cristina Lasaitis, Ana Cristina Rodrigues, Lady Sybilla, Cirilo Lemos, Alliah; Santiago Santos, Márcia Olivieri, Andréa del Fuego, Luiz Brás (heterônimo do próprio organizador), Ademir Assunção, Tibor Moricz e Ronaldo Bressane.
Na "Segunda Onda", também chamada de Geração dos Fanzines, aparecem os autores que produziram seus trabalhos ao longo dos anos 1980 e 2000 nas páginas das publicações independentes – período em que o gênero não tinha nenhum espaço no mercado formal –, dentre os quais Oliveira selecionou textos de Braulio Tavares, Ivanir Calado, Carlos Orsi, Lucio Manfredi, Fabio Fernandes, Ataíde Tartari, Finísia Fideli, Gerson Lodi-Ribeiro, Jorge Luiz Calife, Roberto de Sousa Causo, Ivan Carlos Regina, Octávio Aragão e Fausto Fawcett.
Finalmente, a "Primeira Onda", com uma seleta de autores clássicos publicados nos anos 1960 e 1970: André Carneiro, Dinah Silveira de Queiroz, Fausto Cunha, Jeronimo Monteiro e Rubens Teixeira Scavone. Poderia continuar ainda mais ao passado, recuando à era pré-fandom que tem exemplos importantes desde o século 19, mas isso por certo enfraqueceria os objetivos mais imediatos do volume.
Percebe-se que, ainda que o organizador tenha se empenhado em dar alguma representatividade aos gêneros, sempre, e ainda hoje, predomina a presença masculina entre os autores. Embora nos demais gêneros da literatura fantástica, como a fantasia e o terror, haja uma presença feminina mais expressiva, e a Terceira Onda realmente mostre um aumento na variedade autoral, a fc continua sendo o Clube do Bolinha da literatura, fantástica, e esse será um panorama difícil de mudar, pois os protocolos do gênero, estabelecidos nos anos 1940 e 1950 nas revistas pulp americanas, privilegiavam o público adolescente masculino.
Outras análises podem ser obtidas, mas é conveniente deixá-las para outra oportunidade. O importante agora é destacar que, com Fractais tropicais, a ficção científica dá um passo importante em direção ao estabelecimento de um campo respeitável na literatura nacional.
Do alto de suas 496 páginas, Fractais tropicais posta-se como pedra fundamental para um cânone da fc nacional, pois faz um levantamentos técnico, estilístico e histórico do gênero a partir das "Ondas" de autores vinculados ao movimento dos fãs (fandom), conceito consagrado entre os estudiosos do gênero. Dessa forma, o volume se divide em três partes correspondendo a cada uma das ondas, apresentadas em ordem cronológica inversa, ou seja, iniciando pela terceira e voltando no tempo, como numa viagem ao passado, o que faz todo o sentido num livro de fc.
Dessa forma, o volume se inicia com a "Terceira Onda", formada pelos autores que exercitam o gênero a partir do estabelecimento das redes sociais da internet na virada para o século 21, com textos de Cristina Lasaitis, Ana Cristina Rodrigues, Lady Sybilla, Cirilo Lemos, Alliah; Santiago Santos, Márcia Olivieri, Andréa del Fuego, Luiz Brás (heterônimo do próprio organizador), Ademir Assunção, Tibor Moricz e Ronaldo Bressane.
Na "Segunda Onda", também chamada de Geração dos Fanzines, aparecem os autores que produziram seus trabalhos ao longo dos anos 1980 e 2000 nas páginas das publicações independentes – período em que o gênero não tinha nenhum espaço no mercado formal –, dentre os quais Oliveira selecionou textos de Braulio Tavares, Ivanir Calado, Carlos Orsi, Lucio Manfredi, Fabio Fernandes, Ataíde Tartari, Finísia Fideli, Gerson Lodi-Ribeiro, Jorge Luiz Calife, Roberto de Sousa Causo, Ivan Carlos Regina, Octávio Aragão e Fausto Fawcett.
Finalmente, a "Primeira Onda", com uma seleta de autores clássicos publicados nos anos 1960 e 1970: André Carneiro, Dinah Silveira de Queiroz, Fausto Cunha, Jeronimo Monteiro e Rubens Teixeira Scavone. Poderia continuar ainda mais ao passado, recuando à era pré-fandom que tem exemplos importantes desde o século 19, mas isso por certo enfraqueceria os objetivos mais imediatos do volume.
Percebe-se que, ainda que o organizador tenha se empenhado em dar alguma representatividade aos gêneros, sempre, e ainda hoje, predomina a presença masculina entre os autores. Embora nos demais gêneros da literatura fantástica, como a fantasia e o terror, haja uma presença feminina mais expressiva, e a Terceira Onda realmente mostre um aumento na variedade autoral, a fc continua sendo o Clube do Bolinha da literatura, fantástica, e esse será um panorama difícil de mudar, pois os protocolos do gênero, estabelecidos nos anos 1940 e 1950 nas revistas pulp americanas, privilegiavam o público adolescente masculino.
Outras análises podem ser obtidas, mas é conveniente deixá-las para outra oportunidade. O importante agora é destacar que, com Fractais tropicais, a ficção científica dá um passo importante em direção ao estabelecimento de um campo respeitável na literatura nacional.
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quarta-feira, 9 de janeiro de 2019
O corvo e suas traduções
O corvo e suas traduções, Ivo Barroso, org. 153 páginas. São Paulo: Editora Leya, 2012.
A poesia é um grande mistério e, a princípio, parece fácil versejar. Afinal, os poetas o fazem com tanta naturalidade que parece ser um dom genético ou uma inspiração vinda diretamente dos deuses. As vezes, essa inspiração realmente emerge de um estado de consciência alterada por alguma patologia psicológica, pelo uso de drogas ou por um delírio criativo que nem o próprio autor sabe explicar. Contudo, também pode ser fruto de planejamento, apoiado em uma exaustiva atividade intelectual.
A crítica tende a desvalorizar o trabalho artístico obtido a partir de métodos científicos, por isso muita gente não gostou quando um dos mais importantes escritores da língua inglesa, o poeta "louco" Edgar Allan Poe (1809-1849) explicou, no ensaio "A filosofia da composição" (1846), o passo a passo que cumpriu para chegar ao resultado absolutamente incomparável de seu poema mais ilustre, "O corvo" ("The raven"), escrito em 1845.
Parece mesmo um tanto anticlimático olhar o poema a partir de seus bastidores, uma vez que o efeito, quando visto sob os holofotes da ribalta, se apresenta como fruto de um espírito enlouquecido. O clima tenebroso, reforçado por rimas guturais e aliterações angustiantes não parece ser resultado de um cálculo matemático. Ou não deveria ser, para o bem de todas as nossas certezas.
São essas algumas das preocupações que o poeta e tradutor mineiro Ivo Barroso explora como organizador da antologia O corvo e suas traduções. Originalmente publicado em 1998, pela Editora Lacerda, o volume retornou em 2012 pela Editora Leya já em sua terceira edição.
Além do poema original em inglês, o livro reúne nada menos que 11 traduções, três para o francês, de Charles Baudelaire (1853), Stéphane Mallarmé (1888) e Didier Lamaison (1998), seguidas das mais importantes versões para a língua portuguesa: Machado de Assis (1883), Emílio de Menezes (1917), Fernando Pessoa (1924), Gondin da Fonseca (1928), Milton Amado (1943), Benedicto Lopes (1956), Alexei Bueno (1980) e Jorge Wanderley (1997). É curioso notar como um mesmo texto original pode ter traduções tão diferentes entre si. Inclui ainda um artigo biográfico sobre Poe e o já citado ensaio, uma aula de criação literária, mas que deixa as questões técnicas da poesia ao gosto do leitor. Barroso detalha algumas delas, bem como as diversas tentativas de seus tradutores em transpor para o português todas as filigranas da versão original. Alguns tiveram mais sucesso que outros, mas todas as traduções têm seu valor como verdadeiros documentos de sua época. E, a cereja no bolo, uma apresentação assinada por Carlos Heitor Cony, de todo simpática a obra do autor americano.
O volume tem 153 páginas e ótima legibilidade, com diagramação perfeita em fonte Berkeley impressa em papel pólen de aspecto muito confortável, de tal forma que as explicações de Poe sobre a construção "matemática" do poema parecem fazer todo o sentido, mesmo que sua vida conturbada reforce a ideia de um talento alienado e irracional.
Tido como ébrio de alma torturada que morreu na indigência, parece lícito vê-lo como um louco em contínuo estado de desespero. Sua ficção perturbadora supõe confirmar os aspectos sombrios de sua vida, mas visto na perspectiva facilitada pela leitura de O corvo e suas traduções, revela uma inteligência sagaz, racional e criativa.
A poesia é um grande mistério e, a princípio, parece fácil versejar. Afinal, os poetas o fazem com tanta naturalidade que parece ser um dom genético ou uma inspiração vinda diretamente dos deuses. As vezes, essa inspiração realmente emerge de um estado de consciência alterada por alguma patologia psicológica, pelo uso de drogas ou por um delírio criativo que nem o próprio autor sabe explicar. Contudo, também pode ser fruto de planejamento, apoiado em uma exaustiva atividade intelectual.A crítica tende a desvalorizar o trabalho artístico obtido a partir de métodos científicos, por isso muita gente não gostou quando um dos mais importantes escritores da língua inglesa, o poeta "louco" Edgar Allan Poe (1809-1849) explicou, no ensaio "A filosofia da composição" (1846), o passo a passo que cumpriu para chegar ao resultado absolutamente incomparável de seu poema mais ilustre, "O corvo" ("The raven"), escrito em 1845.
Parece mesmo um tanto anticlimático olhar o poema a partir de seus bastidores, uma vez que o efeito, quando visto sob os holofotes da ribalta, se apresenta como fruto de um espírito enlouquecido. O clima tenebroso, reforçado por rimas guturais e aliterações angustiantes não parece ser resultado de um cálculo matemático. Ou não deveria ser, para o bem de todas as nossas certezas.
São essas algumas das preocupações que o poeta e tradutor mineiro Ivo Barroso explora como organizador da antologia O corvo e suas traduções. Originalmente publicado em 1998, pela Editora Lacerda, o volume retornou em 2012 pela Editora Leya já em sua terceira edição.
Além do poema original em inglês, o livro reúne nada menos que 11 traduções, três para o francês, de Charles Baudelaire (1853), Stéphane Mallarmé (1888) e Didier Lamaison (1998), seguidas das mais importantes versões para a língua portuguesa: Machado de Assis (1883), Emílio de Menezes (1917), Fernando Pessoa (1924), Gondin da Fonseca (1928), Milton Amado (1943), Benedicto Lopes (1956), Alexei Bueno (1980) e Jorge Wanderley (1997). É curioso notar como um mesmo texto original pode ter traduções tão diferentes entre si. Inclui ainda um artigo biográfico sobre Poe e o já citado ensaio, uma aula de criação literária, mas que deixa as questões técnicas da poesia ao gosto do leitor. Barroso detalha algumas delas, bem como as diversas tentativas de seus tradutores em transpor para o português todas as filigranas da versão original. Alguns tiveram mais sucesso que outros, mas todas as traduções têm seu valor como verdadeiros documentos de sua época. E, a cereja no bolo, uma apresentação assinada por Carlos Heitor Cony, de todo simpática a obra do autor americano.
O volume tem 153 páginas e ótima legibilidade, com diagramação perfeita em fonte Berkeley impressa em papel pólen de aspecto muito confortável, de tal forma que as explicações de Poe sobre a construção "matemática" do poema parecem fazer todo o sentido, mesmo que sua vida conturbada reforce a ideia de um talento alienado e irracional.
Tido como ébrio de alma torturada que morreu na indigência, parece lícito vê-lo como um louco em contínuo estado de desespero. Sua ficção perturbadora supõe confirmar os aspectos sombrios de sua vida, mas visto na perspectiva facilitada pela leitura de O corvo e suas traduções, revela uma inteligência sagaz, racional e criativa.
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sábado, 5 de janeiro de 2019
Animal'z, Enki Bilal
Animal'z, Enki Bilal. Tradução de Fernando Scheibe. São Paulo: Nemo, 2012.
A ideia do fim do mundo exerce um fascínio irresistível em todos nós. Muito já foi escrito sobre isso, mas o assunto não se esgota: o tema transformou-se num dos mais rentáveis filões da ficção científica, mas a linha que separa a especulação válida da completa tolice é determinada pela preocupação do texto em antecipar as consequências das atitudes que estão sendo tomadas hoje. Nesse aspecto, Animal'z está entre as melhores peças do gênero.
Trata-se de uma sofisticada novela gráfica do quadrinhista sérvio Enki Bilal, publicada originalmente em 2009 pela editora belga Casterman e lançada em 2012 no Brasil pela Nemo, um selo da Editora Autêntica.
A leviana interferência humana sobre a natureza causou um severo desequilíbrio ambiental que ficou conhecido como Golpe de Sangue, e lançou o planeta numa nova era glacial, aniquilando a civilização. Os poucos sobreviventes tentam atingir os Eldorados, regiões quase míticas nas quais se acredita ainda ser possível a vida, mas o caminho para lá é difícil e perigoso. A água potável é rara, os meios de comunicação caíram e não há transporte aéreo e terrestre; as únicas formas de viajar são a pé, no lombo de um animal ou, para os mais afortunados, nos barcos.
Campos minados e radioatividade são perigos remanescentes dos tempos antigos, e as ruínas das cidades escondem canibais famintos a caça de carne fresca. Apesar das duras provas que a natureza impõe aos peregrinos, o verdadeiro perigo para o homem é mesmo o outro: encontros entre sobreviventes invariavelmente resultam em alguma morte, seja por acidente, por intolerância, ou mesmo por instinto de autopreservação.
A história começa a bordo de um luxuoso iate que navega em direção ao Estreito 17, um dos poucos acessos seguros a uma rota que se acredita levar até um dos Eldorados. A bordo, uma jovem sem muita perspectiva de chegar a qualquer lugar que seja: seu marido morreu num acidente improvável, empalado por um filhote de marlim arremessado por uma tempestade, e a moça agora viaja sob os cuidados de um servo eletrônico, um tipo de lagosta robótica, mistura de capitão e mordomo.
Quando um golfinho sobe a bordo e de suas entranhas emerge um homem desconhecido, é que realmente começa o pesadelo. Vamos descobrir que o Golpe de Sangue vai muito além de uma "simples" era do gelo. Os homens desse tempo não são mais como nós. Através de um milagre da tecnologia, eles podem alternar suas forma e natureza entre humano e animal.
Em outro ponto do oceano, um segundo iate também segue em direção ao Estreito 17, levando a bordo ninguém menos que o próprio inventor da tecnologia de hibridização, ele mesmo um híbrido que, assim como o inescrupuloso Doutor Morreau de H. G. Wells, ousou invadir o terreno do sagrado e, com isso, só colaborou para que as coisas ficassem ainda piores.
E, numa terceira linha narrativa, dois cavaleiros quase idênticos, separados entre si por exatos três quilômetros, caminham pela vastidão gelada em busca do local místico em que realizarão seu quarto e talvez definitivo duelo de morte. As narrativas vão se cruzar e determinar o futuro de cada um destes infelizes desesperados do fim do mundo.
A história tem o estilo descosturado que caracteriza as obras de Bilal, com personagens enigmáticos e atormentados que se debatem por algo que sequer sabem ser real. Isso, somado a ausência de uma contextualização sólida, dá a história tons claustrofóbicos estranhamente reforçados pela vastidão gelada do cenário, num diálogo muito próximo ao longa-metragem Quinteto (Quintet), ficção científica dirigida por Robert Altman em 1979.
Os desenhos são um espetáculo à parte, executados com habilidade de um mestre da anatomia, usando apenas lápis pastel sobre papel tonalizado, em cores frias que não variam muito além do cinza azulado, o preto e o branco. A arte é valorizada pelo acabamento gráfico da edição brasileira, que tem 104 páginas em papel cuchê fosco de boa gramatura e encadernação costurada em capa dura.
A Nemo investiu na publicação da obra de Bilal, um dos mais importantes ilustradores surgidos nos anos 1970 nas páginas da revista Metal Hurlant. Em 2012, a editora também trouxe aos leitores brasileiros a festejada Trilogia Nikopol, obra-prima que já tem inclusive uma adaptação para o cinema, Immortel (ad vitam), dirigida em 2004 pelo próprio Bilal.
Apesar das qualidades inegáveis, Animal'z não é uma história em quadrinhos fácil. A narrativa barroca e incômoda, ideias em estado bruto, texto fragmentado e a violência fria, quase gratuita, pode chocar os leitores que não estão acostumados ao estilo do autor, às especulações da ficção científica moderna ou aos modelos pós-modernos da narrativa literária. Ainda assim, é uma experiência muito recomendável.
A ideia do fim do mundo exerce um fascínio irresistível em todos nós. Muito já foi escrito sobre isso, mas o assunto não se esgota: o tema transformou-se num dos mais rentáveis filões da ficção científica, mas a linha que separa a especulação válida da completa tolice é determinada pela preocupação do texto em antecipar as consequências das atitudes que estão sendo tomadas hoje. Nesse aspecto, Animal'z está entre as melhores peças do gênero.
Trata-se de uma sofisticada novela gráfica do quadrinhista sérvio Enki Bilal, publicada originalmente em 2009 pela editora belga Casterman e lançada em 2012 no Brasil pela Nemo, um selo da Editora Autêntica.
A leviana interferência humana sobre a natureza causou um severo desequilíbrio ambiental que ficou conhecido como Golpe de Sangue, e lançou o planeta numa nova era glacial, aniquilando a civilização. Os poucos sobreviventes tentam atingir os Eldorados, regiões quase míticas nas quais se acredita ainda ser possível a vida, mas o caminho para lá é difícil e perigoso. A água potável é rara, os meios de comunicação caíram e não há transporte aéreo e terrestre; as únicas formas de viajar são a pé, no lombo de um animal ou, para os mais afortunados, nos barcos.
Campos minados e radioatividade são perigos remanescentes dos tempos antigos, e as ruínas das cidades escondem canibais famintos a caça de carne fresca. Apesar das duras provas que a natureza impõe aos peregrinos, o verdadeiro perigo para o homem é mesmo o outro: encontros entre sobreviventes invariavelmente resultam em alguma morte, seja por acidente, por intolerância, ou mesmo por instinto de autopreservação.
A história começa a bordo de um luxuoso iate que navega em direção ao Estreito 17, um dos poucos acessos seguros a uma rota que se acredita levar até um dos Eldorados. A bordo, uma jovem sem muita perspectiva de chegar a qualquer lugar que seja: seu marido morreu num acidente improvável, empalado por um filhote de marlim arremessado por uma tempestade, e a moça agora viaja sob os cuidados de um servo eletrônico, um tipo de lagosta robótica, mistura de capitão e mordomo.
Quando um golfinho sobe a bordo e de suas entranhas emerge um homem desconhecido, é que realmente começa o pesadelo. Vamos descobrir que o Golpe de Sangue vai muito além de uma "simples" era do gelo. Os homens desse tempo não são mais como nós. Através de um milagre da tecnologia, eles podem alternar suas forma e natureza entre humano e animal.
Em outro ponto do oceano, um segundo iate também segue em direção ao Estreito 17, levando a bordo ninguém menos que o próprio inventor da tecnologia de hibridização, ele mesmo um híbrido que, assim como o inescrupuloso Doutor Morreau de H. G. Wells, ousou invadir o terreno do sagrado e, com isso, só colaborou para que as coisas ficassem ainda piores.
E, numa terceira linha narrativa, dois cavaleiros quase idênticos, separados entre si por exatos três quilômetros, caminham pela vastidão gelada em busca do local místico em que realizarão seu quarto e talvez definitivo duelo de morte. As narrativas vão se cruzar e determinar o futuro de cada um destes infelizes desesperados do fim do mundo.
A história tem o estilo descosturado que caracteriza as obras de Bilal, com personagens enigmáticos e atormentados que se debatem por algo que sequer sabem ser real. Isso, somado a ausência de uma contextualização sólida, dá a história tons claustrofóbicos estranhamente reforçados pela vastidão gelada do cenário, num diálogo muito próximo ao longa-metragem Quinteto (Quintet), ficção científica dirigida por Robert Altman em 1979.
Os desenhos são um espetáculo à parte, executados com habilidade de um mestre da anatomia, usando apenas lápis pastel sobre papel tonalizado, em cores frias que não variam muito além do cinza azulado, o preto e o branco. A arte é valorizada pelo acabamento gráfico da edição brasileira, que tem 104 páginas em papel cuchê fosco de boa gramatura e encadernação costurada em capa dura.
A Nemo investiu na publicação da obra de Bilal, um dos mais importantes ilustradores surgidos nos anos 1970 nas páginas da revista Metal Hurlant. Em 2012, a editora também trouxe aos leitores brasileiros a festejada Trilogia Nikopol, obra-prima que já tem inclusive uma adaptação para o cinema, Immortel (ad vitam), dirigida em 2004 pelo próprio Bilal.
Apesar das qualidades inegáveis, Animal'z não é uma história em quadrinhos fácil. A narrativa barroca e incômoda, ideias em estado bruto, texto fragmentado e a violência fria, quase gratuita, pode chocar os leitores que não estão acostumados ao estilo do autor, às especulações da ficção científica moderna ou aos modelos pós-modernos da narrativa literária. Ainda assim, é uma experiência muito recomendável.
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Adorável Noite ao cubo

Todas as três edições têm 8 páginas cada e trazem contos curtos e poemas sombrios de diversos autores, incluindo do editor, principalmente sobre vampiros, especialidade da publicação.
Os arquivos estão disponíveis aqui em formato pdf paginados para impressão, mas com alguma ginástica podem também ser lidos online.
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Conexão Literatura 43
Está circulando o número 43 da revista eletrônica Conexão Literatura, editada por Ademir Pascale.
A edição tem 98 páginas e destaca o artigo de Rusty Burke sobre o escritor americano Robert E. Howard, criador de Conan, Red Sonja e outros importantes personagens da fantasia mundial.
São entrevistados os escritores Lara Emanueli Neiva Sousa (Os desafios de amar), F. E. Jacob (Homo tempus) e o próprio editor, que organizou a antologia Possessão alienígena para a Devir Livraria, numa conversa conduzida por Sérgio Simka. Contos de Míriam Santiago e Roberto Schima, resenhas, artigos e divulgações de filmes e livros completam a edição.
Conexão Literatura é gratuita e pode ser baixada aqui. Edições anteriores também estão disponíveis.
A edição tem 98 páginas e destaca o artigo de Rusty Burke sobre o escritor americano Robert E. Howard, criador de Conan, Red Sonja e outros importantes personagens da fantasia mundial.
São entrevistados os escritores Lara Emanueli Neiva Sousa (Os desafios de amar), F. E. Jacob (Homo tempus) e o próprio editor, que organizou a antologia Possessão alienígena para a Devir Livraria, numa conversa conduzida por Sérgio Simka. Contos de Míriam Santiago e Roberto Schima, resenhas, artigos e divulgações de filmes e livros completam a edição.
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