sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Guerra sem fim


Esta é provavelmente a melhor notícia do ano no que se refere a ficção científica literária. Trata-se do lançamento pela editora Landscape do livro de John "Joe" Haldeman Guerra sem fim, título brasileiro de Forever War, romance de guerra espacial publicado originalmente em 1975, que faturou o Hugo e Nebula, os principais prêmios norte-americanos para o gênero.
A história conta a experiência de um soldado numa guerra num tão planeta distante que, ao retornar depois de dois anos de serviço, ele não encontra mais o mundo de onde partiu, visto que por causa dos efeitos da relatividades, o tempo na Terra passou dezenas de anos mais rápido. E missões mais distantes ainda o aguardam.
Mas esse argumento não é o único apelo relevante do livro de Haldeman. Na verdade, histórias com esse mesmo conceito já foram escritas aos montes, entre elas o excelente O dilema do astronauta, (Starman's Quest, 1958) de Robert Silverbeg, publicado pela editora portuguesa Panorama. O que importa na ficção de Haldeman são os conceitos políticos ali discutidos, sobre a presença dos homens em guerras nas quais eles nunca deveriam se envolver. Essas ideias advém do fato de Haldeman ser veterano da guerra do Vietnã, condecorado com uma medalha por ferimentos em combate.

Os paralelos entre Guerra Eterna e sua experiência como soldado não são mera coincidência.
Haldeman é um escritor influente em seu país, os EUA, com vários outros Hugos e Nebulas no currículo. Atualmente é professor sênior de escrita criativa do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). No Brasil ele foi pouco - ou nada - publicado. Provavelmente seu único texto saiu no extinto fanzine Hipertexto publicado pela UFSCar, apenas porque seus editores tiveram a sorte de encontrá-lo pessoalmente num simpósio de ficção científica em Portugal e puderam negociar diretamente com o escritor.
A lamentar o fato de que o romance só ganhou sua publicação no Brasil depois que o diretor de cinema Ridley Scott (de Blade Runner e Alien) adquiriu seus direitos para uma versão filmada. Como tem sido patente nos últimos 20 anos, a publicação de uma ficção científica original parece ter que vir a reboque de um sub-produto audiovisual. É lamentável que as editoras brasileiras ditas profissionais ainda se comportem dessa forma. Pelo menos a Landscape teve a iniciativa de traduzir e publicar o livro sem esperar pelo filme, o que já é mais do que se poderia desejar. Outras editoras talvez não o fizessem. Ainda estou esperando, três anos depois, pela anunciada publicação da trilogia marciana de Kim Stanley Robinson. Mas como o filme não vai sair, acho que vou pôr as minhas barbas de molho.
Mais três coisas eu pessoalmente desgostei da edição brasileira de Forever War: primeiro, o título. A obra já era há anos conhecida no fandom como "Guerra Eterna", e essa teria sido a sua melhor tradução. Até porque houve uma novela na TV com o título de Guerra sem fim, e muita gente pode pensar que o livro é sua novelização. Segunda coisa, a imagem da capa, que não traduz nem de longe o clima do romance, parece capa de um romance de bolso dos anos 1950. Terceiro, o preço. A edição brasileira tem 304 páginas, e a editora sugere o preço de capa em R$54,90, um valor quase impraticável. Só fãs muito ardorosos vão embarcar nessa, e um livro dessa qualidade merecia ser lido mais amplamente. E será mesmo uma pena se, por causa disso, não tivermos a publicação dos romances subsequentes, Forever Free e Forever Peace, ambos também muito bons.

Um comentário:

  1. Nunca li um livro de Haldeman. Este me parece ser interessante apesar de suas criticas a versão brasileira. Infelizmente há versões que são muito rebuscadas... Um outro exemplo é um livro chamado Advertising Age - Manual De Publicidade - Herschell Gordon Lewis. Você "pena"!!!

    Abs

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