sábado, 30 de agosto de 2025

Resenha: Como aprendi a amar o futuro

Como aprendi a amar o futuro: Contos solarpunk
Francesco Verso & Fabio Fernandes, orgs. 350 páginas. São Paulo: Plutão, 2023.

É incrível que não estejamos falando da antologia Como aprendi a amar o futuro desde o seu lançamento há dois anos. Pois trata-se da mais expressiva novidade no ambiente da fc desde o surgimento do cyberpunk, nos anos 1980. Porque ela é estranha e um pouco assustadora, como, aliás, toda a fc deveria ser. 
Desde a publicação em 2012 da antologia Solarpunk: Histórias ecológicas e fantásticas em um mundo sustentável, pela Editora Draco, ficou a impressão que o subgênero ali proposto não passava de uma variação ao cyberpunk com tecnologias verdes. Dizia-se que o solarpunk propunha uma ficção que apontava para um futuro no qual a humanidade daria certo, escapando do apocalipse e da distopia.
Se fosse mesmo isso, seria uma fc ingênua e equivocada, uma elegia a tecnocracia futura na qual todos os problemas causados ao meio ambiente planetário pela tecnologia seriam resolvidos, vejam só, pela própria tecnologia. Há, de fato, muita gente que pensa assim: para quê preservar o mundo hoje se a tecnologia irá nos salvar amanhã?
Bem, não é o que sugerem os treze contos e os três ensaios reunidos nas 350 páginas de Como aprendi a amar o futuro: Contos solarpunk, antologia organizada pelos pesquisadores Francesco Verso (Itália) e Fabio Fernandes (Brasil), publicada pela Plutão Livros em 2023.  
Para os autores presentes na antologia, a concepção do solarpunk não é, de forma alguma, positivista ou utópica.  Pelo contrário, é bastante pessimista, porque reconhece que o ponto sem volta já foi ultrapassado e o desastre ambiental é inevitável. Na verdade, já estamos vivendo suas consequências e não há como escapar, a não ser que aconteça alguma coisa muito radical e subversiva.
Tratam-se de histórias em que pessoas comuns tomam para si a tarefa de construir uma nova forma de viver num mundo devastado pela poluição e pela crise ambiental causadas pelas corporações e pelas elites que continuam fazendo o que sempre fizeram. Trata-se de uma ficção engajada, que pretende mostrar alternativas de sobrevivência dentro desse inevitável futuro ambiental destroçado. Uma fc politicamente militante, mais social e menos individual, que também discute aspectos ligados a diversidade étnica, cultural, de gênero e de pessoas com deficiência. Uma ação de guerrilha tecnológica, na qual grupos comunitários assumem a responsabilidade e o controle de sua sobrevivência em meio ao caos ambiental, a revelia das decisões de governo, que nos colocaram nessa enrascada para começo de conversa. 
Nas 350 páginas da antologia, textos de várias procedências, vindos de Argentina, EUA, China, Austrália, França e Espanha: "Empatia bizantina", de Ken Liu, "O zelador do Farol", de Andrew Dana Hudson, "Beton betularia", de Maria Antònia Martí Escayol, "Omnia sol temperat", de T. P. Mira-Echeverría e Guillermo Echeverría, "Contaminações", de Sylvie Denis, "Com uma bicicleta espacial vai-se a qualquer lugar", de Ingrid Garcia, "A terra-corpo", de Ciro Faienza, "A força da serpente é a força da gente", de Brenda Cooper, "Falácia efetiva", de Qiufan Chen, "O rancho espiral", de Sarena Ulibarri, "Linha de frente", de Gustavo Bondoni, e os brasileiros "Nina e o furacão", de Ana Rüsche e "Presságio de solidão", de Renan Bernardo. Também traz ensaios, assinados por Fabio Fernandes, Andrew Dana Hudson e Francesco Verso, conceituando o subgênero, citando precurssores e estabelecendo seus protocolos, tudo muito didático, embora o texto de Hudson tenha um quê de manifesto.
O time de tradutores também é grande: Jana Bianchi, Fernanda Castro, Morgana Feijão, Marina Scardoelli, Lina Machado, Thiago Ambrósio Lage, André Caniato. A capa traz um trabalho de Sávio Araújo.
Não que inexistam textos na fc tradicional que esbarram no tema, como os de Kim Stanley Robinson, que é citado nos ensaios publicados. No Brasil, escritores como Simone Sauressig ("O cuco de samaúma", em Universo Pulp: Multipunk, Avec, 2022) e Daniel Galera ("Tóquio" em O deus das avencas, Companhia das Letras, 2021) aproximaram-se do tema, mas a eles faltava o componente explosivo que abunda em Como aprendi a amar o futuro.
A edição só está disponível em ebook, e dá para ler de graça emprestando um exemplar na BibliON, aplicativo oficial da Secretaria de Cultura do Governo do Estado de São Paulo que, aliás, foi como eu li. 
Vale a pena conhecer a antologia e entender o que realmente vem a ser esse tal de solarpunk. É para mexer com os brios e dar vontade de começar sua própria guerrilha contra o capitalismo agora mesmo.
A luta continua!

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Lançamento: A maldição do intelecto, Frank Challice Constable

Chegou aos assinantes a edição de agosto da Coleção Andarilhos, clube de assinaturas da Editora Andarilho dedicado à publicação mensal de livros de bolso de ficção fantástica clássica e inédita, de autores pouco conhecidos. 
A edição apresenta a novela de ficção científica A maldição do intelecto (The curse of intellect), do advogado e escritor britânico Frank Challice Constable (1846-1937), originalmente publicada em 1895. 
Diz o texto de apresentação: "Quando o peculiar Reuben Power decide que a humanidade precisa de uma nova perspectiva, ninguém esperava que ele traria de volta um macaco dotado de inteligência. Mas o que começa como um experimento ousado logo dá início a uma série de intrigas".
O volume tem 188 páginas, tradução de Gustavo Terranova Aversa e, junto a ele, os assinantes recebem um marcador de páginas personalizado e um intrigante cartão de visitas.
Os livros do Clube Andarilhos são comercializados inicialmente por assinaturas mas, após algumas semanas, podem ser encontrados para venda no saite da editora, aqui.

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

O Eternauta e outros contos de ficção científica

A editora de quadrinhos Trem Fantasma, que já publicou um e outro livros literários, como A mão de Deus: Uma biografa de Hugo Pratt, de Ángel de la Calle, inova agora anunciando possivelmente para dezembro de 2025 o primeiro livro de ficção científica literária de seu catálogo. Trata-se da primeira tradução para o português da coletânea O Eternauta e outros contos de ficção científica, do escritor argentino Héctor Germán Oesterheld (1919-1977), mais conhecido por seus roteiros para quadrinhos mas que também enveredou, tal como outros roteiristas dessa área, para a produção literária. Até hoje, a única maneira de ler os contos de Oesterheld era buscar por uma edição em espanhol, mas isso agora será devidamente superado. 
Diz o texto que anunciou a publicação: "Trata-se de uma coletânea de contos escritos entre 1962 e 1968 e compilados originalmente em 2005 pela editora argentina Colihue. Entre esses contos, uma história inacabada do Eternauta. Além de inédito no Brasil, tem algo mais que preparamos para deixá-lo único no mundo. É um livro ilustrado por ninguém mais ninguém menos que... SHIKO! O multipremiado artista e rei das aquarelas espetaculares."
Ainda não foram divulgados maiores detalhes sobre a produção mas, assim que houver mais a dizer, informarei aqui. Por hora, fiquem com uma das sensacionais ilustrações de Shiko, artista paraibano que, no início do século, fez participações ocasionais no Hiperespaço e que hoje é um dos grandes nomes dos quadrinhos brasileiros.

terça-feira, 26 de agosto de 2025

HQ Memories 24

HQ Memories
é um fanzine de e sobre quadrinhos editado pelo cartunista Luigi Rocco sob a chancela do selo Inumanos Agrupados, dedicado a resgatar trabalhos e autores esquecidos dos quadrinhos brasileiros e estrangeiros.
A edição 24 resgata do esquecimento as seguintes histórias em quadrinhos: "Sandman: A estrela de Singapura" (1940), de Gardner Fox e Allen Bert Christman; "Teobaldo, o detetive biruta" (1963), de Lyrio Aragão; "Scribbly" (1939) de Sheldon Mayer; "Tamacavi, o gigante lendário" (1961), de Manoel Victor Filho; "O último voto" (1987), de Will Eisner; "O Conde Crápula" (1968) de Lyrio Aragão; "O Tocha Humana: O não-humano" (1968), de Dick Ayers, e "Achille Talon: Quando só temos a mudez" (2014), de Fabcaro e Serge Carrère. A edição é completada com a pesquisa do IBOPE "Hábitos de leitura no Grandes São Paulo", publicada no jornal Diário Popular em 1969.
A edição tem 44 páginas, formato magazine com capa em cartão, que traz uma ilustração aparentemente realizad por IA. Imagens e detalhes de cada um dos trabalhos apresentados podem ser conferidos no blogue da publicação, aqui.
Rocco também está republicando os primeiro números do fanzine agora no formato grande. Várias edições já estão disponíveis.  
HQ Memories pode ser encomendado diretamente com o autor, pelo email luigirocco29@gmail.com.

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Juvenatrix 274

Está disponível a edição de setembro do fanzine eletrônico de horror e ficção científica Juvenatrix, editado por Renato Rosatti. 
Em treze páginas, traz quadrinhos de Angelo Junior, e resenhas aos filmes Invasão do centro da Terra (1974), A noiva do gorila (1951) e Mulheres demônio (1958), todas do  editor. A edição é completada com notícias e divulgação de livros e publicações alternativas, e de bandas de metal extremo. A capa traz uma ilustração de Angelo Junior.
Cópias em formato pdf podem ser obtidas pelo email renatorosatti@yahoo.com.br.

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Alguns autores de Apocalipse

 

Para mais informações e apoios, viste a página da campanha, aqui.

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Em campanha: Bruxas e bruxaria

Como já observei anteriormente, o campo de publicação de livros de fcf no Brasil tem migrado com rapidez para o ambiente das vaquinhas virtuais, o conhecido crowdfunding, que conta com diversas plataformas na internet. A cada semana, mais e mais títulos são anunciados, e já configuram o modelo editorial dominante na literatura de gênero. 
São raros os casos de fracasso da campanha, mas cada título geralmente não vai muito além de suas metas básicas de arrecadação, com uma média de apoiadores na casa dos 100 indivíduos. Em alguns casos, contudo, a campanha obtém um sucesso muito superior as suas metas, e este é o caso da campanha de finaciamento da antologia Bruxas e bruxaria: Contos das Ilhas Britânicas, que já dobrou a meta com quase 400 apoiadores confirmados.
Diz o texto de apresentação do projeto: "A antologia Bruxas e bruxaria: Contos das Ilhas Britânicas (1829-1909) inaugura a coleção Cadernos Escarlates, uma nova coedição das editoras Clepsidra e Ex Machina que almeja montar uma ampla biblioteca dedicada a contos sobrenaturais de diferentes países e tradições, mesclando clássicos de leitura obrigatória e raridades inéditas. Cada novo volume da coleção trará um tema e um recorte geográfico, no qual incluiremos algumas das joias narrativas descobertas em nossas pesquisas. Para inaugurá-la, o tema escolhido foi 'bruxas e bruxaria', enquanto o recorte geográfico foi o território das Ilhas Britânicas, compreendendo produções da Irlanda, da Inglaterra e da Escócia. A curadoria se preocupou em cobrir a presença das bruxas em contos que representam a tradição gótica, a narrativa vitoriana de horror, o feérico e o maravilhoso de inspiração folclórica, o realismo com viés de denúncia, o registro de lendas, o impacto delas no imaginário coletivo (com uma ficção inspirada por um sonho) e, por fim, um dos textos que influenciou a representação das bruxas em filmes europeus."
O volume terá cerca de 144 páginas com os contos “As bruxas de Traquair” (1829), de James Hogg; “Levana e as Nossas Senhoras da Dor” (1845), de Thomas de Quincey; “A bruxa: uma lenda de Portugal” (1846), de William H. G. Kingston, “Janet, a retorcida” (1881), de Robert Louis Stevenson, “As mulheres com chifres” (1887), de Speranza (Jane Wilde), “A mulher encantada” (1888), de Anna Kingsford, “A queima de uma bruxa” (1909), de Baillie Reynolds. A organização é de Cid Vale Ferreira.
A campanha pode ser apoiada aqui até o dia 5 de setembro de 2025.