segunda-feira, 15 de maio de 2023

Resenha do Almanaque: Espectra – Histórias de fantasmas

Espectra: Histórias de fantasmas, Tomo 1, Georgette Silen, org. 240 páginas, prefácio de Simone O. Marques. Praia Grande: Literata, 2011.

Não há dúvida que o gênero preferido dos fãs de ficção fantástica é o horror. Neste momento, há um grande rebuliço com a fantasia por conta dos sucessos internacionais como O senhor do anéis, Harry Potter e A guerra dos tronos, mas o horror sempre esteve na ordem do dia. Mesmo quando a fantasia era interesse apenas de uns poucos nerds jogadores de rpg e a ficção científica dominava o cenário editorial, o horror estava lá, firme e forte, com seus fãs fiéis e ardorosos que sempre responderam bem aos produtos em todas as mídias.
Talvez seja por isso que, apesar de não predominar no formato de romance, as antologias do gênero são tão abundantes e voluptuosas. Em 2010, das 59 antologias inéditas publicadas no ano, 30 eram de horror, conforme dados divulgados no Anuário brasileiro de literatura fantástica 2010, e em 2011 não foi diferente.
Alguns organizadores especializaram-se na montagem de antologias de horror, como Ademir Pascale, M. D. Amado e Georgette Silen. Esta organizou para a editora Literata o volume Espectra: Histórias de fantasmas, que promete ser o primeiro de uma série.
O livro reúne em 240 páginas nada menos que 31 contos de 28 autores, boa parte deles estreantes. Como o título já diz, trata-se de uma antologia temática dedicada às histórias de fantasmas e assombrações. E no livro há um pouco de tudo: demônios, poltergeists, aparições, casarões e, é claro, fantasmas aos montes. É até estranho que com tanto fantasma por aí, eu nunca tenha visto um só sequer.
Seria exaustivo comentar todos os contos, mas vale a pena destacar alguns deles.
“Inferno particular”, de Sheilla Liz Cocconello, uma veterana nas antologias de ficção fantástica, conta o cotidiano de uma jovem suicida que, condenada a uma eternidade infernal, resiste em abandonar o local de sua morte. Mas não importa o quanto protele seu destino, o inferno sempre estará esperando por ela e não está com pressa.
Taiane Gonçaves, que estreou na antologia Tratado secreto de magia (Andross, 2010), participa desta seleta com três textos. O melhor deles é “As treze almas”, sobre um jovem que, ao visitar uma tia no interior, se vê as voltas com o fantasma de um assassino psicopata.
O saudoso Adriano Siqueira, autor da coletânea Adorável noite (Estronho, 2011), foi especialmente convidado para o livro e também oferece um texto interessante e divertido. “70 Km por hora” relata, em clima de videogame, uma noite de trabalho de um detetive especializado em casos bizarros. Aqui, o de um automóvel assombrado que coloca toda a cidade em risco.
“Anga”, de Carlos Gaiten, outro autor experiente em antologias, investe numa história de laivos políticos, na qual um vidente recebe de um fantasma a localização de uma vala onde estariam enterradas várias vítimas da ditadura militar.
“A gameleira”, de Carmelo Ribeiro, é o melhor texto da coletânea. Trata-se de um “causo” contado a moda antiga, sobre dois homens valentes que se desafiam mutuamente a enfrentar a maldição de uma velha árvore.
Outro bom texto é “Altar de ossos”, de Marcelo Augusto Claro. Um pai e seu filho, cuja profissão é caçar fantasmas, vão enfrentar um dos piores numa velha casa de fazenda.
Gian Danton, premiado roteirista de quadrinhos e um dos autores mais experientes do grupo, participa com o conto “Lembranças de sangue”, sobre um jovem estudante que se hospeda na casa de uma senhora simpática, mas vai descobrir, da pior forma possível, que o lugar é assombrado por lembranças de sangue e morte.
Além destes, o livro ainda traz textos de Marcelo Augusto Claro, Sória Celestino, Bruno Anselmi Matangrano, Vicente Reckziegel, Eduardo Bonito, Suzy M. Hekamiah, Jéssica Schiavetto Linhares, Michele C. Marchese, Debby Lenon, Marjorie Tolentino, Rosi Caobiano, Cecília Torres Nogueira, Rubens Alves, Sandra Françoso, Débora Jeronymo, Andrea Betoldo, Mariana Albuquerque, MBlannco, Celso Correa de Freitas, da prefaciadora Simone O. Marques e da própria organizadora, Georgette Silen.
Apesar da grande quantidade de autores e ampla variedade de estilos, a antologia é equilibrada e fácil de ler. Não chega a ser assustadora; está mais para divertida, como geralmente são as histórias populares de terror, e representa bem o estado da arte no ambiente dos fãs do gênero.
Na falta dos fanzines, quase todos extintos, as antologias têm cumprido a função de permitir o exercício editorial de novos autores, dessa forma são uma espécie de incubadora de talentos. Esperemos que, futuramente, alguns deles desdobrem suas asas e arrisquem voos solo. Aí sim, ninguém vai segurar essa turma.

sábado, 13 de maio de 2023

Lançamento: 16

Está aberta, até o dia 9 de junho, a campanha de financiamento direto para a publicação da coletânea 16, do professor, jornalista e tradutor Fábio Fernandes, reunindo uma seleta de dezesseis contos do autor publicados ao longo de seus trinta anos de carreira literária. 
O trabalho editorial é da Caos e Letras, que oferece diversas recompensas interessantes aos apoiadores. A meta modesta, de apenas R$5 mil, certamente será bem sucedida, pois em poucos dias já atingiu 37% dela. 
Fernandes é um nome importante da segunda onda da ficção científica brasileira, tendo publicado diversos livros, como a coletânea Interface com o vampiro (Writers, 2000) e os romances O dia da peste (Tarja, 2009), Back in the USSR (Patuá, 2019) e Rio 60 graus (Draco, 2022), entre outros, além de participações em diversas antologias.  
A página da campanha, aqui, oferece diversos pacotes de recompensas e a entrega deve acontecer no segundo semestre de 2023. 
Tentador.

Suprassuma 2: Fobias

Está em pré-reserva a segunda edição da Suprassuma, revista literária digital e colaborativa do selo Suma, divisão da editora Companhia das Letras dedicada à ficção fantástica. A primeira edição, que teve editoria de Beatriz D’Oliveira e Paula Lemos, foi distribuída em outubro de 2021, cujo lançamento foi comentado aqui
Depois de prolongadíssimo processo de submissões, a editoria selecionou, entre centenas de textos enviados, sete histórias de ficção científca, fantasia e horror dentro do tema "fobia" que norteia a linha da edição. Esses textos são assinados por Diogo Ramos, Paloma Engelke, Lucas Santana, Juliane Vicente, André Cordeiro, Luísa Montenegro e Emerson Rodrigues. A edição é complementada por um conto da autora convidada Carol Chiovatto. 
A revista tem 172 páginas, é gratuíta e será entregue automaticamente no dispositivo de leitura no próximo dia 18 de maio. Apesar de estar disponível apenas para leitores Kindle, também é possível acessar o conteúdo a partir de um aplicativo da plataforma.
Para fazer a pré-reserva, acesse aqui. A edição anterior também está disponível.

sexta-feira, 12 de maio de 2023

Resenha do Almanaque: Dieselpunk – Arquivos secretos de uma bela época

Dieselpunk: Arquivos secretos de uma bela época, Gerson Lodi-Ribeiro, org. 384 páginas. São Paulo: Draco, 2011.

O hábito de montar seletas de contos e novelas parece mesmo ser um dos grandes prazeres do fãs de fc&f no Brasil. E, curiosamente, temos um critério próprio que permite que essas coletâneas sejam possíveis num mercado que praticamente não publica ficção curta de outra maneira.
De modo geral, antologias são montadas com textos já experimentados em outros veículos, principalmente revistas periódicas. É comum nos Estados Unidos, por exemplo, seletas do tipo “O melhor da nova fc” ou “O melhor do novo horror”, reunindo os textos de autores que estrearam nos últimos meses. 
Isso até poderia ser possível hoje diante da estreia, nos últimos três anos, de alguns periódicos literários reais e virtuais apoiados na publicação de ficção de gênero, mas ainda são poucos e de periodicidade muito espaçada, o que resulta em uma quantidade pequena de material publicado para favorecer uma seleta. 
Dessa forma, a dinâmica adotada pelas editoras brasileiras, grandes e pequenas, tem sido abrir editais para que os escritores submetam seus textos, inéditos ou não, ao crivo de um ou mais organizadores que vão escolher quais serão os textos adequados ao projeto, e foi essa dinâmica que favoreceu o florescimento de uma indústria de antologias nacionais nos últimos anos que, tal como os cogumelos, surgem da noite para o dia. Essas seletas têm sido a base do exercício da ficção fantástica nacional, mas não permitem que antologias reunindo “os melhores do ano”, por exemplo, sejam realizadas, uma vez que os textos ficam retidos por contrato com as editoras. Exceções são as antologias montadas a partir de material mais antigo, especialmente em domínio público.
Dieselpunk: Arquivos confidenciais de uma bela época, organizada por Gerson Lodi-Ribeiro e ppublicada pela Editora Draco em 2011, adotou o método do edital para histórias inéditas. Seguindo o molde de uma antologia anterior, Vaporpunk: Relatos steampunk publicados por ordem de Suas Majestades, lançada em 2010 pela mesma editora, Dieselpunk também se propõe ser uma seleção de textos de história alternativa. Se em Vaporpunk a tecnologia dominante deveria ser o motor a vapor, em Dieselpunk supõe-se que seja o motor a óleo diesel que vai mover as histórias. Como a tecnologia do diesel ainda está por aí, podemos imaginar que qualquer coisa moderna pode estar enquadrada na premissa. Pelo menos, sempre vejo nos postos de combustível, ao lado das bombas de gasolina, álcool e gás, uma de óleo diesel. Mas a ideia talvez não fosse bem essa, já que a maior parte dos autores selecionados trabalharam temas restritos às primeiras décadas do século XX.*
O texto que abre a seleção é “Fúria do Escorpião Azul”, de Carlos Orsi, uma aventura de vingador mascarado ambientada nos anos 1930 de um Brasil no qual os princípios da União Socialista Soviética tornaram-se a política predominante. É claro que o Escorpião Azul vai enfrentar os comunistas.
“O grande G” é uma fábula tecnológica escrita por Tibor Moricz, que contrapõe duas metrópoles — uma movida a carvão e outra a diesel — que lutam pelo predomínio econômico. No lado do diesel, um feroz empresário faz uso de todos os instrumentos de que dispõe não só para manter sua cidade na liderança, mas também para satisfazer suas taras e manter o poder em suas próprias mãos. O texto é algo libertino na abordagem, mas de fundo extremamente moralista: “não façam isso em casa, crianças, ou vocês vão se dar mal.”
“O dia em que Virgulino cortou o rabo da cobra sem fim com o choço excomungado”, de Octávio Aragão, explora o confronto entre o bando de Lampião e a Coluna Prestes, que historicamente nunca aconteceu. Mas há mais na noveleta além do encontro destes dois mitos da história brasileira, entre os quais se incluem armas de tecnologias muito avançadas, pós-humanismo, viagens no tempo e um pouco de ufologia, Ou não. Trata-se de um bom trabalho, com muita ação e um final feliz.
“Impávido Colosso”, de Hugo Vera, é um épico ingênuo inspirado nos animes de robôs gigantes para contar como um Brasil monarquista, comandado pelo sucessor de D. Pedro II, enfrenta um infame ataque da Argentina à região sul do país. Enquanto o agressor usa um exército de autômatos mecânicos cedidos pelo Império Britânico, o Brasil defende-se com o experimental Impávido Colosso, um robô gigante projetado pelo engenheiro Rudolf Diesel e tripulado por uma bombshell paraguaia que é uma declarada homenagem à Larissa Riquelme, musa da Copa do Mundo de 2010 na África do Sul, uma entre muitas citações que acabam chamando mais a atenção do leitor do que a história em si.
O único conto não inédito da antologia é “Pais da aviação”, de autoria do próprio organizador, que já havia sido visto na antologia Vinte voltas ao redor do Sol, publicada pelo CLFC em 2005. Numa França em que Jules Verne é o presidente da República, Santos Dumont e os Irmãos Wright disputam a primazia de serem os primeiros homens a alçar voo num aparelho mais pesado que o ar.
O jornalista Antonio Luiz M. C. Costa participa com “Ao perdedor, as baratas”, um suspense político sobre um atentado a vida de um importante candidato a presidência num Brasil subdividido em repúblicas menores, inimigas entre si. A barata do título faz uma pontinha no final da história.
“Auto de extermínio”, do jovem fluminense Cirilo Lemos, é de longe o melhor texto da antologia e, arrisco dizer, um dos melhores contos da fc brasileira em todos os tempos. Bem escrito, com diálogos precisos, cenas empolgantes e personagens muito bem estruturados, a noveleta apresenta recursos mais que suficientes para ser expandida num romance. Até as citações são de uma engenhosidade inspirada e não perturbam a credibilidade da história, que gira em torno de Jerônimo Trovão, assassino de aluguel que se mete numa confusão maior do que pode administrar. A trama de várias frentes revela aos poucos a estrutura do rico universo alternativo que Lemos criou.
Outra noveleta ótima é “Cobra de Fogo”, do experiente roteirista Sid Castro, um dos raros exemplos de ficção desportiva na fc brasileira. É o texto que melhor responde às propostas da antologia, com uma corrida mundial de super locomotivas, sendo M’Boitata, a tal Cobra de Fogo, a representante do Brasil nessa disputa que tem um ligeiro fundo político. Ecos de Esses homens maravilhosos e suas máquinas voadoras, filme de 1965 dirigido por Ken Annakin, reverberam em cada página da noveleta, que tem um sabor Golden Age bem ao gosto do leitor brasileiro.
O texto que fecha o volume é “Só a morte te resgata”, do português Jorge Candeias, único autor estrangeiro da antologia. A primeira metade da história é militar, com uma batalha aérea entre caças e dirigíveis, que depois é completada por um thriller de espionagem, no qual um sobrevivente da batalha narrada anteriormente tenta retornar para casa. Trata-se de uma história dramática, e uma breve notinha final acrescenta-lhe uma profundidade pessoal emocionante.
Graças à experiência e representatividade dos autores selecionados, Dieselpunk resultou numa antologia de qualidade média superior às seletas nacionais publicadas recentemente. Um caminho adequado caso se pretenda construir outras seleções de boa qualidade dentro das limitações do mercado brasileiro.
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* Assim como a antologia anterior, esta reúne histórias de ficção científica recursiva, voltada para o passado.

quinta-feira, 11 de maio de 2023

A noite dos insensatos, Simone Saueressig

A noite dos insensatos e outras histórias bizarras
, Simone Saueressig. Novo Hamburgo: edição de autor, 2023. 

Houve um tempo em que os textos escritos pelos autores de fandom brasileiro de fc&f eram efetivamente lidos e causavam debates furiosos nas redes sociais analógicas da época, que aconteciam nas páginas dos fanzines que também veiculavam os textos em si. 
As redes digitais pareciam, a princípio, acenar com um acirramento desse tipo de debate, mas foi uma expectativa frustrada rapidamente na medida em que os autores abandonaram as discussões para evitar os melindres em seus seguidores. O encarregado de uma grande editora, hoje já fora do mercado, chegou a anunciar uma lista negra para os autores que fizessem comentários polêmicos nas redes. 
Portanto, é de se comemorar a iniciativa da fantasista gaúcha Simone Saueressig, que publicou com seus próprios recursos a coletânea A noite dos insensatos e outras histórias bizarras, com seis contos imprevisíveis e absolutamente fora do espaço de conforto da autora. 
Conhecida por sua ficção de viéz folclórico voltada principalmente para o público juvenil, Simone investe aqui em textos de forma e natureza totalmente diversos de suas características, com um forte conteúdo humorístico, quase sempre negro, e ataques declarados a comportamentos da sociedade brasileira recente. 
A coletânea tem apenas 37 páginas, mas seu conteúdo é explosivo e de alta octanagem, que levou legiões de usuários das redes sociais a mover uma verdadeira campanha contra o volume, algo que não se via no fandom desde que as redes decidiram limar Monteiro Lobato da literatura brasileira. 
O conto título abre a antologia e é o mais longo da seleta. Trata-se de uma farsa engraçadíssima, um tipo de charge literária, sobre dois alienígenas que atuam em segredo na proteção do planeta Terra e decidem fazer uma visita não autorizada à uma região ao sul do Brasil em meio a campanha eleitoral de 2022. Sendo charge, o texto exige uma certa contextualização para fazer sentido, mas acredito que os brasileiros não terão problema com relação a isso. 
"Buraco de minhoca" narra o drama de uma dona de casa que tem em sua máquina de lavar roupas a extremidade de chegada de um buraco de minhoca de onde surgem todos os pés de meias perdidos no mundo.
"Pleonasmos" é uma narrativa metalinguística que surpreende porque a autora desrespeita sua própria filosofia de escrever corretamente e comete repetidos e deliberados pleonasmos, tudo a serviço do desfecho da história. 
"Infestação" é a história mais poética do conjunto, sobre uma jovem que passa a ser incomodada pela presença cada vez mais intensa de variados tipos de insetos em sua casa, prenúncio de importantes transformações na sua vida.
Em "A reforma" temos uma narrativa de horror, uma especialidade da autora. Durante uma reforma em sua residência, o pedreiro abre um buraco na parede que se transforma em uma gigantesca bocarra faminta. 
"Tsundoku" fecha o volume com a história de uma amante dos livros que compra muito mais do que consegue ler. A certa altura, os volumes começam a brotar expontaneamente até ocuparem toda a casa, que se torna então num labirinto de livros empilhados onde as pessoas desaparecem para sempre. 
Como se vê, a autora flerta com o modelo de fantasia de Murilo Rubião e Jorge Luis Borges, com textos curtos e poderosos que não permitem que o leitor fique impassível a eles. Com exceção do conto título, todos os demais têm protagonistas femininas em meio ao cotidiano urbano, o que certamente deve significar alguma coisa importante.
O volume foi publicado apenas em formato virtual para leitores Kindle e pode ser adquirido aqui. Contudo, quem não tiver o dispositivo poderá ler o livro no aplicativo online da própria plataforma. 
Recomendo fortemente a leitura, por ser um ponto de virada na obra da autora, pelas discussões que suscita e porque é uma leitura bastante rápida. Dessa forma, mais gente pode entrar na discussão. Afinal, "A noite dos insensatos" é ou não proselitista? Não vou responder, mas que é divertidíssimo, lá isso é.

quarta-feira, 10 de maio de 2023

Lançamento: Esperando o dono

Está em pré venda, pela editora Caos e Letras, a coletânea Esperando o dono, do editor, crítico e jornalista André Cáceres, que reúne roteiros de três peças inéditas do autor, todas no linha da ficção fantástica. 
Diz o texto de apresentação, assinado por Luiz Brás: "A trama de 'Esperando o dono' e 'Os tripulantes' se passa no futuro, enquanto a trama de 'A pedra bissexta' se passa no presente. As três histórias funcionariam muito bem no formato literário, afinal André Cáceres é um ficcionista talentoso. Mas confesso que a quebra de protocolo me agradou muitíssimo. Afinal, a literatura já está tão cheia de contos, novelas e romances futuristas & sobrenaturais! Não só a literatura. As telonas e as telinhas também. Enquanto o espaço cênico continua tão vazio de androides, mutantes, espaçonaves, maldições, feitiçarias, horror cósmico…"
Além da expressiva contribuição para a divulgação dos gêneros fantásticos em seus artigos no jornal O Estado de S. Paulo, a produção literária de Cáceres já conta com os romances Nebulosa (Patuá, 2021) e Cela 108 (Multifoco, 2015), aos quais se soma esta bem-vinda coletânea, um acréscimo interessante à produção da fcf brasileira tão carente da dramaturgia em sua bibliografia.
Reservas de exemplares e mais informações no saite da editora, aqui.

terça-feira, 9 de maio de 2023

Resenha do Almanaque: Conan, o bárbaro, Robert E. Howard

Conan, o bárbaro (Conan, the conqueror), Robert E. Howard. 392 páginas. Tradução de Alexandre Callari.  São Paulo: Évora/Generale, 2011.

Depois de quase um século, finalmente as editoras brasileiras parecem ter descoberto os atrativos da Weird Fiction, estilo narrativo desenvolvido em revistas pulp como a Weird Tales, editada em 1923 por J. C. Henneberger, em Chicago, EUA. Em 2011 chegou às livrarias brasileiras, pela Editora Évora, a coletânea Conan, o bárbaro, de Robert E. Howard, a reboque do lançamento da superprodução cinematográfica homônima, dirigida pelo alemão Marcus Nispel, remake do grande sucesso de 1982 estrelado por Arnold Schwarzenegger. O livro traz alguns textos inéditos no Brasil deste personagem que é uma bem-sucedida franquia internacional, que se espalha por diversas mídias como o cinema, os quadrinhos, a televisão e os videogames.
Howard nasceu em dezembro de 1906, em Peaster, Texas, e nos breves 30 anos em que viveu, construiu uma saborosa mitologia ancestral, amálgama de histórias de guerras medievais com fantasias das Mil e Uma Noites, que hoje é conhecido como o subgênero Sword and Sorcery (Espada e Magia). Nessa versão delirante do passado da humanidade trafega Conan, guerreiro das montanhas geladas de algum lugar que parece ser o norte da Europa e que, no mundo criado por Howard, chama-se Ciméria. Aliás, Howard redesenhou o mapa do mundo, definindo um continente estranho, no qual se pode identificar versões de diversas culturas recentes, como os turcos, os árabes, os egípcios e até os romanos. A arquitetura descrita também se apoia nas desses povos, com uma boa dose de medievalismo europeu. Depois de bem cosida, Howard fixou essa mixórdia cultural numa época doze mil anos atrás, quatro mil anos depois do desaparecimento da lendária Atlântida, que chamou de Era Hiboriana. O ambiente é tão rico que permitiu a criação de outros personagens, como o Rei Kull, que governou a Atlântida em seus últimos dias.
Quase todas as histórias de Conan foram escritas entre 1926 e 1930, e publicadas principalmente na Weird Tales. A primeira história impressa foi chamada “A fênix e a espada” (“The phoenix on the sword”),  publicada em 1932. A série original completa conta com apenas vinte e um textos, três dos quais publicados postumamente. Na década de 1950, o material foi republicado em forma de livro pela Gnome Press, e reeditado em 1966 com belíssimas capas ilustradas por Frank Frazetta, que lhe renderam o sucesso atual. Autores como L. Sprague de Camp e Lin Carter deram sequência às aventuras de Conan, algumas a partir de manuscritos incompletos posteriormente descobertos.
No Brasil, os textos de Howard foram pouco publicados. A primeira tradução que se tem notícia foi do conto “A fênix e a espada”, visto em 1973 no número 7 da revista Planeta (Editora Três), então editada por Ignácio de Loyola Brandão. Outro texto de Howard só iria aparecer em 1990: “O povo do Círculo Negro” (“The people of the Black Circle”), publicado na antologia Isaac Asimov Apresenta: Magos, os Mundo Mágicos da Fantasia (Editora Melhoramentos). Em 1995, a editora Mercuryo, pelo selo Unicórnio Azul, distribuiu nas bancas cinco volumes do periódico Conan: Espada e Magia, com uma seleção de histórias do bárbaro escritas por Howard e seus seguidores. No ano seguinte, a editora Newton Compton Brasil distribuiu, do mesmo modo, um volume com a novela Pregos vermelhos (Red nails), um dos maiores clássicos do personagem. Em 2006, a Editora Conrad publicou dois volumes somente com contos de Conan escritos por Howard, na sua sequência original.
Conan, o Bárbaro apresenta quatro textos: o já anteriormente visto “Os profetas do Círculo Negro”, mais os inéditos “Além do Rio Negro” (“Beyond the Black River”), “As negras noites de Zamboula” (“Shadows in Zamboula”) e “A hora do dragão” (“The hour of the dragon”).
O livro inicia justamente com “A hora do dragão”, que narra um episódio da vida madura de Conan, durante seu reinado na Aquilônia. Três nobres de segunda linha tramam com um feiticeiro para se colocarem no poder dos reinos da região da Aquilônia. Para isso, restauram a vida de Xaltotun, um poderoso mago do extinto reino do Pyton, fazendo uso de um objeto místico chamado Coração de Ahriman. Xaltotum usa seus poderes para tirar Conan do trono, mas seu objetivo é muito mais amplo do que esperam seus capangas: ele pretende restaurar o antigo poder de Pyton e dominar todo o mundo hiboriano. Enquanto os nobres mergulham a região num banho de sangue, o deposto Conan tem que lutar para sobreviver, descobrir uma forma de derrotar o poderoso Xaltotum e assim poder recuperar seu trono. Trata-se do texto mais longo que Howard escreveu com o bárbaro. Considerado como o único “romance” de Conan, “A hora do dragão” é, na verdade, uma novela de narrativa linear centrada no protagonista. A história é cheia de detalhes, com muitos personagens e as costumeiras cenas da batalhas grandiosas típicas das aventuras de Conan.
“Além do Rio Negro” é o texto seguinte, uma noveleta que mostra o herói num período anterior, quando ele ainda era um guerreiro errante. Embrenhado na selva, Conan se envolve em uma guerra de fronteira com os selvagens pictos, raça de homens primitivos e ferozes, liderados por um xamã sedento de vingança. Apesar de curto, é o texto mais denso do volume, com um forte clima claustrofóbico.
“As negras noites de Zamboula” é a narrativa mais curta da coletânea. Depois de escapar de uma armadilha engendrada pelo proprietário da hospedaria onde dormia, Conan conhece uma linda dama que o convence a resgatar seu amante das garras de um feiticeiro. Depois de algumas tribulações, Conan acaba aplicando sua costumeira justiça, inclusive contra o traiçoeiro estalajadeiro que tentara enganá-lo.
“Os profetas do Círculo Negro” fecha o volume, um texto com a mesma carga épica da novela inicial. Conan é o líder de um bando de salteadores das montanhas que tenta negociar com a milícia local a libertação de alguns de seus homens que foram capturados. Mas ele é atacado e, ao fugir, leva a rainha Jasmina de Vendhya refém. Esta, por sua vez, pede a ajuda de Conan para vingar seu irmão morto pelas artes mágicas dos Profetas Negros de Yimsha, necromantes que habitam uma fortaleza mística no alto das montanhas. Levado pelas circunstâncias, Conan não tem outra opção a não ser enfrentar esses seres, para salvar a própria vida e recuperar a liderança de seus homens.
Os textos têm tradução de Alexandre Callari, autor da casa pela qual teve publicado em 2011 o romance Apocalipse zumbi. Callari assina também a apresentação da coletânea, que tem prefácio do roteirista norte-americano Roy Thomas, comentando a adaptação do personagem para os quadrinhos, o que soa um pouco deslocado no contexto de um volume literário, especialmente para aqueles leitores que não acompanham os quadrinhos do personagem.
O livro ainda traz um caderno de oito páginas com imagens em cores do remake e a capa reproduz o cartaz do filme. O grande problema ao associar tão enfaticamente a publicação de um texto clássico como este a uma adaptação cinematográfica é a enorme possibilidade de que o filme seja mal recebido pela crítica e pelo público. E quando um filme não vai bem, seus subprodutos tendem a seguir-lhe a trajetória, o que seria uma pena no caso deste livro, que tem qualidades suficientes para sustentar-se. Afinal, se há um subproduto aqui, ele é o filme.
No momento em que títulos como O senhor dos anéis, Crônicas de Nárnia e A guerra dos tronos estão entre os mais vendidos das livrarias, é um ótima chance para Howard, que foi um daqueles que moldou a forma original da fantasia como gênero.