sexta-feira, 6 de março de 2015

Sagas 5: Revolução

Em 2010, a coleção Sagas inaugurou as atividades da Editora Argonautas, fundada pelos escritores Cesar Alcázar e Duda Falcão, em Porto Alegre. Os editores não esconderam sua admiração pela saudosa coleção de livros de bolso Argonauta, da editora portuguesa Livros do Brasil que, por décadas, foi a fonte principal de publicação de ficção científica em língua portuguesa. Como todos os brasileiros que cresceram lendo esses livrinhos, eles também sonharam criar sua própria coleção no país, e a Sagas foi a solução que escolheram para realizar esse sonho.
Sagas é uma série de antologias que, a cada edição, adota um tema base para a seleção dos contos. O primeiro número foi Espada & magia, o segundo, Estranho oeste, o terceiro, Martelo das bruxas, e, o quarto, Odisseia espacial, deixando claro o gênero abordado: fantasia heróica, faroeste, horror e ficção científica, respectivamente. Desde o princípio, os editores deixaram claro que não tinham grandes pretensões literárias para a coleção. A ideia era que Sagas se situasse no nicho das publicações populares, com textos acessíveis e temas instigantes. As capas coloridas e chamativas, ao estilo das histórias em quadrinhos, revelam a intenção pulpesca.
Em 2014, Sagas chegou a sua quinta edição, num volume de 92 páginas subtitulado Revolução. Trata-se do tema mais aberto da coleção até o momento, que não deixa claro ao leitor para que lado a seleção pretende levá-lo. E, de fato, as histórias são bem variadas. O prefácio traz um ensaio assinado por Rafael Hansen Quinsani, mestre em História e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que justifica o valor do tema escolhido, embora deixe transparecer que provavelmente não tenha lido os contos previamente, prática comum nas antologias publicadas no país.
O primeiro conto, "A Batalha das Garras Negras", do escritor gaúcho André Cordenonsi, parece ser parte de um projeto maior. No final do texto o autor faz constar o subtítulo "As crônicas de Thandor, Volume 1, Tomo 5", que parece confirmar esta suspeita. A história conta como uma comitiva soldados humanos que pretende negociar um acordo com seus inimigos – uma tribo de lobisomens que habita as florestas – acaba num banho sangue depois de uma traição. Quem foi o traidor é o grande mistério. O texto é ágil e repleto de imagens típicas das histórias de fantasia medieval, ao estilo Guerra dos tronos e O senhor dos anéis. O problema é que tudo acontece muito rápido e não há tempo para o leitor identificar os personagens que, para piorar, têm nomes complicados que dificultam o reconhecimento. É preciso prestar muita atenção para entender quem está matando, quem está morrendo e quem, afinal, é o traidor. Sinal que nem sempre funciona tomar um fragmento de um texto maior como um conto independente.
O segundo trabalho é "Nas nuvens", ficção científica de Fábio Fernandes, tradutor experiente e autor surgido nos fanzines do final do século, no caldeirão que ficou conhecido como Segunda Onda da ficção científica brasileira. Fernandes é autor de alguns textos muito bem avaliados entre os fãs do gênero, mas infelizmente não é o caso deste conto, que não disfarça o tom intolerante e preconceituoso. Narra uma sessão de tortura de um subversivo que, de fato, é um cavalo de Tróia através do qual será implantado um vírus nos computadores do governo, um estado policial formado por fanáticos religiosos. A cena final é tão constrangedora que somente posso tomar este texto como uma piada que não deu certo.
O terceiro conto é "Atrás das muralhas, atrás das cortinas", de Felipe Castilho, autor paulista que está construindo uma obra interessante inspirada na mitologia brasileira, como se vê nos livros Ouro, fogo & megabytes e Prata, terra & Lua cheia. O texto em questão, contudo, escapa desse viés. Trata-se de uma mistura de fantasia que coloca Robin Hood num contexto distópico no qual uma sociedade hedonista despreza e explora as pessoas que não atingem um padrão mínimo de beleza. A história é contada pela ótica de João Pequeno, um faxineiro gordo que, por acaso, tem uma belíssima voz. O envolvimento da música na trama é o melhor ponto do trabalho, lembrando o já clássico "Sonata desacompanhada", do escritor americano Orson Scott Card.
Fecha a edição o conto "Não confie em ninguém quando a revolução vier", da gaúcha Nikelen Witter, o melhor texto do conjunto. Trata-se de uma fantasia de história alternativa situada em algum momento do século 19. Uma espiã a serviço do governo entrega o objeto de sua missão ao seu empregador, uma arma secreta tão poderosa que pode por fim a revolução popular que grassa nas ruas. Mas o que ela não diz é que ter a tal arma nas mãos pode não ser a melhor forma de vencer a guerra. Nikelen é historiadora e, junto com Alcázar, Falcão e outros colaboradores, faz parte da equipe que organiza a Odisseia de Literatura Fantástica de Porto Alegre.
A capa traz uma ilustração de Fred Rubim, que reúne detalhes de cada um dos contos publicados.
Sagas 5: Revolução cumpre o objetivo de entreter o leitor com textos inéditos de bons autores brasileiros.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Distrito Federal

Luiz Bras estreou no restrito ambiente da ficção especulativa literária há menos de dez anos, mas já faz parte dos grandes nomes do gênero no país. Fica fácil entender o por quê quando descobrimos que Bras é clone de Nelson de Oliveira, importante escritor mainstream que se retirou da lida para algum refúgio paradisíaco, para curtir os mimos proporcionados pelos milhões de dólares de seu bem merecido patrimônio. Bras herdou de Oliveira a habilidade com as palavras, que tem aplicado no exercício da ficção especulativa, a qual está empenhado em entender e interagir.
Entre os muitos títulos do autor estão as bem avaliadas coletâneas de contos Paraíso líquido (2010), Máquina Macunaíma (2013) e Pequena coleção de grandes horrores (2014), os romances Sozinho no deserto extremo (2012), Sonho, sombras e super-heróis (2011) e Babel Hotel (2009), a não ficção Muitas peles (2011) e uma porção de antologias, como autor selecionado, como organizador ou ambos.
Um dos traços de Bras é sua busca constante por uma voz particular, que se aproveita de um estilo maduro com traços pós-modernos e poesia concretista abusando de aliterações e pleonasmos, além de propostas narrativas que fogem do padrão convencional sem perder de vista os elementos especulativos, geralmente da ficção científica mas também da fantasia e do horror, com um diálogo próximo ao do estilo que se convencionou chamar de cyberpunk, com o qual o autor parece se identificar. Outra característica de Brás é sua facilidade para lidar com temas nacionais de todos os matizes, desde elementos folclóricos até a política nacional. E é exatamente este o caso de Distrito Federal, romance que o autor nomeou como "rapsódia tupinipunk", que revela muito sobre a forma como o autor a compôs.
Trata-se de um texto experimental, com pendão inegavelmente poético, que retoma ideias testadas em dois contos homônimos vistos em suas antologias anteriores. A história é um vitral formado por pequenas narrativas focadas nas ações e solilóquios de um curupira – o último de sua espécie – que, enlouquecido com a destruição das matas brasileiras, toma o corpo de um jovem humano e passa a assassinar, com requintes de artística crueldade, a população corrupta da capital do país: deputados, senadores, ministros, governadores, prefeitos, secretários, banqueiros, tesoureiros, políticos de forma geral pois, para o curupira, a corrupção fede terrivelmente.
As ações deste improvável anjo vingador, que sempre escapa de qualquer tentativa de captura, faz surgir um exército de imitadores que matam da mesma forma que ele. Há algum conflito quando o curupira encontra, por acaso, o último saci, que também tomou o corpo de alguém e está matando, mas como são inimigos naturais, acabam não se entendendo.
Na medida em que o curupira e o saci promovem sua cruzada sangrenta, a realidade vai sendo sobreposta pela de um popular jogo eletrônico online, justamente chamado de Distrito Federal, que mistura política,  mitologia e muita violência. O surgimento de uma criança especial, que não é nem menino nem menina, exacerba ainda mais os acontecimentos, o que pode levar ao fim da humanidade sobre o planeta.
A leitura do texto é fácil e ligeira, com abundância de frases muito curtas, mas a narrativa fragmentária não dificulta o entendimento do enredo, embora este seja algo secundário na obra. A experiência estética literária é bem mais importante aqui, por isso é recomendável que o leitor esteja aberto à ela.
Distrito Federal é uma publicação da editora paulista Patuá, cujo lema "livros são amuletos" combina perfeitamente com este romance, que tem 280 páginas em papel polem e acabamento luxuoso, encadernado com capas duras e ilustrado por Teo Adorno – outro clone que Nelson de Oliveira deixou para trás.
Uma última observação que se pode fazer sobre Distrito Federal está expressa, de forma clara e absoluta, na última página do volume: "...reunião de ciência & religião, passado, presente & futuro, cultura popular & alta cultura..."; é a receita de Luiz Brás para resolver o histórico impasse entre a ficção de gênero e o mainstream, que tem buscado desde a sua estreia. Desta forma, Distrito Federal é a proposta mais bem acabada do autor para a ficção de gênero brasileira. Resta saber se o fandom e o mainstream, monstros ferozes, cheios de tentáculos e presas afiadas, vão entender isso. Se não entenderem, azar deles. Luiz Bras entendeu muito bem.

Velta 15

Está disponível o número 15 de Velta, a super-detetive, fanzine eletrônico dedicado a publicar, em ordem cronológica, as histórias em quadrinhos de Velta, super heroína criada nos anos 1970 pelo artista paraibano Emir Ribeiro. Nesta edição, a chocante detetive enfrenta uma das vilãs que mais lhe deu trabalho ao longo dos anos. Também traz mais uma seleção de pinups de Velta, realizadas por diversos artistas brasileiros.
A edição tem 36 páginas em cores e pode ser baixada gratuitamente aqui.

Carqueija em ação

O escritor carioca Miguel Carqueija, um dos mais produtivos autores da Segunda Onda da ficção científica brasileira, disponibilizou gratuitamente a boa coletânea Nas garras do futuro, na qual apresenta uma série de contos distópicos – uma variação incomum em sua obra – entre os quais se destacam trabalhos do ciclo A guerra da água, que têm muito a dizer neste momento de "crise hídrica".
O autor também publicou aqui a entrevista que fez com o também escritor Ronald Rahal, com o qual mantém algumas parcerias, e uma resenha ao clássico romance A hora dos ruminantes, de José J. Veiga, autor que se estivesse vivo, completaria 100 anos em 2015. Valem a leitura.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Megalon 58

Volta a estar disponível, para download gratuito, o número 58 do fanzine de ficção científica e horror Megalon, editado por Marcello Simão Branco, originalmente publicado em setembro de 2000.
Com capa em cores de Christina Wioch (EUA), a edição tem 40 páginas e traz uma seção especial sobre a ficção científica na França, com um extenso ensaio do pesquisador francês Jean-Claude Dunyach, acompanhados de dois artigos sobre a presença de fc francesa na internet, por Bleckbird, e sobre a fc francesa em língua portuguesa, pelo editor. Também traz ficções de Simone Saueressig, Miguel Carqueija e Gerson Lodi-Ribeiro, poema de Roberval Barcellos, quadrinhos de Edgar Franco, artigos sobre o cinema de fc, por Jorge Luiz Calife, as seções fixas  "Barreiros desintegra!" e "Terras alternativas", e o um panorama da cena da fc&f no país nas seções "Diário do fandom", "Publicações recebidas", "Arte fantástica brasileira".
Um arquivo bônus complementa a imagem deste recorte historiográfico, com recortes de um interessante artigo da revista Veja sobre o escritor Henrique Flory e material de divulgação de fanzines e eventos da época.
Outro brinde para os colecionadores é mais uma a imagem da série "Pulp Brasil", com a capa da primeira edição da revista Isaac Asimov Magazine (1990), que pode ser apreciada aqui.

Lendas brasileiras do automobilismo

Está nas bancas mais uma coleção de miniaturas de automóveis de competição: Lendas Brasileiras do Automobilismo, com carros da Fórmula 1 pilotados por brasileiros, desde os anos 1950 até hoje. A coleção prevê 60 miniaturas na escala 1:43, acompanhadas de fascículos com curiosidades e detalhes dessas supermáquinas e dos pilotos que as conduziram. Ayrton Senna, Nelson Piquet, Emerson Fittipaldi, José Carlos Pace, Mauricio Gugelmin, Felipe Massa, Rubens Barrichello e muito outros serão lembrados,. As miniaturas são em metal e pintadas a mão com todos os detalhes, incluindo o piloto e seus uniforme e capacete.
O primeiro número traz a lendária McLaren MP4/4 com o qual Ayton Senna conquistou o primeiro campeonato mundial na categoria, em 1988, na versão vista no GP de San Marino.
Lendas Brasileiras do Automobilismo é quinzenal e é uma publicação da Eaglemoss Collections.

Hora amarela

É sempre bom ver quando a ficção especulativa dá saltos quânticos no Brasil para outras mídias além dos livros, e este blogue tem todo o interesse em fazer esses registros.
É o caso da peça teatral A hora amarela, versão brasileira de Through the yellow hour, escrita pelo dramaturgo norteamaricano Adam Rapp que, depois de uma temporada no Rio, está em cartaz no Sesc Bom Retiro, em São Paulo.
A montagem tem a direção de Monique Gardenberg, com interpretação dBercovicth, Monica Torres e Daniel Infantini. O texto foi traduzido por Isabel Wilker, que também faz parte do elenco.
e Deborah Evelyn, Michel
Trata-se de uma ficção científica que não tem medo de se assumir como tal, e conta a história de Ellen, uma sobrevivente que abriga refugiados no porão de um edifício em uma Nova York arrasada por uma guerra futura, enquanto espera pela volta de seu marido, desaparecido há 52 dias.
Assim como acontece em outras histórias do mesmo perfil, como o dramático romance A estrada (The road), de Cormac McCarty, a peça não se importa em explicar a guerra que devastou a Grande Maçã, antes prefere tratar das relações entre os personagens nessa situação limítrofe.
A temporada vai até 29 de março de 2015, com apresentações sextas às 20h, sábados às 19h, e domingos às 18h. O Sesc Bom Retiro fica na Alameda Nothmann, 185. Não recomendado para menores de 16 anos.