sábado, 14 de fevereiro de 2015

Black Magic 1

Black Magic: Mito e magia é o título de uma nova revista eletrônica que está circulando na internet desde o final de 2014.
Inteiramente dedicada aos contos nacionais de ficção fantástica, especialmente no gênero fantasia, como o título sugere, é editada por Charles Dias e coirmã da já conhecida Black Rocket, dedicada à ficção científica.
A edição tem 122 páginas e segue o formato de ebook, com poucas ilustrações. Traz contos de Allana Dilene, Ana Lúcia Merege, Carlos Relva, Karen Alvares, Marcia Harumi Saito, Melissa de Sá, Pedro Luna,Rodrigo van Kampen (editor da similar revista Trasgo) e Ubiratan Peleteiro, além do próprio Charles Dias. A capa é do ilustrador Nick Grey.
A revista é publicada no formato pdf, pode ser baixada gratuitamente aqui.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Velta 14

Está disponível a edição 14 de Velta, A super-detetive, série que está apresentando, em ordem cronológica, mais de 40 anos de histórias da gigante loura criada por Emir Ribeiro em 1970.
A edição tem 36 páginas e traz a história "A volta de Kátia", em que o alter-ego de Velta flagra seu namorado em uma relação muito comprometedora. Completam a edição mais uma galeria de pinups de admiradores da personagem, entre eles Gerson Witte, Wellington Fiúza, Evandro Molina.
A edição pode ser baixada gratuitamente aqui, numa edição do saite Rock & Quadrinhos.

E se?

Havia uma querela entre Isaac Asimov e Arthur C. Clarke quanto a quem escrevia melhor. Ambos tinham formação científica acadêmica, eram romancistas bem sucedidos e também ótimos autores de livros de divulgação científica. Depois de muito debate, chegaram a um acordo: Clarke era melhor romancista e o segundo melhor divulgador científico, e Asimov o melhor em ciências e o segundo melhor romancista. Apesar desse consenso particular, continuaram a fazer ambas as coisas de forma perfeita por toda a vida. Além da excelente ficção, os livros científicos de Asimov e Clarke são ótimos de ler, mesmo para quem não entende absolutamente nada de ciência, pois são claros, simples e empolgantes.
Por isso, não é pouco dizer que desde Asimov e Clarke eu não me divertia tanto com um livro científico quanto com E se? Respostas científicas para perguntas absurdas (Want if? Serious scientific answers to absurd hypotetical questions), de Randall Munroe, publicado no Brasil pela editora Companhia das Letras, com tradução de Erico Assis.
Munroe é norte americano, formado em Física e já trabalhou na Nasa como construtor de robôs, mas ficou famoso como autor da tira xkcd, publicada na internet desde 2005. As histórias são feitas com personagens de palitinhos muito expressivos e abordam ciência, tecnologia, amor e humor, é claro. Seguidores apaixonados começaram a enviar perguntas de todos os tipos para Munroe, que resolveu levar isso a sério. Para respondê-las, criou o saite What if?, que também tornou-se popular e foi a base de onde se compilou o conteúdo do livro em questão.
As respostas de Munroe são detalhadas e cientificamente embasadas, ainda que as perguntas sejam absurdas. Ele desenvolve longas considerações a partir de questões como "E se todas as pessoas do mundo ficassem bem juntas e pulassem ao mesmo tempo?", ou "De que altura você teria que soltar um bife para que ele chegasse cozido ao chão?", ou ainda "Se um asteroide bem pequeno fosse superdenso, seria possível morar nele como o Pequeno Príncipe?". Não há dúvida que são perguntas que podem ter ocorrido a muita gente e algumas respostas honestas certamente vão nos fazer dormir melhor. Mas as respostas mais inspiradas do livro podem até ter resultado contrário, mesmo a partir de perguntas bem menos angustiantes, como: "E se você tentasse rebater uma bola de beisebol arremessada a 90% da velocidade da luz?", "E se você reunisse um mol de toupeiras no mesmo lugar?" ou "Quanto tempo levaria para secar os oceanos se um portal para o espaço surgisse na depressão submarina mais profunda?" As respostas são sofisticadas e muito educativas, e podem inspirar ótimas ideias.
Ao todo são 57 perguntas respondidas nas 328 páginas do livro. Contudo, há perguntas que são de tal forma insanas que nem mesmo Munroe foi capaz de responder. Elas fazem parte das seções "Perguntas bizarras e preocupantes", espalhadas em oito capítulos ao longo do livro. Nitroglicerina pura.
O volume é profusamente ilustrado com os mesmos personagens de palitinhos do xkcd, e dão um show. Sem eles, a diversão não seria a mesma.
Se você gosta de ciência e não tem medo de dar uma olhada nos segredos do universo, este é o seu livro. Mas acho importante reproduzir aqui o aviso que o autor faz estampar na primeira página:
"Não tente fazer nada disso em casa. O autor deste livro desenha quadrinhos para a internet e não é especialista nem em saúde nem em segurança. Ele gosta de ver coisas pegando fogo e explodindo – ou seja, é provável que não esteja pensando no seu bem-estar. A editora e o autor não se responsabilizam por quaisquer efeitos adversos que resultem, direta ou indiretamente, de informações contidas nesta obra".
Pensando bem, eu também não me responsabilizo. Leia por sua conta e ris(c)o.

sábado, 31 de janeiro de 2015

Megalon 57

Está disponível para download gratuito o número 57 do fanzine de ficção científica e horror Megalon, editado por Marcello Simão Branco e publicado originalmente em junho de 2000.
A edição tem 36 páginas e traz ficções de Ivan Carlos Regina e Gerson Lodi-Ribeiro, artigos de Alfredo Keppler, Hindemberg Alves da Frota e John Clute (EUA), além das seções fixas "Diário do fandom", "Publicações recebidas", "Terras alternativas", "Arte fantástica brasileira", "Barreiros desintegra!" e "Correio cósmico". A capa tem uma pintura de Flavio Corrêa.
O editor disponibiliza também um arquivo bônus com documentos da época da publicação do fanzine, como o recorte de artigo assinado por Ataíde Tartari, o convite de lançamento da antologia Phantastica brasiliana e um informativo do grupo português Simetria com a programação para o mês de maio de 2000.
E ainda, como fruto de uma viagem internacional recente, Branco exibe uma série de imagens digitalizadas com capas de publicações de fc&f europeias: capa e contracapa de Almanacco del Mistero 2015 (Itália); capa e contracapa de Astronave mercenaria, de Mike Resnick, Coleção Urania 1614 (Itália); capa e página 3 de Bastei Maddrax Die Dunkle Zukunft Der Erde 391 (Alemanha); capa e página 3 de Perry Rhodan 2788 (Alemanha); capa e contracapa Perry Rhodan Neo 87 (Alemanha). Curta!

Juvenatrix 167

Está circulando a edição 167 do fanzine de terror e ficção científica Juvenatrix, editado por Renato Rosatti. A edição tem 11 páginas e traz conto de Rita Maria Felix da Silva, artigo sobre o filme O monstro da Lagoa Negra (1954) e resenhas dos filmes 13 fantasmas (1960), Brinquedo de criança (1984), A cripta dos sonhos (1973), O demônio de fogo (1967), Desafio ao além (1963), A essência da maldade (1973), A fúria das feras atômicas (1976), A múmia (1959), The bat people (1974) e Os zumbis de Mora Tau (1957). A capa tem uma ilustração de Angelo Junior.
Para solicitar uma cópia em pdf, basta enviar email para renatorosatti@yahoo.com.br.
Rosatti também lançou o número 8 do Boca do inferno, fanzine representante do saite Boca do inferno e do blogue Infernotícias. O fanzine, publicado exclusivamente em papel e distribuído em eventos, apresenta em duas páginas no formato A4 resenhas aos filmes Pânico no ano zero (1962), In the year 2889 (1967) e o clássico episódio Tempo suficiente do seriado Além da imaginação (1959).

Cem anos de Veiga

Desde minha adolescência, quando descobri a literatura do goiano José J. Veiga (1915-1999), que ele é o meu escritor favorito. Penso que Veiga encontro a maneira exata e equilibrada de mostrar o Brasil através de uma visão pessoal coalhada de maravilhamento que, logo no primeiro título que li – A hora dos ruminantes –, alinhei à ficção fantástica que já predominava nas minhas leituras, classificação essa que continuei a definir sua obra nos demais livros que vim a ler posteriormente. A maior parte dos críticos dizem que Veiga faz realismo mágico, mas um olhar mais atento vai identificar textos claramente vinculados à ficção científica, à fantasia e até ao horror. Até na história alternativa, subgênero extremamente especializado da fc, Veiga foi o pioneiro no país no livro A casca da serpente.
Um dos muitos méritos de Veiga, na minha opinião, é que bem antes da discussão conteúdo-forma se instalar no fandom de literatura fantástica, ele já a tinha resolvido em sua obra, contando histórias emocionantes sem nunca sacrificar a elegância do estilo, um caminho que a maior parte dos autores do gênero tem grande dificuldade em superar.
Veiga começou a escrever tardiamente: seu primeiro livro, a coletânea de contos Os cavalinhos de Platiplanto, foi publicado em 1959, quando o autor estava com 45 anos. Ao todo foram 16 livros, sendo o último deles a coletânea Objetos turbulentos, publicada em 1997.
Ainda que já tenha lido quase todos os seus livros – ainda faltam alguns –, fiquei muito feliz em saber que o autor terá, em comemoração ao centenário de seu nascimento, toda a obra publicada pela prestigiosa Editora Companhia das Letras.
Os dois primeiros livros já estão disponíveis e são, justamente, os já citados Os cavalinhos de Platiplanto e A hora dos ruminantes, ambos em edições luxuosas, em capa dura, na real medida que esse fabuloso autor merece. As capas são assinadas por Kiko Farkas e André Kavakama/Máquina Estúdio. Os livros também estão disponíveis em ebook. Altíssimamente recomendados.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Resenha: Livros para chamar o Sol

Os sóis da América III: O coração de jade, 184 páginas; Os sóis da América IV: A Pedra da História, 176 páginas, Simone Saueressig. Ilustrações e capas de Fabiana Girotto Boff. Edição da autora, Novo Hamburgo, 2014.

Em 2014, Simone Sauressig publicou, com recursos próprios, O coração de jade e A Pedra da História, partes finais da tetralogia Os sóis da América, saga de fantasia com as aventuras do menino Pelume por um continente americano mítico, em busca da história para chamar o Sol, sem a qual seu povo, que habita a longínqua Caverna Mais Alta do Mundo, localizada em uma ilha no Círculo Polar Antártico, jamais verá o astro nascer novamente.
Nos livros anteriores, O Nalladigua e A Flauta Condor, publicados em 2013, Pelume e seus amigos, a menina Misqui e o guarani Nimbó, atravessaram os territórios do sul, passando pelos pampas gaúchos, o Rio da Prata, as cataratas do Iguaçu, os campos de caçada e a grande cordilheira dos Andes, fazendo novos amigos e enfrentando perigos mortais, entre os quais o bruxo Machí que, tendo seus planos frustrados por Pelume, os persegue sem trégua, em busca de vingança a qualquer custo. Quando Pelume precipita-se nos abismos andinos, Misqui e Nimbó são obrigados a seguir viagem sozinhos.
O coração de jade inicia exatamente nesse momento. Miraculosamente, Pelume sobrevive a queda ao ser capturado, em pelo ar, por uma ave que pretende devorá-lo, mas o velho remo – que é um galho da lendária árvore Nalladigua – o protegeu do apetite da fera alada. Perdido na selva, Pelume é envolvido pelas promessas da traiçoeira Cobra Grande, que consegue convencê-lo a trocar seu coração puro de menino pelo transporte até a cidade de Tiahuanaco. No lugar, Pelume passa a ter um coração feito de jade, duro e frio, que a Cobra Grande lhe deu. Agora sem sentimentos, Pelume suporta sem muita dificuldade uma aterrorizante viagem no lombo da cobra, só para, no final da jornada, encontrar seus amigos aprisionados pelo poderoso Machí. O confronto com o bruxo revela o quanto o menino mudara. Pelume resgata seus velhos amigos, mas o custo emocional é enorme e a relação entre eles nunca mais seria a mesma. Na sequência da jornada para o norte, os meninos chegam à maravilhosa cidade Teothiuacán, onde se deparam com uma urbanidade inédita que deixa maravilhado até o insensível Pelume.
Ali eles conhecem um povo muito desenvolvido, mas que está passando por um momento delicado. Esta próxima a hora da cerimônia do Fogo Novo, quando todos os fogos da cidade são apagados e substituídos por uma nova chama. Para isso, é necessário o sacrifício de um homem honrado, ou então, de um pouquinho do fogo sagrado de Popocatepetl, o vulcão que se ergue sobre a cidade. Por trás do drama de Tenamaztli, o valente guerreiro que terá de ser sacrificado, está a história de ciúme de uma mulher egoísta que não se importa em colocar toda a cidade em risco de ser destruída apenas para satisfazer seus caprichos. Isso vai colocar os três jovens do sul na busca pelo fogo de Popocatepetl e numa luta infernal contra um exército de seres mágicos que prenunciam o fim do mundo.
A Pedra da História, volume final da série, vai levar os jovens aos limites setentrionais do continente. Perseguidos de perto pelo cada vez mais enfurecido feiticeiro Maquí, que agora tem um séquito de feras mágicas sob suas ordens, os do sul atravessam as grandes pradarias norte americanas, a Floresta Dourada e a Mata do Norte, conhecem povos nativos e civilizações mágicas, e encontram-se com a misteriosa Mulher-Aranha, que entrega a Pelume a misteriosa Pedra da História e faz revelações que o menino só poderia compreender se ainda tivesse um coração de verdade no peito. A fuga prolongada e cansativa, as constantes lutas e o frio cada vez mais intenso começam a minar a determinação de Pelume, e quando ele percebe que seus amigos estão muito próximos do completo esgotamento físico e emocional, ele mesmo dominado pela frieza de coração de jade, decide abandonar a busca e se entregar à ira de Maquí. Mas as revelações pelas quais tanto lutou, bem como o destino de seus amigos, estão para além da banquisas polares.
Assim como em O Nalladigua e A Flauta Condor, O coração de jade e A pedra da história são ilustrados por Fabiana Girotto Boff, que também assina as capas. Cada livro vem com um marcador de páginas que estampa um útil glossário de termos linguísticos e figuras mágicas, que ajuda a entender de onde veio a infinidade de criaturas fabulosas que aparece ao longo da narrativa e seu contexto no folclore das diversas culturas com as quais Pelume toma contato.
Apesar da invejável bibliografia da autora, que detém em seu currículo vários prêmios importantes e romances ousados como aurum Domini: O ouro das missões (2010), O jogo no tabuleiro (2010) e B9 (2011), Os sóis da América se destaca como um trabalho de fôlego, que certamente exigiu um esforço monumental de pesquisa. Seu maior mérito é ter ido além de qualquer bairrismo, reclamando todo o continente como o espaço sem as fronteiras que perdemos de vista por causa do apelo nacionalista, uma proposta corajosa e inovadora na ficção fantástica brasileira.