terça-feira, 23 de maio de 2023

Clube Andarilhos

A exemplo de outras editoras, a Andarilho inaugurou seu próprio clube de leitura, cujo diferencial é a dedicação à ficção fantástica. Mediante uma assinatura, o interessado recebe mensalmente uma caixa com um livro do gênero acompanhado de diversos mimos, como marcadores de páginas personalizados, placas decorativas, cartões de visita, cartões postais, livretos com contos extras etc. O conceito é trazer obras clássicas e inéditas de autores consagrados e pouco conhecidos. 
Já foram entregues caixas com os livros O cículo verde, de Arthur Machen; Vivendo só, de Stella Benson; Pela arte, de Tod Robbins; Uma troca de almas, de Barry Pain; Jimbo, de Algernon Blackwood; Pesadelo, de Gertrude Barrows Bennett; A coluna do tempo, de Malcolm Jameson; e A fábrica do absoluto, de Karel Capek.
Os livros têm formato de bolso para favorecer a leitura em todos os lugares. 
Mais informações no saite da editora, aqui.

segunda-feira, 22 de maio de 2023

Resenha do Almanaque: Uma princesa de Marte, Edgar Rice Burroughs

Uma princesa de Marte (A princess of Mars), Edgar Rice Burroughs. 270 páginas. Tradução de Ricardo Giassetti. São Paulo: Aleph, 2010.

O mercado editorial brasileiro tem um déficit gigantesco em relação a fc&f de todas as épocas. Os motivos disso são inúmeros e passam pela falta de investimento, falta de educação, falta de critérios, falta de competência, entre outros. Ainda hoje, muitos editores continuam a pautar os títulos que pretendem publicar a partir de apelos acessórios, como por exemplo se o dito cujo vai ganhar alguma adaptação no cinema ou se tornar uma série de tv, como se os leitores só se interessassem por livros com esses vínculos, o que não é verdade.
Isso fica muito evidente quando se fala em Edgard Rice Burroughs (1875-1950), escritor americano que construiu um grande império de entretenimento graças a uma resma de séries de aventuras que escreveu na primeira metade do século 20. No Brasil, a única coisa que vem a mente quando se fala no autor é a série Tarzan dos macacos, personagem de grande sucesso que teve boa atenção dos editores por algum tempo – hoje está imerecidamente esquecido, uma vez que já não ocupa mais na mídia o espaço de outros tempos.
Mas, Burrougs não teve em sua carreira unicamente Tarzan. Ele foi um autor produtivo, que escreveu outros seriados interessantes e bem sucedidos, como Carson de Vênus, Pellucidar e John Carter de Marte que, inacreditavelmente, continuam inéditos em língua portuguesa. Ou estavam.
Pelo menos um desses personagens chegou enfim ao Brasil, traduzido pela editora Aleph. Uma princesa de Marte é o primeiro de uma série de onze livros da franquia Barsoom, publicado primeiramente em 1912 na forma de um seriado na revista All-Story Magazine. Trata-se de uma aventura que é, de muitas formas, o protótipo da pulp fiction que tanto sucesso fez em seu tempo. Trata-se de uma ficção científica com elementos de fantasia, chamada pelos teóricos do gênero como Ficção Planetária, pois toda a história gira em torno da descrição de um planeta alienígena, no caso Marte que, desde as declarações do astrônomo Percival Lowel, em 1895, sobre a possível habitabilidade do planeta vermelho, tornou-se alvo de interesse popular.
O romance foi influente em sua época e muitos escritores de ficção científica já declararam ter sido inspirados por ele. E não é por menos. A história é fabulosa, repleta de sense of wonder e até hoje impressiona.
Uma princesa de Marte conta o que acontece com John Carter, veterano da guerra civil americana que, depois de resgatar o corpo de um companheiro atacado por índios selvagens, abriga-se em uma caverna que é tabu entre os indígenas. Ali ele é alcançado por um gás que o adormece profundamente. Quando desperta, não está mais na caverna, mas num lugar absolutamente estranho, nu e incapaz de andar, próximo a uma estrutura repleta de ovos que ele logo vai descobrir, de uma forma bastante desagradável, ser uma incubadora dos tharks, raça de  grandes seres verdes de quatro braços. Escravizado pelos tharks, Carter aprende sua língua e os impressiona com sua coragem e força desproporcional, uma vez que a gravidade do lugar é muito menor que a da Terra. Adquire o estatus de guerreiro depois de matar um deles e, apesar de ser um prisioneiro, ganha alguma autonomia dentro da tribo, onde faz amigos como o guerreiro Tars Tarkas e a fêmea thark Zola, assim como muitos inimigos formidáveis.
Quando os tharks atacam uma frota de grandes carros a vela, Carter descobre que em Barsoom, a forma como os tharks chamam seu planeta, é habitado também por uma raça humana. Eles capturam Dejah Toris, princesa de Helium, um reino fortificado que está envolvido numa guerra terrível contra o reino de Zodanga.
Os habitantes de Barsoon, que Carter vai descobrir ser o planeta Marte, vivem em guerra constante, atacando-se mutuamente. A biosfera de Barsoon sofre um processo acentuado de decadência, os oceanos e rios secaram e a atmosfera só é mantida graças a uma usina de processamento de oxigênio que existe há tanto tempo que sua tecnologia não é mais conhecida pelos barsoonianos.
Além de homens e tharks, Barsoon é habitado por uma série de animais interessantíssimos, alguns muito perigosos, outros assustadores, como o pequeno Woola, uma espécie de cão de múltiplas pernas que se afeiçoa a Carter, o mais fiel amigo que ele faz em Barsoon.
De combate em combate, Carter conquista o coração da bela Dejah Thoris, ajuda Helium a derrotar seus inimigos e até salva o planeta da destruição iminente, mas acaba voltando à caverna na Terra, muitos anos depois de sua partida – o tempo em Barsoon progride mais lentamente que aqui - onde passa o restante de seus dias.
A aventura é relatada na forma de um diário, escrito pelo próprio John Carter nos anos em que passou na Terra e deixado como herança a um sobrinho que o revela ao leitor conforme o recebeu, após o desaparecimento do tio. O romance não especifica se Carter retornou à Barsoon, mas uma vez que este é apenas o primeiro livro de uma série, é bastante provável que a resposta seja positiva.
Contudo, não há nenhuma garantia que os demais livros da série Barsoon – ou das outras séries de Burroughs – sejam publicados no Brasil*. Ficamos um pouco menos desinformados do que antes, porém com apenas este único exemplo da divertida ficção científica deste precursor importante do gênero.
E não dá para deixar de lembrar que Uma princesa de Marte só chegou ao Brasil porque, em 2009, os estúdios Disney anunciaram a produção um filme com a história – lançado em 2012 –, além do cineasta James Cameron ter afirmado que esse romance foi parte da inspiração para fazer o seu blockbuster Avatar. Ou seja, quanto mais as coisas mudam, mais continuam iguais.

* A editora brasileira descontinuou a série em 2012 depois de publicar mais dois títulos: Os deuses de Marte (The gods of Mars), e O comandante de Marte (The warlords of Mars).

sábado, 20 de maio de 2023

Resenha do Almanaque: Guerra justa, Carlos Orsi

Guerra justa
, Carlos Orsi. 150 páginas. São Paulo: Draco, 2010.

Um dia, no futuro imaginado por Carlos Orsi, um grande meteoro vai se abater sobre a Terra Santa, transformando-a em pó e deixando uma enorme cratera onde antes havia as bases mais sagradas das religiões ocidentais, abalando a fé ao ponto de eliminar do mundo todas a religiões conhecidas. No vácuo desse cataclisma, emerge um novo profeta – o Pontífice – que funda uma religião apoiada na tecnologia de ponta, cujo santuário fica em órbita da Terra, numa estação espacial.
Essa nova teologia, chamada de Quinta Revelação, ganha poder no mundo graças a capacidade do Pontífice para prever o futuro. Sua igreja torna-se, rapidamente, um governo mundial todo poderoso, um estado policial teocrata que literalmente controla a vida de todos através de implantes de alta tecnologia, decidindo os rumos da política internacional e determinando quem vive ou morre nas inevitáveis tragédias naturais.
Mas há pessoas que não concordam com o predomínio dessa força política e movem um plano secreto para desacreditá-la. Uma delas é Rebeca, infiltrada na estação espacial da Quinta Revelação. Ela rouba dados importantes do santuário e é morta durante a fuga, mas não antes de encaminhar esses dados ao seu destino, uma inteligência artificial chamada Ma Go que, com essa informação, adquire a mesma capacidade do Pontífice para antecipar acontecimentos futuros e estabelece um outro pólo de poder para confrontar a hegemonia da Quinta Revelação.
Rebeca tem uma irmã, Rafaela, pesquisadora de implantes de processamento a serviço da Quinta Revelação, que é abordada pelo grupo de dissidentes a qual sua irmã fazia parte. Ela é levada à Ma Go e lá confronta toda a verdade por trás da doutrina da Quinta Revelação e dos supostos poderes de seu lider espiritual. Ma Go pretende usar Rafaela para presentear o Pontífice com um poder ainda mais refinado, que pode colocar a igreja da Quinta Revelação num caminho menos impiedoso.
Carlos Orsi é um dos autores mais interessantes da Segunda Onda de Ficção Científica Brasileira. Seus contos estão entre os melhores que essa geração produziu, alguns deles publicados nas suas coletâneas Medo, mistério e morte (Didática Paulista, 1996), Tempos de fúria (Novo Século, 2006), Campo total (Draco, 2013) e Mistérios do mal (Draco, 2016), além de participações em diversas antologias.
Guerra justa foi seu primeiro romance, embora seja bastante curto. Pelo menos trinta de suas 150 páginas não têm texto, pois foram usadas como respiro entre os capítulos. Pelos padrões americanos, trata-se de uma novela, portanto. Mas esse tratamento gráfico deu ao romance uma leveza visual incomum e muito personalizada, usando inclusive o interessante recurso de páginas em negro, com texto vazado em branco.
Inteligências artificiais, pós-humanidade, manipulação da opinião pública e da informação a serviço de uma religião hegemônica revelam uma visão pessimista do autor com relação às religiões, que nada teriam a oferecer ao homem além de dor e sofrimento. Entrevistado no Anuário brasileiro de literatura fantástica - 2005, Orsi afirmou que acredita que, um dia, tudo o que existe será explicado pela ciência: Guerra justa é assim o seu libelo contra o misticismo religioso.
Apesar de ter apontado suas baterias às religiões, Orsi acabou acertando em outro alvo, qual seja, a absoluta incapacidade do ser humano para fazer o bem, pois nesse futuro distópico e violento, quem redime a humanidade é a inteligência artificial Ma Go. Orsi cria, assim, sua própria versão de Deus.
Contudo, algumas coisas não convencem no enredo, a começar da premissa algo exagerada de que todas as religiões desabariam caso as cidades sagradas dos cristãos, judeus e muçulmanos fossem destruídas por uma tragédia cósmica. Afinal, estas não são as únicas religiões do mundo e tanto o judaismo quanto o cristianismo já sobreviveram, em outras épocas, a destruição de seus templos mais sagrados.
O autor demostra habilidade ao emular o estilo de autores como Willian Gibson e Bruce Sterling – os mais populares fundadores do movimento cyberpunk – como, por exemplo, a forma episódica, com uma porção de personagens cujas histórias vinculam-se frouxamente, e uma espécie de globalização narrativa que lança a trama para os quatro cantos do mundo e até para fora dele, num mosaico expressionista em que a sensação vale mais que o enredo. A única personagem mais elaborada é Rafaela, que ancora levemente a trama mas não chega a causar identificação com o leitor. Seu destino, ainda que importante para o desfecho da história, é de somenos relevância damática.
Ainda que não esteja entre seus trabalhos mais expressivos, Guerra justa é um texto autoral interessante porque Orsi expõe nele algo de sua íntima convicção filosófica, indo além do simples exercício estético literário ou do entretenimento descomprometido que geralmente caracteriza a ficção científica brasileira. Um pouco de polêmica só pode fazer bem a um gênero que tem o talento histórico de discutir temas difíceis.

sexta-feira, 19 de maio de 2023

Resenha do Almanaque: Xenocídio, Orson Scott Card

Xenocídio (Xenocide), Orson Scott Card. 536 páginas. Tradução de Sylvio Monteiro Deutsch. São Paulo: Devir, Coleção Pulsar, 2010.

Orson Scott Card está entre os autores estrangeiros mais bem relacionados com o fandom brasileiro de ficção científica, o que é uma grande sorte nossa. Card morou no Brasil durante algum tempo nos anos 1970, como missionário, aprendeu a falar o português com desenvoltura e nutre pelo Brasil um carinho especial. Mesmo depois de sua temporada missionária, ele voltou pelo menos duas vezes ao Brasil, numa delas tivemos a oportunidade de compartilhar sua companhia num encontro de autores e editores em Sumaré*, no interior do Estado de São Paulo.
O autor promoveu então o lançamento de um de seus livros no país, mais exatamente o clássico O jogo do exterminador (Ender's game), publicado em 1990 pela editora Aleph inaugurando a coleção Zenith. Logo também seria publicada a sua sequência, O orador dos mortos (Speaker for the dead, 1990), pela mesma editora. Ambos os romances realizaram o feito de ganhar, por dois anos consecutivos, os mais importantes prêmios da fc mundial, o Hugo (1985 e 1986) e o Nebula (1986 e 1987), sendo o Card o único autor a realizar esse feito.
De Card também foram traduzidos, ainda nos anos 1990, os romances Um planeta chamado Traição (Treason, Record, 1993), A odisseia de Worthing (The Worthing saga, Record, 1994) e a novelização O segredo do abismo (The abyss, Record, 1989), além de diversos contos em revistas e antologias, entre eles o conto que deu origem ao romance O jogo do exterminador, também ganhador do Hugo, publicado pela revista Issac Asimov Magazine. Card ainda colaborou, por muitos anos, com diversos fanzines brasileiros. Contudo, a partir dos anos 1990 o autor ausentou-se do cenário editorial brasileiro, com raríssimas aparições. Até que a editora Devir republicou em 2006 O jogo do exterminador, seguido de O orador dos mortos em 2007 e, finalmente em 2010, a terceira parte da saga, até então inédita em língua portuguesa, Xenocídio.
Os vinte anos de espera foram longos, mas amplamente recompensados pela excelente edição da Devir, com a ótima tradução de Sylvio Monteiro Deutsch e a bela capa de Vargner Vargas.
Quem leu O jogo do exterminador sabe que Ender Wiggins, quando criança e sem que ele soubesse, foi treinado exaustivamente numa escola militar para ser usado como o estrategista de uma guerra de extermínio contra uma civilização alienígena, os abelhudos, um tipo de inseto inteligente e de hábitos gregários, que vive em colmeias.
O orador dos mortos conta o que aconteceu com Ender depois que a guerra acabou. Vagando pela galáxia em velocidades acima da luz, Ender assumiu a tarefa de orador dos mortos e, por isso, teve sua vida relativisticamente estendida. Enquanto a raça humana se espalhava pelo universo em dois mil anos de história, Ender não envelheceu mais do que quarenta anos. Em suas andanças, ele chega ao planeta Lusitânia, onde uma colônia científica formada por brasileiros encontrou uma raça inteligente de seres que são um curioso caso de interação entre animal e planta.
Xenocídio retoma a história da colônia em Lusitânia, onde os cientistas brasileiros tentam encontrar uma cura definitiva para o descolada, vírus nativo do planeta cuja letalidade é tamanha que ninguém que uma vez lá tenha pousado pode sair. Ender constitui família com uma das brasileiras do colônia e, secretamente, estabelece uma colmeia dos abelhudos a partir de um ovo de rainha que ele guardou cuidadosamente ao longo dos anos em que vagou pela galáxia.
As notícias sobre a virulência do descolada assustaram o corrupto Congresso Estelar, que decidiu enviar à Lusitânia uma frota de extermínio armada com o Doutorzinho, uma bomba destruidora de planetas, e garantir de uma vez por todas que a doença nunca saia de Lusitânia. A única forma de evitar que um novo xenocídio tenha lugar é encontrar a cura do descolada e, para ganhar tempo, Ender pede a Jane, uma inteligência artificial que o acompanha há tempos, para interromper todas as comunicações com a frota de extermínio.
Enquanto isso, no planeta Caminho, colonizado por chineses, Han Qing-jao, uma garotinha dotada de uma enorme inteligência é encarregada pelo Congresso de descobrir como e por quê a frota de extermínio desapareceu dos radares, e sua investigação, associada à relação conturbada com seu pai, ambos vítimas de um violento transtorno obsessivo compulsivo, assim como de ambos com a pajem Si Wang-Mu e Jane – a inteligência artificial de Ender – serão a chave da libertação de dois planetas e das três únicas raças alienígenas inteligentes conhecidas. Ou, quem sabe, quatro.
Um dos grande trunfos de Card, contudo, não é de sua lavra. Trata-se do ansível, um aparelho de comunicação subespacial primeiramente citado pela escritora americana Ursula LeGuin, que permite a comunicação instantânea com qualquer ponto da galáxia, independente de sua distância. É o ansível que dá sustentação a toda trama da saga de Ender, que ganha relevos cosmológicos a partir de Xenocídio. E essa discussão cosmológica é um dos grandes méritos do romance, que constrói uma intrincada teoria digna das mais elaboradas hardfictions, com desdobramentos em várias perspectivas, especialmente religiosas. O romance também traz outra grande discussão sobre bioética e ecologia, numa profundidade que só encontra paralelo nos romances da série Duna, de Frank Herbert.
Card não evita temas polêmicos e não extirpa a face religiosa de sua ficção, o que desagrada uma ampla parcela de leitores mais afeitos à ficção científica de ação. Não que Card não tenha habilidade para tal. Tanto que Xenocídio apresenta vários momentos de ação e violência intensa, mas os melhores momentos da trama são filosóficos, na forma de diálogos tensos entre os muitos protagonistas deste que é, sem dúvida, um dos melhores romances de ficção científica já publicados no Brasil. O fato de não ter repetido o desempenho de suas prequelas no que diz respeito aos prêmios, embora tenha sido indicado para o Hugo e para o Locus, não representa uma queda de qualidade, muito pelo contrário. Todas as discussões travadas no romance são intensas e bem articuladas, e sua riqueza é muito bem explorada pelo autor.
A Devir publicou, em 2013, o romance Filhos da mente (Children of the mind), quarto e último romance do primeiro arco de histórias, abrindo a possibilidade de que, no futuro, além da série completa de Ender – que tem mais seis romances, uma coletânea e diversos romances e novelas spinoffs nas séries Shadow saga, Formic wars e Fleet school –, possamos receber outras bem sucedidas séries que Card publicou nos EUA, como Homecoming e Tales of Alvin Maker, bem como mais de sua ficção curta que é de extrema qualidade.

* Trata-se da I InteriorCon, acontecida em 1990.

quinta-feira, 18 de maio de 2023

Resenha do Almanaque: Time out – Os viajantes do tempo

Time out: Os viajantes do tempo, Ademir Pascale, org. 120 páginas. Apresentação de André Carneiro. Belo Horizonte: Estronho, 2011.

Seguindo a tendência iniciada em 2009, 2011 continuou a trazer à luz uma grande quantidade de antologias temáticas, que não deixam de ser uma tradição na fc&f brasileira. Algumas editoras têm de fato se especializado nisso, produzindo antologias em quantidade, embora de tiragens pequenas e memória ainda menor. A maior parte das dezenas de antologias publicadas no período receberam pouquíssimas resenhas e já nem são mais lembradas. Mesmo assim, o ambiente de antologias continua aquecido, com muitos projetos em fase de montagem por diversas editoras, apresentando novos autores, ao lado de veteranos que também precisam de espaço para mostrar seus escritos. Afinal, a quantidade de lançamentos não significa que os mais experientes já tenham estabilidade editorial – pelo contrário, tudo continua incerto e imprevisível, e é preciso aproveitar as oportunidades.
A mineira Estronho é uma das editoras que têm trabalhado fortemente no segmento das antologias temáticas, e em 2011 investiu alguns cartuchos na ficção científica, mas exatamente no subgênero da viagem no tempo, com a antologia Time out: Os viajantes do tempo.
Organizada pelo escritor Ademir Pascale, um dos campeões em organização de antologias temáticas em todos os tempos, Time out reúne oito contos de autores brasileiros, complementados por um ensaio sobre o tema e a apresentação do veterano escritor André Carneiro, uma autoridade no que se refere a ficção especulativa no Brasil.
O conto que abre a antologia é “Déjà-vu: O forte”, de Roberto de Sousa Causo, o texto de ficção mais elaborado do livro. Conta a história de uma mulher diagnosticada com doença terminal, que faz uma viagem sentimental pelo Brasil. Durante visita a um forte histórico, ela tem sua consciência arremessada para o passado, incorporando um soldado naquele mesmo lugar, durante o ataque de uma frota naval.
“A velha canção do marinheiro do futuro”, do próprio organizador, relata a situação incomum de um marinheiro que ficou preso num fenômeno espaço-temporal depois do navio em que estava ter sido usado em uma experiência mal-sucedida: o famoso experimento do USS Philadelphia, integrante da mitologia ufológica. Durante um de seus surtos, ele observa a distopia do mundo de 2075.
O melhor conto da antologia é “A difícil arte de lidar com os patrulheiros do tempo”, de Miguel Carqueija (autor de Farei meu destino; Giz, 2009), devido ao viés cômico que o autor manuseia muito bem. Um cientista meio maluco recebe, em pleno processo criativo, a visita de um jovem que se diz patrulheiro de uma polícia do futuro, que anuncia que vai matá-lo para evitar que invente alguma coisa muito ruim. Sem perder a fleuma, o cientista argumenta de forma a confundir seu assassino e mandá-lo de volta para onde veio.
“Pelas badaladas do tempo”, de Luciana Fátima, é o texto mais curto da antologia. Em clima de poesia, conta as visões de uma mulher ao escutar os sons de um sino.
Álvaro Domingues (autor de Sombras e sonhos; Balão, 2010) também envereda pelo humor em tons farsescos em “Modelo do ano”, em que dois amigos “nerds” que, quando jovens, sonhavam em construir uma máquina do tempo, reencontra-se depois de um afastamento de alguns anos. Um texto leve, mas com um travo machista que certamente não vai agradar as mulheres.
Ecos de Carl Sagan e H. P. Lovecraft se apresentam em “A máquina da insanidade”, de Estevan Lutz (o autor de O voo de Icarus, Novo Século, 2010), no qual um cientista enlouquecido que testou sua própria máquina do tempo, tenta contar sua história para a psicóloga do sanatório onde está internado.
Em “O último trem para as Plêiades”, de Allan Pitz (que escreveu A morte do cozinheiro, Above, 2010), um rapaz conta ao amigo incrédulo o sonho que teve no qual alienígenas o conduziram a uma viagem pelo espaço e pelo tempo, para mostrar-lhe que o fim do mundo está próximo. Texto pessimista e desesperançado, que contrasta com o tom galhofeiro da narrativa.
O último conto da antologia é “Contra o apagar das luzes”, de Mariana Albuquerque (autora de Coração de demônio, Writers, 1999), no qual um grupo de astronautas que testemunhou o fim do mundo cria uma máquina do tempo para voltar cinco anos no passado e tentar impedir a tragédia. Trata-se da mesma premissa do seriado de televisão Odyssey 5; uma fanfic, portanto.
Fecha a edição o breve ensaio “Viagens no tempo na ficção científica brasileira”, de autoria do pesquisador acadêmico Edgar Indalécio Smaniotto, que cita Monteiro Lobato, Erico Verissimo e Jerônymo Monteiro, destaca a noveleta “A ética da traição” (1993), de Gerson Lodi-Ribeiro, e a antologia Intempol, além de outros textos de menor expressão, o que revela a pouca intimidade da fcb com o tema, embora o ensaísta afirme o contrário.
Da mesma forma, a antologia Time out: Os viajantes do tempo é tão leve e despretensiosa que mal arranha o tema. De suas 120 páginas, apenas 80 realmente têm texto, o restante é ocupado por imagens e vinhetas em uma apresentação gráfica sofisticada que merecia a companhia de mais conteúdo.

Resenha do Almanaque: Sagas 1, 2 e 3

Sagas volume 1: Espada e magia (144 páginas), Sagas volume 2: Estranho oeste (144 páginas); Sagas volume 3: Martelo das bruxas (128 páginas), Cesar Alcázar & Duda Falcão, orgs. Porto Alegre: Argonautas, 2010 e 2011.

A Editora Argonautas, de Porto Alegre, como muitas outras editoras novas, é fruto da iniciativa de fãs de literatura de ficção científica e fantasia, no caso os escritores Duda Falcão e Cesar Alcázar. Entusiastas da clássica coleção portuguesa de fc&f Argonauta, da Editora Livros do Brasil, decidiram não apenas dar o mesmo nome à editora, mas estrear com uma publicação que segue a mesma tradição, a coleção Sagas, formada por livros de bolso com antologias temáticas. Trata-se de uma pequena joia em meio à barafunda que se tornou o espaço editorial da fc&f no Brasil, coalhado por antologias temáticas montadas a toque de caixa.
A primeira edição, dedicada à fantasia, foi publicada ainda em 2010, mas as edições 2 e 3, faroeste e bruxaria, respectivamente, saíram em 2011. A edição é cuidadosa e as capas, ilustradas por Nathan Milliner e Fred Macêdo, remetem aos quadrinhos e às revistas pulps.
Sagas volume 1: Espada & magia, tem 144 páginas, prefácio do escritor Roberto de Sousa Causo, e traz textos de autoria de Georgette Silen, Rober Pinheiro e dos próprios editores, explorando enredos na linha das histórias de Conan, O Bárbaro, e de Elric de Melniboné*.
O volume é despretensioso em sua proposta e equilibrado na organização. Os contos são simples, mas correspondem bem à proposta da edição, que é homenagear a Weird Fiction. O melhor texto do conjunto é “A cidadela de Ellan”, de Georgette Silen; de fato é o melhor texto da autora que já tive a oportunidade de ler, com elementos feministas e um enredo que escapa das convenções do gênero. Conta a história de uma guerreira psicologicamente problemática, que precisa recuperar um artefato que está sob a guarda de um velho conhecido, líder de um grupo de salteadores no momento escondidos num castelo. Velhos sentimentos vão emergir em meio à missão que tem tudo para resultar em tragédia.
Sagas Volume 2: Estranho oeste tem prefácio de Thomas Albornoz e apresenta, em suas 144 páginas, cinco histórias macabras de Alícia Azevedo, Christian David, Duda Falcão, M. D. Amado e Wilson Vieira, todas ambientadas no Velho Oeste norte-americano. Trata-se de um tema muito rico, pois no mesmo período podem ser contadas histórias em variados cenários e personagens: com nativos, dramas familiares em fazendas nas planícies, militaria da Guerra Civil, a Guerra da Independência, ou nas guerras indígenas, histórias com os pioneiros, sobre freakshows, sobre a corrida do ouro na Califórnia e no Alasca, sobre as caravanas, sobre os cowboys que atravessavam o país conduzindo seus rebanhos, sobre a construção das linhas de trens, caçadas de baleias, e até dramas urbanos vitorianos nas grandes metrópoles do leste, e muito mais. Mas faltou intimidade dos autores com o gênero. Todos acabaram contando histórias de pistoleiros metidos em confusões em saloons.
O melhor conto do volume é “Aproveite o dia”, de Christian David, com um protagonista patife e espirituoso que traz um colorido diferenciado à monocromia dos demais contos. Ele é um jogador que se mete numa situação da qual não terá chance de sair vivo, a não ser com muita sagacidade e um bocado de sorte.
A edição tem seus méritos, pois o tema é dos mais espinhosos para os autores brasileiros. Tanto que há poucos livros brasileiros nesse gênero, como os romances Areia nos dentes, de Antônio Xerxeneski (2008), e O peregrino, de Tibor Moricz (2011). Uma alternativa bastante razoável seria trocar o cenário do faroeste pelo cangaço, ou por bandeirantes, ou por jagunços modernos. As histórias poderiam ser exatamente as mesmas, mas ganhariam um colorido mais autêntico e imprevisível.
Finalmente, Sagas volume 3: Martelo das bruxas é o melhor da série, com 128 páginas e contos de Ana Cristina Rodrigues, Ana Lúcia Merege, Christopher Kastensmidt, Douglas MCT e Duda Falcão, com prefácio de Simone O. Marques.
“Cada história tem...”, de Christopher Kastensmidt, escritor norte-americano que vive no Brasil e aprecia trabalhar com os temas nativos, narra o duelo entre uma feiticeira e um caçador de bruxas no Brasil colonial, ambos acreditando estarem certos em seus pontos de vista. É o melhor conto publicado na série e, apesar do clima dramático, foi inevitável lembrar da épica luta entre Merlin e Madame Min no clássico desenho animado A espada era a lei (1963), de Walt Disney.
Ana Cristina Rodrigues também se apresenta com um bom trabalho. A história “O quão forte pode um gigante gritar” é ambientada na Irlanda medieval, onde o último sobrevivente de uma raça mágica envolve-se numa situação de risco para salvar uma jovem que está sendo torturada. O maior mérito do conto de Ana Cristina é a história de fundo, que demonstra riqueza suficiente para sustentar um texto bem mais longo. “Encruzilhada”, de Douglas MCT, apesar de não ser tão empolgante quanto os contos anteriores, destaca-se pelo estilo narrativo diferenciado. Conta a história de duas irmãs, meninas ainda, que precisam cumprir um ritual mágico de sacrifício mas, para isso, terão de enfrentar adversários poderosos.
A publicação é simpática e bem feita, contudo, depois do início alvissareiro, lançou apenas mais dois volumes: Sagas volume 4: Odisseia espacial (2013) e Sagas volume 5: Revolução (2014) que, infelizmente, encerraram a coleção. Uma revista similar, a Multiverso Pulp, voltaria em 2020, organizada pelo próprio Duda Falcão, agora pela Editora Avec. Sinal que o cancelamento de Sagas foi, decididamente, um tanto prematuro.
 
*Criações respectivas de Robert E. Howard e Michael Moorcock.

terça-feira, 16 de maio de 2023

Resenha do Almanaque: Muitas peles, Luiz Bras

Muitas peles, Luiz Bras. 128 páginas. São Paulo: Terracota, 2011

A produção de não-ficção no ambiente editorial fantástico brasileiro não é grande, mas tem se mantido estável, com dois ou três publicações por ano. Contudo, geralmente são textos oriundos de trabalhos de graduação acadêmica, com toda a parafernália que caracteriza os ensaios de pesquisa científica universitária: muitas citações, notações de referência e notas de pé de página, o que torna a leitura fragmentada e cansativa, sem esquecer que são textos voltados a provar uma tese, ou seja, são construídos em torno de um objetivo específico e o perseguem até que seja atingido; afinal, se isso não acontecesse, o trabalho seria rejeitado pela banca e seu autor teria de refazê-lo até obter esse resultado. São, portanto, leituras pragmáticas, de interesse específico, que depois de defendidas, aprovadas e publicadas, ficam nas estantes esperando que futuros pesquisadores acadêmicos as tomem para buscar referências e citações para seus próprios trabalhos.
Mas, algumas vezes, surgem títulos que não foram produzidos para o ambiente acadêmico e tornam-se trabalhos de leitura mais fluida para o leitor leigo, como por exemplo O que é ficção científica (Brasiliense, 1986) e Um rasgão no real (Marca de Fantasia, 2005), ambos de autoria de Braulio Tavares.
E também é o caso de Muitas peles, primeiro livro de não-ficção de Luiz Bras, publicado pela Editora Terracota com recursos do ProAC (Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo), distribuído gratuitamente pelo autor. Trata-se de uma coletânea que reúne os melhores artigos de Luiz Bras, publicados na coluna “Ruído branco” do jornal literário Rascunho, de Curitiba.
Luiz Bras notabilizou-se por uma atitude de militância no gênero da ficção científica, atuando como escritor e ensaísta, com propostas de impacto e provocações que transcendem o fandom e ecoam no mainstream literário como nunca antes foi conseguido pelos escritores do gênero. Isso porque Luiz Bras é a persona do multipremiado escritor mainstream Nelson de Oliveira, sendo dele o heterônimo para a ficção científica. Bras tem sido extremamente ativo, publicando vários livros a cada ano, sempre de qualidade acima da média, tendo sido extensamente entrevistado pelo Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica em sua edição referente a 2010, ano em que teve publicada a ótima coletânea de contos Paraíso líquido, pela mesma Terracota.
Não por acaso, Muitas peles traz na capa um desenho de Teo Adorno (outro heterônimo do autor), o mesmo artista que ilustrou a capa de Paraíso líquido, e isso até pode confundir o leitor, mas tratm-se de trabalhos completamente diferentes.
Muitas peles traz dezesseis textos que discutem questões interessantes ligadas ao ato da escrita e da crítica literária, bem como sobre os valores da literatura de gênero, especialmente a ficção científica, frente aos caminhos do mainstream.
Entre os textos está o importante “Convite ao mainstream”, no qual Bras convida todos os autores brasileiros a experimentarem a ficção científica como uma alternativa ao engessamento estilístico da literatura brasileira, um texto que já se tornou basilar no ambiente da fc&f nacional.
Mas o livro tem muito mais a oferecer. Além de “Convite ao mainstream”, Muitas peles traz outros artigos que ampliam a percepção do leitor tanto para a literatura de gênero quanto para o mainstream, como por exemplo “Duas elites”, no qual Bras confronta lucidamente os parâmetros analíticos que predominam nos ambientes da ficção de gênero e do mainstream. O artigo é composto por breves depoimentos de Ana Cristina Rodrigues, Braulio Tavares, Fabio Fernandes, Guilherme Kujawski, Marcello Simão Branco, Roberto de Sousa Causo e Tibor Moricz, todos nomes vinculados ao fandom brasileiro de fc&f, ampliando o leque de opiniões expostas. Faltou, contudo, a contraparte mainstream para configurar um bom debate.
Os demais artigos que compõe o volume são: “O infinito: um delírio?”; “Fim do papel, fim da poesia”; “Escolha um futuro”; “Cinco erros”; “Três leis”; “Sabedoria secreta”; “Olha, mãe, uma cor voando!”; “Encontro com o autor-personagem”; “O autor e seu editor”; “Elogio do acaso”; “Paraíso perdido: a infância”; “Morte e imortalidade” e “Crítica é cara ou coroa”. A coletânea também abre espaço para o artigo “Um bárbaro que se preze não vem para o chá das cinco”, de Roberto de Sousa Causo, escrito a convite de Bras.
Muitas peles é um livro ágil, de leitura leve e agradável, mas de impacto contundente. Sem dúvida, uma das mais importantes publicações do gênero nos últimos anos.