sexta-feira, 1 de junho de 2018

A floresta sombria

A floresta sombria (黑暗森林; The dark forest), Cixin Liu. 472 páginas. Tradução de Leonardo Alves. Editora Companhia das Letras, selo Suma, São Paulo, 2017.

Primeiro: a principal necessidade de uma civilização é a sobrevivência. Segundo: a civilização cresce e se expande continuamente, mas a matéria total do universo permanece constante.
Estas são as premissas que definem A floresta sombria, segundo volume da série Remembrance of Earth's past, do escritor chinês Cixin Liu, cujo primeiro volume, O problema dos três corpos, ganhou o prêmio Hugo em 2015 quando de sua tradução para o inglês, além de ter sido indicado para o Prêmio Nebula. A resenha a esse primeiro volume pode ser lida aqui.
Dividida em três partes, “Barreiras”, “O feitiço” e “A floresta sombria”, esta continuação trata do que acontece à Terra quando a frota alienígena trissolar inicia sua viagem de invasão que, mesmo a dez por cento da velocidade da luz, vai durar quatrocentos anos devido a grande distância entre os planetas.
O projeto de invasão, apresentado já no romance anterior, é administrado a partir de Trissolaria – um planeta que orbita um sistema estelar trinário em que as condições de sobrevivência são caóticas – através de sondas quânticas chamadas sófons, que se ligam à mente de certos humanos e permitem a comunicação instantânea com os alienígenas, algo similar ao ansível proposto pela escritora americana Ursula K. Le Guin em alguns de seus romances. A ação dos sófons também gera na humanidade um bloqueio mental que impede  o avanço da ciência terrestre, de forma que não seja possível defender-se da invasão, ainda que ela só vá acontecer em quatro séculos. O futuro conflito, chamado de Guerra do Fim do Mundo, deixa a humanidade em polvorosa e, embora seja algo distante, causa grande comoção porque tudo leva a crer que o homem será inevitavelmente exterminado pelos trissolarianos.
Para enfrentar o problema, a ONU cria um programa de longo prazo chamado Projeto Barreiras, e escolhe quatro homens especiais para desenvolverem, em segredo absoluto, estratégias que possam fazer frente a força trissolar. Os planos não podem ser discutidos com ninguém, pois os sófons trissolares poderiam descobri-los. Os quatro homens, que se tornam personalidades mundiais com plenos poderes para fazer o que fosse necessário para viabilizar suas estratégias, são: Frederick Tyler, ex-secretário de defesa dos EUA, o ex-presidente venezuelano Manuel Rey Diaz, o neurocientista inglês e prêmio Nobel Bill Hines, e o escritor chinês Luo Ji.
Desde o início, Lou Ji resiste a sua indicação, por não se considerar a altura de um projeto de tal magnitude, mas a forte pressão da ONU o obriga e ele finge concordar. Enquanto as demais barreiras promovem planos de altos impacto e custo, que buscam o desenvolvimento de superbombas, frotas de espaçonaves, máquinas de reprogramação mental, criogenia e outras tecnologias que, apesar de extrapoladas, são apenas avanços de conceitos científicos já existentes – pois as novas descobertas estão retidas pelo bloqueio sófon –, Lou Ji usa os poderes de seu estatuto para encontrar a mulher de seus sonhos e com ela viver um idílio pastoral num paraíso retirado. A falta de resultados palpáveis de Lou Ji irrita seus superiores que decidem congelar sua esposa perfeita e a filha que com ela teve, para serem descongeladas somente no futuro, e obrigá-lo a trabalhar a força de chantagem.
Mas os trissolarianos também não ficam inertes. Além de despacharem uma pequena frota de sondas não tripuladas que chegarão à Terra duzentos anos mais cedo, implementam o programa Destruidores de Barreiras, que seleciona humanos ligados a sófons para descobrir os planos das barreiras e anulá-los. Aos três figurões, os seus destruidores têm a missão de desmoralizar, no que são plenamente bem sucedidos, mas a Luo Ji, cujos planos são aparentemente indecifráveis, é decretada a pena de morte. Sua única providência acaba sendo enviar, para uma estrela distante, uma mensagem que ele chamou de "feitiço". Logo depois de disparar seu feitiço, Luo Ji contrai uma doença mortal desconhecida, aparentemente criada pelos trissolarianos para esse fim, e é congelado para ser despertado somente quando uma cura fosse descoberta.
Duzentos anos depois, às vésperas da chegada  da primeira sonda trissolariana, Lou Ji é curado e descongelado apenas para ser destituído de seu cargo de barreira. Ele encontra uma Terra muito diferente daquela que deixou no passado, com a sociedade vivendo em cidades subterrâneas autônomas, governada pela força de defesa espacial e absolutamente confiante de que vencerá a Guerra do Fim do Mundo. A chegada da sonda parece reforçar suas certezas, pois trata-se de um veículo tão belo e elegante que só pode ser um presente de paz. Mas o que virá a seguir é o horror da absoluta estupidez humana. Sem qualquer esperança, resta à humanidade lançar-se à orgia dionisíaca ou esperar que o desprezado e ridicularizado feitiço de Luo Ji cause enfim algum resultado.
A floresta sombria é um romance massivo, denso, de personagens vívidos e situações dramáticas intensas. Do ponto de vista formal, é tão ou mais elaborado que o volume anterior, e apresenta uma história mais evidentemente vestida de ficção científica, sem tantos elementos regionais chineses quanto visto em O problema dos três corpos. Também percebe-se a grande habilidade do autor em manter todas as costuras do enredo muito bem alinhavadas, com os eventos conclusivos dialogando diretamente com as conceitos apresentados nas primeiras páginas do romance, numa legítima hard fiction de dimensão cósmica desnorteante, ainda que as extrapolações futuristas do terço final revelem um panorama difícil de aceitar depois de seiscentas páginas de uma história em tudo contemporânea. Mas Liu não perde a mão, pois o foco segue sendo nos personagens. Curioso, neste aspecto, o fato que o único personagem do primeiro volume que se manteve neste foi o detetive Da Chi, que parece assim ser o avatar do autor na história. Também é importante observar que Liu apresenta, em meio ao romance, diversos conceitos filosóficos muito interessantes, que por si só justificam a sua leitura.
A edição da Editora Companhia das Letras em seu selo Suma – antes chamado Suma das Letras – é caprichada, com ótima tradução de Leonardo Alves e uma revisão muito boa, com poucos deslizes.  Promete publicar no Brasil ainda em 2018 a terceira e última parte da série, Death's end, originalmente publicada em 2010 e traduzida para o inglês em 2016.
Eis aqui uma trilogia que vale a pena acompanhar.

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