
Mundo novo (The young word), publicado no Brasil em 2014 pela editora Companhia das Letras pelo selo Seguinte, com tradução de Álvaro Hattnher, é o primeiro romance de Chris Weitz, novaiorquino nascido em 1969 e formado em literatura inglesa pelo Trinity College. Weitz é mais conhecido por seu trabalho no cinema: o roteiro de seu longa About a boy (2002), dirigido por ele ao lado do irmão Paul, foi indicado ao Oscar. Além disso, Weitz dirigiu dois grandes sucessos do cinema de fantasia, A bússola de ouro (2007) e Lua nova (2009).
Trata-se de uma ficção apocalíptica, na mesma linha de uma série de produtos recentes da mídia que discutem a mortalidade, como os seriados de tv The walking dead, Helix e The last ship. O tema é bastante recorrente também na literatura do gênero, que tem clássicos como Só a terra permanece, de George Stewart, Eu sou a lenda, de Richard Matheson e Um cântico para Leibowitz, de Walter M. Miller Jr.
Mundo novo conta o que acontece ao planeta quando uma virose agressiva e desconhecida dizima a população adulta e infantil, deixando vivos apenas os adolescentes, que morrem tão logo completam 18 anos. Sozinhos e sem referências, os jovens tentam sobreviver a sua maneira ao colapso da civilização organizando-se em grupos para procurarem por alimentos e outros recursos necessários que coletam nas ruínas das cidades, e se protegerem de gangues rivais que ali disputam o poder.
A história é contada a partir do ponto de vista de dois personagens: Donna, uma adolescente típica do século 21, e Jefferson, filho de cientistas de ascendência japonesa, que é extremamente compenetrado de suas obrigações. Amigos desde a infância, fazem parte de um grupo de sobreviventes na região de Washington Square, em Nova York. O grupo acabou de perder seu líder, Wash, irmão mais velho de Jeff que completou 18 anos e morreu devido à infecção.
Crânio, um outro membro do grupo e fenômeno mirim da ciência, surge com a proposta de pesquisar um certo artigo científico numa revista que pode estar arquivada na grande biblioteca pública da cidade. Triste com a perda do irmão, Jeff acaba concordando em ajudá-lo, mais para sentir que está fazendo alguma coisa a respeito da doença que acabará por levar a todos, mais cedo ou mais tarde. Aos dois garotos associam-se Donna – que não acredita na possibilidade de que Crânio possa fazer o que os cientistas do mundo todo não puderam – e Peter, negro alto e forte que não esconde sua condição homossexual. A eles, mais tarde, vai se unir Minifu, sino-americana com um grande talento em lutas corpo a corpo.
A jornada inicia a bordo de uma caminhonete, que prova ser muito útil para chegar até a biblioteca, mas não mais do que isso. Contudo, esse é apenas o início de uma jornada repleta de perigos mortais como gangues inimigas, uma comunidade de canibais, matilhas de cães ferozes, animais selvagens sobreviventes do zoológico, muito tiroteio e correrias. Amarrando a peregrinação, que vai passar por diversos pontos turísticos dessa Nova York arruinada, o drama íntimo de Jeff, que não consegue declarar seu amor por Donna, uma história que só vai se definir nas páginas finais.
A narrativa é linear, mas a alternância de narrador lhe acrescenta tempero especial, porque Weitz maneja muito bem as duas vozes. O feito é o de ler dois diários que contam a mesma história em estilos bem diferentes. O texto de Jeff é escorreito e segue a norma culta da língua, o que combina com a personalidade séria do garoto. Já a narração de Donna é indisciplinada e errática, repleta de soluções improvisadas, com o uso exagerado de gírias e de estruturas típicas do roteiro de teatro, com os nomes dos personagens antes de suas falas. A editora também ajudou, definindo uma tipologia específica para cada narrador, de forma que percebemos a variação não apenas pela leitura, mas também no visual das páginas.
Outro mérito de Weitz são as alfinetadas que ele distribui a vontade contra o ambiente acadêmico. Por exemplo, quando Jeff e Crânio discutem a extinta prática da publicação de artigos acadêmicos. Jeff diz:
"Na superfície, parece ser um artigo de opinião, ou mesmo um ensaio sobre ética científica, mas me parece o tipo e coisa com que meus pais tinham de lidar. Chamavam de defesa de interesses pessoais." (página 121).
O autor também insere muitas referências à cultura pop e não evita revelar suas influências mais imediatas, tais como o romance O senhor das moscas (Lord of the flies), de William Golding, e Os arquivos confusos da sra. Basil E. Frankweiler (From the mixed-up files of Mrs. Basil E. Frankweiler) de E. L. Konigsburg, citados pelos personagens, entre outros.
Mundo novo é um romance divertido e adequado ao público jovem-adulto ao qual foi dirigido, mas que não abandona o leitor experiente, oferecendo discussões éticas e morais que podem levar a reflexões bastante profundas.
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