sábado, 31 de dezembro de 2016

Letras de novembro

A editora Companhia das Letras fechou 2016 com os lançamentos de novembro que, desta vez, trouxeram pouco na área do ficção fantástica.
O lançamento mais importante foi Jantar secreto, do escritor carioca Raphael Montes que, tal como em seu livro anterior, O vilarejo (2015) investe no terror ao estilo decadentista. Diz o texto de divulgação: "Um grupo de jovens deixa uma pequena cidade no Paraná para viver no Rio de Janeiro. Eles alugam um apartamento em Copacabana e fazem o possível para pagar a faculdade e manter vivos seus sonhos de sucesso na capital fluminense. Mas o dinheiro está curto e o aluguel está vencido.
Para sair do buraco e manter o apartamento, os amigos adotam uma estratégia heterodoxa: arrecadar fundos por meio de jantares secretos, divulgados pela internet para uma clientela exclusiva da elite carioca. A partir daí, eles se envolvem em uma espiral de crimes, descobrem uma rede de contrabando de corpos, matadouros clandestinos e grã-finos excêntricos, e levam ao limite uma índole perversa que jamais imaginaram existir em cada um deles".
Para a criançada, mas que todos gostam de ler, o selo Companhia das Letrinhas apresentou dois títulos interessantes. O lagarto é um conto de fadas de José Saramago, importante autor português ganhador do Nobel em 1988. O volume é ilustrado pelo cordelista e xilogravador J. Borges, e conta "a história deste lagarto gigante que surgiu de repente no meio da rua, espalhou o caos entre os moradores da cidade".
Saci: A origem é um conto do israelense radicado no Brasil Ilan Brenman, que aborda o conhecido mito nacional: "Todo mundo já ouviu falar do menino de uma perna só, que anda por aí com seu gorro vermelho e um cachimbo pregando peças em todos. Mas como foi que o Saci Pererê surgiu? E como foi que ele perdeu a perna e aprendeu a se locomover usando um redemoinho?" As ilustrações são do espanhol Guridi.
Muito mais nos espera em 2017. Feliz ano novo!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

QI 142

Está circulando o número 142 do fanzine Quadrinhos Independentes-QI, editado por Edgard Guimarães, dedicado ao estudo dos quadrinhos, destacando a produção independente e os fanzines brasileiros.
A edição tem 36 páginas e traz artigo do editor sobre o personagem nacional Hydroman, criado em 1965 por Gedeone Malagola e Momoki Akimoto, sequência do depoimento de José Ruy sobre o periódico português Tintin, mais artigos de E. Figueiredo e Lio Guerra Bocorny, quadrinhos de Chagas Lima, Carlos Rico, Assis Lima, Luiz Cláudio Lopes Faria e do editor. Completam a edição as colunas "Mistérios do colecionismo", "Mantendo contato", "Fórum" e "Edições independentes" divulgando os lançamentos de fanzines do bimestre. A capa tem uma ilustração do editor.
Junto à edição, os assinantes receberam Artigos sobre Histórias em Quadrinhos 4: Buffalo Bill, Os grandes mitos do Oeste, fascículo de 12 páginas, de autoria do colecionador português Carlos Gonçalves, com muitas imagens antológicas.
QI é distribuído exclusivamente por assinaturas, mas sua versão digital poderá em breve ser encontrada, para download gratuito, no saite da editora Marca de Fantasia, aqui, com a vantagem das imagens em cores. Algumas edições anteriores também estão disponíveis, assim como os fascículos nelas encartados. Mais informações com o editor pelo email edgard@ita.br.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Pau e pedra

Pau e pedra (Sticks and stones), Peter Kuper. 132 páginas. Quadrinhos na Cia, Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2016.

Quadrinho é literatura? Eis a questão. Muita gente concorda que as histórias em quadrinhos são literatura tão sofisticada quanto os livros exclusivamente em texto. Outros defendem que comparar os quadrinhos à literatura é um reducionismo, que tira dos quadrinhos seu próprio espaço na medida em que o constrange frente a uma arte que tem muito mais tempo de desenvolvimento.
Entendo que haja aqui um problema de autoestima dos autores de quadrinhos que, no Brasil, têm muito menores oportunidades de se fazer visíveis, sem falar na luta contra o preconceito que ainda grassa no mainstream. Contudo, em outros mercados, essa síndrome de vira-latas não procede, pois autores de quadrinhos têm, muitos deles, mais visibilidade e fama que muitos escritores tradicionais.
No campo da ficção científica, esse divergência é ainda mais notável. No Brasil, onde o gênero ainda engatinha em busca de personalidade, são raros os quadrinhos que ombreiam a literatura, que, por sua vez, também não é muita. Mas no exterior, esse contorno também não procede. Obras como O eternauta, de Oesterheld e Solano Lopez, Akira, de Katsuhiro Otomo, e Nausicaa do Vale dos Ventos, de Hayao Miyazaki, são usualmente considerados como expoentes da literatura de ficção científica mundial. A estes certamente podemos acrescentar Pau e pedra, de Peter Kuper, uma narrativa que dá um novo conceito ao termo "romance gráfico": a história é contada exclusivamente através de desenhos, sem nenhum texto.
Esse estilo de narrativa, conhecido no Brasil como quadrinho mudo, não é novidade. Nos jornais, as tiras do Reizinho (The little king, de Otto Soglow, 1931) e Pinduca (Henry, de Carl Anderson, 1932) estão entre as mais conhecidas. Mesmo assim, a ausência do textos é um recurso razoavelmente incomum na arte. Mas o norte americano Peter Kuper tem no quadrinho mudo o seu estado natural. Antes de Pau e pedra, publicado originalmente em 2004, Kuper vem exercitado a narrativa sem palavras desde 1997, quando assumiu Spy vs. Spy, série cômica publicada periodicamente na revista Mad, criação do cartunista cubano Antonio Prohias.
Pau e pedra é uma fábula sobre poder e intolerância, contada de forma sensível, mas não menos chocante. Um bebê de pedra é cuspido da boca de um vulcão. Lentamente, enquanto cresce e amadurece, desenvolve habilidades físicas e intelectuais que permitem que ele domine uma população de pequenos seres de pedra que o ajudam a construir sua cidadela. Mas o gigante também desenvolve um caráter dominador, praticamente escravizando seus súditos, que o idolatram como a um deus. Um dia, conduzido por um de seus exploradores, o tirano de pedra descobre, numa área isolada próxima ao seu castelo, uma comunidade de seres de madeira, que vivem em idílio pastoral. O povo de pedra ataca e escraviza o povo de madeira, para levar para sua cidade aquele novo e confortável material. Com os seres de madeira, também encontram pedras preciosas, que se tornam o grande tesouro do gigante. Contudo, entre o povo de pedra, há aqueles que discordam da forma com que o gigante governa, mas isso acaba por fazer com que todos os dissidentes, de pedra e de madeira, sejam aprisionados numa cela no alto das muralhas. Mas a maldade e a ganância não podem durar para sempre.
Os desenhos de Kuper são simples e esquemáticos, com um ótimo tratamento de claro/escuro. Curioso é a interpretação que Kuper dá a narrativa quanto ao espírito da cena: no estado de paz, os desenhos ganham cores vibrantes, contrastando com o cinzento predominante no restante da história.
A edição da Quadrinhos na Cia é elegante, em papel couchê de alta gramatura, que dá ao volume uma dignidade própria dos livros. Mas o formato incomum, praticamente quadrado, destaca a edição tanto entre o padrão dos livros quanto dos álbuns de quadrinhos em geral.
Pau e pedra foi premiado com a medalha de ouro de 2004, pela Society of Illustrators.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

As luzes de Alice

Publicado em 2004 em edição real na coleção Hiperespaço, a novela As luzes de Alice, do ficcionista carioca Miguel Carqueija, foi disponibilizada gratuitamente pelo autor no saite Recanto das Letras. Trata-se de uma aventura de ficção científica com toques de horror lovecraftiano. Diz o texto de apresentação: "Dentro do universo ficcional dos 'Mitos de Cthulhu', criados pelo prestigiado autor norte-americano H. P. Lovecraft (1890-1937) dei início a uma série em torno de Alice Chantecler, uma jovem vidente de cabelos vermelhos. Convido os leitores a adentrarem o ambiente misterioso e opressivo do Mundo Negro, um satélite artificial que orbita a grande distância da Terra e onde sucedem coisas estranhas e terríveis".
O arquivo, em formato de texto, pode ser baixado aqui.

Sol Negro

O Hiperespaço acaba de entrar em órbita da Sol Negro, editora independente de Natal, Rio Grande do Norte, administrada por Márcio Simões, que tem como foco a poesia e a literatura que está "à margem dos interesses representados pelas grandes editoras e conglomerados de informação", como diz o editor em sua página eletrônica. Dessa forma, sabemos que vamos encontrar material raro e incomum no mercado.
Trabalhando há já alguns anos, a Sol Negro divide seu catálogo nas coleções Cinzas ao Sol (poesias, em edições bilíngues), Os Dentes da Serpente (poesia contemporânea), Caravela Negra (ficção), Hermeneus (ensaios e não ficção), Imago (literatura plástica) e Plaquetas Sol Negro (ficções curtas e poemas em edição única), tudo com novas traduções e acabamento caprichado, a preços bastante acessíveis.
Destaque para as primeiras edições em língua portuguesa (até onde eu saiba) de A cidade da chama cantante e O mundo eterno, de Clark Ashton Smith.
Mas também pode-se encontrar ali a coletânea Paisagens apocalípticas, de H. G. Wells, e a antologia O homem do haxixe e outras histórias de paraísos artificiais, organizada por Camilo Prado com contos de Téophile Gautier, Jean Richepin, Guy de Maupassant, Jean Lorrain, Claude Farrère, Horacio Quiroga, Lord Dunsany, Bernardo Couto Castillo, Théo-Filho e Carlos A. Casotti, além de muitos outros títulos interessantes para quem gosta de literatura invulgar.
Aventure-se no catálogo da Sol Negro, aqui.

Juvenatrix 182

Está disponível a edição de dezembro do fanzine eletrônico de horror e ficção científica Juvenatrix, editado por Renato Rosatti.
A edição tem 14 páginas e traz contos de Rogério Amaral de Vasconcellos e Norton A. Coll, além de resenhas aos filmes 984: Prisioneiro do futuro (984: Prisoner of the future, Canadá, 1982), Os bárbaros invadem a Terra (The mysterians, Japão, 1957), A fuga do terror (Blood bath, EUA, 1976), Pânico no lago: O capitulo final (Lake Placid: The final chapter, EUA, 2012), Os reencarnados/A morta viva (The undead, EUA, 1957) e O vale proibido (The valley of Gwangi, EUA, 1969). A capa traz uma ilustração de Angelo Junior. Divulgação de fanzines, livros, filmes e bandas independentes de rock extremo complementam a edição.
Para obter uma cópia, basta solicitar pelo email renatorosatti@yahoo.com.br.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Na eternidade sempre é domingo

Na eternidade sempre é domingo, Santiago Santos, 144 páginas. Ilustrações de Jean Fhilippe. Editora Carlini & Caniato, Cuiabá, 2016.

O escritor matogrossense Santiago Santos apareceu há poucos anos nas redes sociais com um trabalho a conta gotas apoiado em minicontos surpreendentes, mas logo chamou a atenção por suas tramas envolventes e bizarras. Essas pequenas narrativas, que podem ser vistas no blogue Flash Fiction, revelam um autor maduro e repleto de recursos, que não se embaraça seja no mainstream, seja nos gêneros, que desenvolve sem padrões e protocolos. Cada texto é uma experiência diferente e, muitas vezes, depois dos poucos minutos dedicado à degustação do mesmo, o leitor fica com a vontade de mais.
Na eternidade sempre é domingo vem atender ao desejo desses leitores. Trata-se do que, na tradição anglófona, se convencionou chamar de fix-up, um romance construído a partir de narrativas menores independentes entre si mas que, quando reunidas assim, formam um todo coerente. Os vinte pequenos contos publicados neste livro parecem prometer satisfazer o anseio do leitor, mas, no fim das contas, fiquei querendo mais do mesmo jeito.
O romance, o primeiro do autor, é um relato de um mochilão pelos Andes peruano e boliviano, viagem que Santiago realmente empreendeu em 2014. No primeiro conto, ainda no Brasil, o autor é confrontado por uma entidade mágica que se apresenta como Nipi, um espírito ancestral que, a cada trecho da viagem, revela os segredos fantásticos que diversos personagens escondem em sua aparência cotidiana. Assim, uma senhora insuspeita se revela uma antiga modelista da corte incaica, dois meninos de rua são os filhos imortais de Atahuallpa e Huáscar, e até animais domésticos se elevam a categoria de semidivindades. Todo isso para que a história e a cultura andinas sejam levadas ao mundo e nunca esquecidas.
A jornada nos leva a Cusco, La Paz e diversos vilarejos e pontos turísticos da região, como o Lago Titicaca e Machu-Picchu, com descrições vívidas de suas paisagens e costumes. Cada conto/capítulo é aberto por uma fotografia tirada pelo autor, que ilustra os personagens que irão ali se apresentar.
O autor revela ter feito uma longa e minuciosa pesquisa para escrever os relatos, de forma que a ficção se mistura à realidade e não sabemos exatamente onde termina uma e começa a outra. Para auxilar o entendimento dos muitos termos quíchua que dão título aos contos e surgem a todo tempo em meio à narrativa, há oportunas notas de rodapé e vários apêndices, que também dão aos contos uma sólida consistência histórica.
Mas o que isso tem a ver com nós, brasileiros, que aparentemente não somos em nada participantes dessa cultura? Em tempos de governo golpista que vira as costas para a América Latina, pode mesmo parecer inútil, mas nos faz pensar no porquê disso, que é uma questão que paira sem resposta desde os primeiros tempos do fandom brasileiro de fc&f. Por que não temos um intercâmbio com a produção dos nossos vizinhos? Por que não valorizamos a cultura do subcontinente no qual nos incluímos, desprezando até mesmo nossa própria tradição em favor de modelos de terras muito mais distantes e ainda mais incompreensíveis?
Santiago Santos mostra que é possível construir ficção relevante sem tributar às metrópoles e que a América Latina é um mistério ainda por ser descoberto pelos brasileiros. Porque, afinal, as fronteiras são apenas limitações políticas: a América Latina também está em nós.
A aventura termina como todas as peregrinações: numa última viagem de ônibus de volta para casa. Nipi se despede mas, por certo, continua a espera dos peregrinos, para mostrar outros segredos da rica magia andina.
O volume está disponível em versão digital aqui, mas pode ser obtido em papel no saite da editora ou diretamente com o autor – com direito a autógrafo e dedicatória – através do email contato@flashfiction.com.br.
Uma entrevista em áudio em que Santiago conta a experiência de escrever este livro, pode ser ouvida aqui.